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Capítulo 48 – Em um piscar de olhos

Capítulo 48 – Em um piscar de olhos

Como um cometa, cruzando o céu ao anoitecer.

Como um arco íris, sumindo em um piscar de olhos.

Brilhante, cintilante.

Aqui um dia se tornou noite.

Se foi cedo demais.

Michael Jackson

                      

 Tudo mudou.

 Bruno não sabia porquê parecia que todas as noites Jasmin escolhia brigar. E ele sabia que fazia o mesmo.

 Isto não é o que dois apaixonados deveriam fazer.

 Eles brigam, zoam e gritam. E é tudo por causa do amor. Mas ambos sabiam que nunca iriam desistir. Porque como poderiam deixar a única coisa que os mantém de pé? Porque sabiam que poderiam resolver, conversar e por tudo para fora.

 Peter estava dormindo ao lado dela, braço com braço, do anoitecer ao amanhecer. O sol californiano sempre entrava pelas cortinas torcidas, e o cheiro da noite passada ainda nos lençóis. Olhos nos olhos, mãos dadas, peito no peito, coração batendo forte, eles sempre foram tão próximos. Eles dormiram juntos, mas então por que quando ela esticava o braço o sentia a milhas de distância?

 Mais uma vez Jasmin estava sozinha na praia.

 Lágrimas escorriam de seus olhos e Santiago estava sentado a uma distância, sabendo que ela era tudo o que ele queria. Mas ele não podia fazer nada, estava tão indefeso.

 Todos os dias a mesma velha história, Jasmin ainda estava sentindo dor. Aquela paixão que a fazia tão mal, mas a culpa não é dela. Jasmin sabe mais, mas ela não pode fazer nada.

 Santiago quer dizer a ela, mas teria que ser egoísta para isso, como se cura um coração ferido, se liberta de um amor doentio, mas o amor de Bruno é tudo o que Jasmin conhece.

 Ela vive há tanto tempo assim, e isso o está matando. Porque Jasmin pode ter muito mais, era ele quem ela precisava, mas Jasmin fecha os olhos nele. Santiago queria que ela soubesse que poderia ser melhor que aquilo. Queria que fossem mais que amigos. Como ela se esforçava para ser. Mas ele não podia fingir.

 Prometera esperar, e o estava fazendo. Sabia o que vira nos olhos castanhos da ruiva dos seus sonhos, e esperaria até que ela não aguentasse mais, até que ela percebesse. Poderia lutar por ela como fizera antes, mas agora era tempo de ter paciência, ele aprendera isso.

 As coisas aconteceriam.

 Ás vezes quando os dois se falavam, Santiago a fazia rir. Algumas vezes contou sobre suas peregrinações, Jasmin fazia perguntas, os dois ficavam tranquilos observando as cores do céu, o movimento da rua, fosse a hora que fosse. E então Jasmin ia embora, mantendo as coisas assim.

 Santiago sabia que não era por ele que Jasmin chorava. Ele não causava mais problemas ao casal.

 Ele estava certo. Não havia uma explicação.

 Não se pode dizer como, ou porque, nem quando.

 Como um arco-íris sumindo num piscar de olhos. Certo dia Peter e Jasmin se olharam e baixaram as cabeças. Doía. Estar junto parecia obrigação. As longas viagens de avião.

 Dedos nos dedos, bochecha com bochecha, mas sentiam-se longe um do outro. Uma flor perfeita fora de seu alcance.

 Jasmin dizia para Bruno ir, ele começava a sair, mas algo o fazia dar meia volta. Ela o deixava louco, mas Peter a ama. E não há quem os ame como os dois se amam.

 Bruno dá outro sorriso, tenta entender o lado dela, para mostrar que ele se importa. Jasmin não consegue ficar no quarto, ela é consumida por tudo o que vem acontecendo.

 Ela diz o que quer que aconteça não solte a minha mão.

 Tudo ficará bem, Peter garante à ela. Mas Jasmin não ouve uma palavra do que ele diz.

 Preocupada, ela está com medo de que o que estão fazendo não é certo. Ele não sabe o que dizer. Peter está trabalhando noite e dia. Eles não percebem que isto não é o fim do mundo.

Continua…


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Capítulo 47 – O anúncio

No capítulo anterior

 "…O papai e o vô contaram a Peter de seu projeto com mosaico de pedras. Era um enorme quadro, dois metros por um e meio, de uma paisagem de primavera, as flores eles explicavam, era a parte mais complicada de se fazer. 

  O sol estava claro neste dia, estava calor, mas a brisa do mar era tão viva. Os fios dos cabelos do papai e do vovô pegavam fogo com os raios de sol, os meus deviam estar também. Eles vieram de uma barraca trazendo tapioca de chocolate para todo mundo.  Cada um pegou a sal e começamos o jogo de dama na mesa de concreto. As garotas contra os garotos. Mamãe e eu perdemos mais que ganhamos, a cada uma todos gritavam, uns em comemoração, outros por inconformismo. O som do mar, o vento, o aroma salgado, os risos, o quanto eu quis segurar este momento. 

 Este momento que se enraizaria nas janelas de minha memória, marcado para sempre em meu coração, era deste momento que eu lembraria…”

Capítulo 47 – O anúncio

 Os últimos dias de julho, o mês de agosto passou assim.

 Eu estava realmente confiante, renovada psicológica e emocionalmente.

 Ficar com Santiago tinha sido o ápice daquela crise, na qual tudo o que eu acreditava e confiava foi posto à prova até ruir. Eu estive em meio a destroços, vazia, sem nada nas mãos, com a identidade perdida.

 Mas de todo o conflito ressurge uma nova pessoa, uma nova fé, novos conceitos, uma nova força. 

 Depois da ruptura eu me reconstruí.

 Eu acreditava agora que Peter e eu tivéssemos aprendido a lidar com nossas maiores dificuldades, nosso relacionamento se fortalecera.

 Muito tempo livre estava a minha disposição graças a minha nova vida profissional. Papai não estava tão preocupado mais com a empresa, parecia um verdadeiro adeus ao Antony Ibelly dos negócios, a outra parte, o Tony maluco, estava tomando conta. Assim nossa família se reunia com essa frequência.

 Tudo estava; só uma palavra pode definir e esta é: perfeito.

 Vivíamos uma temporada muito feliz e em paz. Quando se olha para o alto azul do céu, mira o vasto azul do horizonte e pensa eu poderia me sentir assim para o resto da vida.

 Todos querem ser felizes. Mas o que é felicidade? Todo o mundo também se questiona. A felicidade não existe. Não como uma fórmula, um ponto de chegada, um estado contínuo. Há momentos felizes.

 Que geralmente são intercalados de momentos infelizes.

 E pensa-se vou passar por isto aqui com a fé de que o tempo de bonança virá. O sobe e desce da vida. O Gráfico da Felicidade.

 Eu estava num ponto muito alto deste gráfico.

 Ás vezes o Equinócio traz algum equilíbrio. A vida parece justa, lutas, vitórias, guerra, paz, apenas continue movendo.

 E então um estado de fleumática felicidade, algo tão agudo e singular de repente só parece o prelúdio para algo muito ruim.

 Era daqueles últimos momentos felizes que eu me lembraria quando tudo estivesse perdido.

Continua… 


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Capítulo 46 - Era deste momento que eu me lembraria

Aloha, recomendo que releiam os dois últimos capítulos, como são bem curtinhos acho que não é problema, digo isso para sua melhor compreensão. ;) Boa leitura.


 Capítulo 46 - Era deste momento que eu me lembraria

 

  

  Certo dia fui à praia, num sábado magnífico. 

 O sol estava quente e o céu amplamente azul. Na manhã de sexta-feira havíamos nos encontrado, toda a família, para tomar café da manhã juntos enquanto o sol se erguia por detrás dos prédios. O vô tinha um projeto novo, para um mosaico de azulejos e pedras de granito, ele o papai. 

— Vô! — Atravessei a ciclovia e alcancei a calçada onde ele estava.  Em frente aos prédios da praia há mesas de concreto, bancos de praça e quiosques. O vô havia montado seu canto entre alguns hippies, que tinham sua arte exposta em mantas no chão. Ele estava sentado em um banquinho de madeira, concentrado em um caderno em suas mãos. 

— Aloha, Ariel!  Ergueu a cabeça e disse sorridente com a voz fanhosa de propósito. 

 Eu dei uma risada, ele e o papai falavam assim comigo, alterando a voz, até hoje. Aproximei-me dele e nos beijamos no rosto. Ele cheirava a sal, suor e cigarro. 

— E, ai?  Olhei em seu rosto e espiei o caderno em suas mãos. 

— Tava aqui vendo os cálculos e as posições dos cortes — gesticulou sobre a folha, me mostrando seus esboços. Ele ficou concentrado novamente, voltou a rabiscar, parar, observar, murmurando. Observei-o por um tempo, sentindo também a brisa marinha, apreciando a praia cheia, repleta de turistas e pessoas lindas. 

— Vou chegar ali rapidinho — falei. 

— Hmrum — ele murmurou de volta, assentindo. 

 Segurei minha bolsa junto ao meu corpo e caminhei pela calçada de pedras portuguesas, olhando as ondas no mar, o horizonte, em direção à loja da mamãe. 

— Aloha, Manhinha! —Exclamei ampla e alegremente, minha voz soando junto ao sino de ventos na porta. 

 Ela estava reabastecendo o refrigerador de Mate e H2O. — Oooi, fiilha! — se sorridente e veio correndo ao meu encontro de braços abertos. Cheia de alegria eu a abracei e apertei, nós nos beijamos muitos nas bochechas, ela sentiu cócegas, nos afastamos rindo. 

— Ah , que delícia! — Suspirei balançando os braços, olhando para ela e ao  redor. — Tudo bem por aqui?  

— Tudo tranquilo — mamãe voltou ao refrigerador. Nós duas abrimos um Mate com limão para cada uma e eu a ajudei com a arrumação de algumas mercadorias, ali o movimento era grande, a reposição tinha que ser constante, o fizemos batendo papo. 

 Usei o banheiro dos fundos para trocar a calça social por um short jeans, continuei com a camisa social, mas a desabotoei e dobrei as mangas, minha mãe soltou os cabelos castanho claríssimo, tirou o avental com o logo da loja, deixamos a venda aos cuidados de um funcionário e fomos junto ao vô Antony. 

— Tony fica falando disso, mas eu não entendo nada — mamãe deu um risinho e suspirou correndo os olhos pelo horizonte azul. 

 Eu ri — sei como é! 

— Só vou entender quando estiver em processo. Não sei como eles conseguem ver. Fica tudo na imaginação deles, só eles veem. 

— Ás vezes penso que entendo — olhei para ela. — Penso! 

 Nós duas demos risada. Continuamos andando até o vô Antony, dissemos a ele que íamos dar uma volta na praia. 

 Eram nove e meia da manhã. Eu tive uma reunião rápida com a direção e professores da universidade, de 7h30 às oito e pouco. Ao ar fresco e brisa que atravessava nossos corpos minha mãe e eu caminhamos lado a lado, conversando alegremente como duas amigas — o que somos mesmo. Falei sobre minhas leituras, ela me contou sobre curiosidades e acontecimentos que soubera através da rádio de notícias que gostava de ouvir, que complementava o que eu falava ou não, e nos fazia dar risadas e lembrar de outros assuntos que queríamos compartilhar. 

 Mamãe é muito linda! Eu pensava a todo instante. Olhava, não apenas, eu contemplava seu rosto sorridente e olhos brilhantes. Mamãe é engraçada, certas vezes quando fala algo leva a mão à boca e dá uma risadinha seguida de um olhar de lado. 

 O papai ligou, ele tinha trabalhado muito durante a semana, e até tarde na noite anterior, com voz um pouco rouca por ter acabado de acordar disse que estava a caminho. Mamãe e eu nos acomodamos na calçada, com os pés na areia sob uma fileira de palmeiras. Há poucos metros do vô Antony. Peguei meu celular e coloquei Jason Mraz para tocar. Tocou também Bob Marley, Elton John e Bruno Mars. 

 Papai chegou, vestindo bermudas de surfista estampada e estava sem camisa. O cabelo dele estava molhado penteado para trás mas caia para os lados repartindo ao meio. Com sua prancha debaixo do braço, apele vermelha, estava bebendo Todynho. Eu sorri ao vê-lo. 

 Chamamos o vô e andamos pela praia; comendo tapioca em uma barraca, pamonha em outra, cocada em um quiosque, bebendo água de coco sentados a mesa de outro. Conversamos com alguns turistas desconhecidos, encontramos Anny e sua trupe que tinham feito trilha conosco há uns dias. Satisfeitos com o que comemos, fomos no carro do papai para o centro da cidade. À loja de materiais de construções enorme, de se perder nela, compramos azulejos de várias cores — que o Vô Antony e o pai Tony discutiam e nos pediam opinião. Compramos telas, colas, cimentos de azulejo e corantes. Depois fomos à uma loja de artesanato, levamos mais tintas, pinceis, e eu e mamãe escolhemos umas peças de madeira para finalizar — pintaríamos e decoraríamos. 

 Ao fina da tarde voltamos para casa, para a casa de meus pais, espalhamos as compras pela sala e começamos a falar sobre o que cada um ia fazer. Eu liguei para a lanchonete e pedi três cheese duplo e uma pizza tamanho família. 

๗ 

 Peter disse que três semanas passariam rápido, mas isso já era quase um mês. Passando as compras no caixa, recostei no balcão para responder a mensagem dele. Nina me chamava no chat. 

"Amor, vou dirigir agora. Já volto." Ele sabia que eu estava no mercado. 

"Okay :) " 

"Myn, pode falar agora?" Nina enviou. Eu não respondi, paguei as compras, que eram poucas em duas bolsas e liguei para ela. Apesar de menos frequente, devido a saudade, que no caso da distancia só faz o contato a distancia ser mais doloroso, nós nunca deixamos de nos falar — por Skype, redes sociais — e era quase como se convivêssemos, sabíamos e acompanhávamos a vida uma da outra. Quando cheguei ao condomínio nos despedimos, guardei o carro no estacionamento e a caminho do elevador já voltei a falar com Peter. 

"ESTOU COM SAUDADES" Eu enviei. 

"Eu também! Mas você está bem?" 

"Tô. Já aprendi a viver sem você." Franzi o cenho pelo jeito que aquela frase soava, acrescentei um emoticon triste. 

"Quando nos encontrarmos vou te abraçar muito, minha ruiva." 

"Também não vejo a hora…" 

— Vou te pegar no colo, encher de beijos e fazer amor com você até o dia seguinte. 

 Eu parei, pensando por um instante que a voz vinha do celular, Bruno abriu a porta de meu apartamento. Ele estava bem ali! 

— Ah! Ah! Peter!! — Larguei as bolsas e pulei em seus braços. 

 Ele me encheu de beijos, me abraçando e me girando em seu colo. —  não acredito!! — Gargalhei olhando em seu rosto lindo. — Oh! — Abracei-o forte, fungando seu pescoço. 

— Surpresa — Peter sorriu exibindo as covinhas e deixando os olhos meia-lua mais cerrados, sua risada gostosa me fez sentir cócegas no coração. Ele havia entrado no apartamento usando a chave extra que fica no vaso de planta na soleira da porta. Pegamos as bolsas, estramos e fomos cumprir as promessas que tínhamos acabado de fazer — é o amanhecer. 

 No dia seguinte passamos a tarde na praia com o Vô Antony, Bruno atraiu muita atenção, o Arpoador é sempre movimentado, mas ao final conseguimos aproveitar tranquilamente. Ficamos um pouco na loja com a mamãe quando ela chegou da empresa às quatro da tarde, em seguida veio o papai, de banho tomado, sem camisa e com sua prancha — como sempre. Ele e o vô contaram a Peter de seu projeto om mosaico de pedras. Era um enorme quadro, dois metros por um e meio, de uma paisagem de primavera, as flores eles explicavam, era a parte mais complicada de se fazer. 

 O sol estava claro neste dia, estava calor, mas a brisa do mar era tão viva. Os fios dos cabelos do papai e do vovô pegavam fogo com os raios de sol, os meus deviam estar também. Eles vieram de uma barraca trazendo tapioca de chocolate para todo mundo.  Cada um pegou a sal e começamos o jogo de dama na mesa de concreto. As garotas contra os garotos. Mamãe e eu perdemos mais que ganhamos, a cada uma todos gritavam, uns em comemoração, outros por inconformismo. O som do mar, o vento, o aroma salgado, os risos, o quanto eu quis segurar este momento. 

 Este momento que se enraizaria nas janelas de minha memória, marcado para sempre em meu coração, era deste momento que eu lembraria…

                         


 Estes últimos capítulos podem ser vagos, mas nem tanto, não é? Mas é isso mesmo, a história não é feita de um capítulo apenas, vários deles vão montando o quebra cabeça… Apenas leiam com a tenção e vão colhendo as informações, as dicas, que em dois capítulos… Hm, vamos ver, né?? Comentem. ;) Honis :**

 


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2 months ago
Capítulo 45 - Nós tínhamos planos
Anteriormente em Mo’e Uhane Aloha

—Ariel! Ai, Ariel! – Papai gritou lá debaixo. Ele e o vô soltavam pipa na proa da embarcação, eu sorri e acenei para eles. Mamãe estava em uma espreguiçadeira a sombra do guarda-sol, lendo um livro.
 Caminhei até a extremidade traseira do iate e sentei recostada nos equipamentos de mergulho. Eu comprara uma carteira de Marlboro há um tempo, fumava um vez ou outra. Acendi um cigarro e fechei os olhos sentindo o sol. Direcionando os pensamentos a questões mais leves.
 Os planos para o fim de semana eram velejar, mergulhar e comer frutos do mar. Papai parecia cansado, a crise no comercio não estava sendo fácil, ele falava sobre se aposentar. Ultimamente, quando eu ia visita-los nós dois ficávamos ouvindo Legião Urbana e U2 em silêncio, sentados no chão da sala. Era a nossa maneira de nos consolarmos um ao outro, nosso silêncio era repleto de sentimentos quase tangíveis, que não tínhamos coragem de expor, mas ambos sentíamos e ouvíamos aquilo que não era dito. E nos entendíamos com o olhar de maneira tão comovente que qualquer outro gesto era desnecessário.
 Nós éramos assim, desde sempre. E eu sentia que papai estava muito feliz naquele fim de semana em família, e eu também compartilhava o contentamento.
 O vô Antony estava bastante entusiasmado, com a expectativa do campeonato no fim do ano. Se antes ele já vivia surfando agora ele morava no mar. Eu não o encontrava mais sentado na areia entalhando suas molduras ou pintando, como às vezes encontrava. Na verdade nos últimos meses ele viajara muito, se antes ele já era vigoroso, com essa expectativa de reviver as competições da juventude o vovô estava impossível.
 Ao conforto inigualável do abraço maternal eu recorria quando cansava de tentar resolver tudo sozinha e consolar a mim mesma. Neste final de semana eu tinha minha mãe ali, e pude olhar para ela com a adoração e a saudade que eu sempre sentia dela. Uma falta que sempre me acompanhava, desde o momento em que percebi que crescera, que aprendera a voar. E olhando para os três dali de cima eu me comovi com o amor que sentia, feliz por tê-los e triste porque haviam partes de mim que eles nunca conheceriam. (…)

"Mais vez comprovei o poder da natureza e da família para curar almas e renovar espíritos. De ambos eu jamais seria capaz de abrir mão."

Capítulo 45 - Nós tínhamos planos
— Vermelha, gosto do vermelho com o marrom. Esse verniz. — Apontei para as tintas na paleta e acabei sujando a ponta do dedo, dei um risinho distraído e voltei os olhos para o quadro.
— A varanda era bem assim, escura — o vô pincelou a tela com o verniz, pintando o vaso de planta no peitoril da varanda onde a vó Dulce repousava em uma rede. Eu assenti, observando. A minha avó tinha sido uma mulher muito bonita. Ela era esguia, de cabelos cacheados louros aos ombros, olhos cor de mel, boca redonda como um botão e um ar altivo, mas risonho camuflado. Era assim que ela estava na fotografia em que meu avô se inspirava. Talvez tivesse na casa dos 30.
 Eu ouvira histórias de quando meu pai era criança, como ela cuidava dele e lhe dava broncas, como ria de suas travessuras e não ficava brava de verdade. Eu sabia que ela era uma mulher de poucas palavras, mas intensa, amorosa. Mas nunca ouvira o vô Antony falar dela, como sua mulher.
— Sente saudades? Hoje, especialmente…
 Minha voz soou um sussurro distante. Ele permaneceu quieto por um instante.
Crispou o nariz . — Hoje especialmente — falou e suspirou, pincelando as flores vermelhas do vaso.
— Voltando a surfar? — Indaguei com cautela, ele tinha que pegar leve desde o infarto. Para o vô parar de surfar era sinônimo de deixar de viver.
— Tô. — Mudou de pincel por um mais fino. — Só tô segurando a onda… pra tá firme pro campeonato, saca?
— Está ansioso?
— De boa, é foda;
 Eu fiquei em silêncio, pensando na saúde dele.
— Jasmin, vai comer? — A voz da minha mãe chegou vindo da sala de jantar.
— Vou! — Eu gritei de volta.
— Porra, vô, tem visto Anny? — Lembrei de repente, girando no banco para pegar o pincel que ele me indicava. — Ela me mandou uma mensagem, mas não respondi.
— Ela tá por aí… Ah, esse final de semana bora fazer trilha, tu vai?
— É, é sobre isso mesmo. Quem vai?
— Os moleque…
— Tá, eu vou. Vai ser legal. Estou morrendo de fome, vamos comer.
— Pode ir se quiser, eu já vou — ele sorriu dando uma olhadela da pintura para mim.
— Tá — dei um beijo na testa dele e sai da varanda, olhando de relance para o mar ao longe, e as favelas. Porém antes de ir à cozinha fui à sala pessoal do meu pai.
— Aloha — abri a porta e entrei.
— Oh, garota! — Papai ergue a cabeça dos papéis e sorriu para mim. Uma mecha bronze de seu cabelo caiu-lhe entre os olhos castanhos. — Aloha!
  Sentei na poltrona perto da mesa dele. — Está fazendo o que?
  Ele sorriu e me mostrou o papel em suas mãos, eram fotos de um barco.
— Outro? — Sorri.
— Quero sair com vocês por uns dias — disse contemplativo. O papai gosta de velejar, sair ao ar livre.
— Está cansado de tanto trabalhar, não é?
— Ah, tem hora que enche o saco — crispou o nariz do mesmo jeito que o vô Antony. — Já trabalhei pra caralho, criei você, agora eu quero ficar de boa.
— Então faça isso. — Eu disse o olhando com amor.
— Mas e a rede de mercados? — Me olhou indeciso.
— Pai, eu acho que você deve fazer o que quer.
 Ele refletiu por um instante, tentou falar algo, mas permaneceu em silêncio. Eu recostei na poltrona, sentindo o estomago tremer, mas apreciando participar e apoiar as preocupações do meu pai.
— O vô Antony está se poupando para o campeonato — eu falei depois de um tempo.
 Meu pai ergueu as sobrancelhas, saindo de pensamentos. — É, estamos em que mês mesmo?
— Agosto, faltam três meses.
— É, vai ser bom!!



Continua…. :)
Comente algo. ;)
Não sei quando publicarei o próximo, mas estou começando a digitar hoje.
Honis, lindas! :*

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