Capítulo 40— Um novo início, ou o começo do fim?

Capítulo 40—    Um novo início, ou o começo do fim?

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  Quando a dor de se não estar vivendo for maior que o medo da mudança a pessoa muda. 

—S. Freud


Eu ficava imaginando a nós três como exilados sentimentais, feridos refugiados por tempo suficiente para tomar coragem de encarar seus conflitos. 

 —Então não apenas a qualidade dos pensamentos no teatro psíquico pode comprometer a saúde psíquica —por exemplo os pensamentos perturbadores, pessimistas e mórbidos —mas também a quantidade de pensamentos é importante. E vocês se perguntam por quê. —Ergo a mão segurando a caneta e faço um ponto no ar. —Uma hiporconstrução de pensamentos, como preocupações, antecipação de situações futuras, ruminação de experiências passadas, pode gerar a síndrome do pensamento acelerado, SPA. E é sobre ela que eu quero que vocês façam uma pesquisa. Busquem pelos fatores que levam a essa síndrome e como remediá-la, na próxima aula comentaremos. Alguma pergunta? Olho para a classe por um instante. —Tudo bem então? Obrigada, estão liberados por hoje, boa noite.

 Contorno minha mesa e enquanto os alunos se dispersam começo a salvar a aula de hoje nos arquivos do computador, arrumo minhas coisas e quando estou pronta para sair percebo a presença do Dr. Rochel na sala, ele está recostado no batente da porta.

 —Desculpe, não queria assustá-la. —Ele sorri, —queria apenas ver como andam as coisas. Assim que acertamos tive que viajar e não pude recebe-la devidamente, minhas desculpas. — Ele se aproximou e estendeu-me a mão.

 —Ah, não se preocupe. —Sorrio. —Está tudo bem, os alunos são maravilhosos e ainda não tive tempo de conhecer melhor os outros funcionários, mas todos me trataram muito bem, fui bem recebida. Com certeza.

 —Fico contente por isso. —Sorri salientando as rugas dos olhos. Sua voz é suave e ele gesticula fluidamente com as mãos enquanto fala. Dr. Rochel é um homem muito culto e refinado. —Não sabe o quanto nos sentimos felizes também por sua incorporação em nossa equipe! Fiquei muito surpreso com sua decisão repentina, mas feliz. —Depois de feito o convite de emprego, em um encontro breve numa cafeteria, eu pedi um tempo para pensar. No entanto, a aceitei dois dias depois e na semana seguinte eu já estava dando minha primeira aula. —É um talento precioso, vi como discursou sobre a administração dos pensamentos e das emoções, muita propriedade.

 Como diz Freud nós podemos nos defender de uma crítica, mas somos indefesos a um elogio. Eu sorrio encabulada, sem sabe o que dizer. —Sem dúvida eu também estou muito feliz por estar aqui.

 —Muito bem. Por favor, permita-me. —Abre a porta e a segura para eu passar.

 O diretor me acompanhou no elevador, outros funcionários entraram e ele nos apresentou. Eu interagi com eles, me esforçando em manter a atenção no que diziam, e em parte eu ouvi, mas esqueci os nomes e tudo o que disseram rapidamente.

 Eram apenas três andares, dei-lhes boa noite e segui meu caminho. Houve uns lampejos, a imagem do rosto dele em minha mente. O aperto no peito acompanhando. Era inevitável a essa hora do dia, especialmente. Atrás do volante mantive o foco e dirigi até o condomínio. Subi as escadas da portaria, encontrando com D. Maria de saída, subi para casa.

 Cansada do dia de trabalho, mas satisfeita com o mesmo, deixei minhas coisas sobre a mesa de canto e fui até a sacada. Mais lampejos ofuscaram minha mente, mas eu me esforcei para suportar. Fechei os olhos, respirei fundo e pensei nas tantas mudanças recentes. Senti a aragem marinha, ouvi o som das ondas e pensei nos progressos, nos planejamentos das próximas aulas, em como a sensação do novo era pacificadora e me dava esperança. Concentrada em continuar administrando meus pensamentos e emoções… apesar de tudo isso, minha mente não parava de pensar naquela noite, ali embaixo na calçada, quando Bruno foi embora. E no motivo disso, o que aconteceu na praia com Santiago.

 Tudo volta à tona. Essa cor do céu é nostalgia.

 Soltei um suspiro pesado, do fundo da alma, o som da melancolia.

 Há uma semana Peter atravessara a rua e seguira em frente a passos firmes e decididos. Ele só queira ir para longe de mim o mais rápido possível. Entorpecida eu o vira sumir na penumbra, não pude impedi-lo.

 Minhas pernas fraquejaram, olhei ao redor, sentindo tudo girar, os sentidos toldarem e o coração de repente desacelerar, a respiração ficar curta e comedida. Eu também queria fugir, simplesmente tinha que correr para longe.

 Eu andei. Andei até não ter ideia da distância que percorri. Determinada a deixar os meus problemas e a dor para trás, mas não consegui ir muito longe, pois finalmente entendi a frase que li ao folhear um livro aleatório numa biblioteca: AONDE QUER QUE VOCÊ VÁ, É LÁ QUE ESTARÁ.

 É impossível fugir dos problemas. É impossível correr o suficiente para fazê-los desaparecer por completo. A dor continuava aqui dentro de mim, todos os meus conflitos ainda como um nó inextrincável apertava meu peito. Essa é a minha jornada, são minhas consequências e não há escapatória.

 Olhei ao redor, respirando profundamente, tentando recobrar o senso de direção. Eu não podia voltar para casa, não suportaria ficar sozinha. Se eu estava entorpecida, no entanto, ainda sentia o peito apertar, a casa vazia seria sufocante. E se eu não podia fugir daquilo, fazer desaparecer, ao menos eu podia buscar algum conforto. Passei mentalmente a lista de refúgios e apenas um me veio à mente.

 Quando Michael abriu a porta eu senti a ebulição dentro de mim elevar-se como lava de um vulcão. Meu rosto estava desfigurado, a expressão do rosto dele ao me ver se converteu de sonolenta e risonha a espanto e desespero.

  —Meu Deus! O que aconteceu? —Exclamou me puxando para dentro, os olhos negros em fendas vidrados em mim.

 Eu balancei a cabeça, dando de ombros. Mike pegou em minha mão e me levou até o sofá, abaixou o volume da TV e disse:

  —Myn… Parece que vai explodir, fala.

 Meus sonhos ruíram naquele instante horrível… Suspirei, oca, me permitindo desabar com meu amigo, me permitindo liberar aquilo tudo de uma vez. —Eu… Eu estava com Santiago, eu trai Bruno e ele viu. —Comprimi os lábios, Michael pestanejou, mas seus olhos permaneceram vidrados em mim, atentos.

  —Não acredito.

 —Ele não quer me ver, ele disse… —Baixei os olhos para o cobertor da Iron Maiden embolado no sofá, mas estava entorpecida demais para chorar. —Acabou, eu não… Estou tonta.

 —Ai, espere… —Ele suspirou e se aproximou mais de mim. — Quem é esse Santiago? Como aconteceu isso? Você AMA aquele carrotinha!

 Dou de ombros. —É o Salazar… Nós voltávamos da praia e… —Engoli em seco, sem querer viver aquilo outra vez. Pelo menos não verbalmente. Não quando a cena continua se repetindo várias vezes em minha cabeça.

 E a imagem da expressão do rosto de Peter queimava em minha memória, pois já viu o que aconteceu quase tantas vezes quanto eu.

  —Cara, eu nem sei o que dizer. Eu não estou acreditando —Mike comprimiu os lábios e me fitou nos olhos, sondando minha alma, vendo minha dor. —Eu queria diminuir o que você está sentindo, droga, está doendo em mim também! Sabe que eu te amo! O que eu posso fazer para te ajudar? Quer que eu vá atrás dele? Eu faço qualquer coisa para não te ver sofrendo assim, Myn. Não vou te julgar, não precisa falar nada agora… —E me puxou para ele, me abraçando forte, tomando para si o que eu sentia. E enfim consegui chorar, o apertei em meus braços como se pudesse preencher o buraco familiar dentro de mim, que agora estava maior ainda, com seu amor. Aquele abraço não precisava ter um fim, poderia durar o tempo suficiente para me curar com seu conforto, mas a minha obscuridão era grande demais. Afastei-me e olhei através de lágrimas em seu rosto, em seus olhos negros chorosos e sussurrei;

 —Eu já não sei quem sou, Mike… —Ele suspirou e assentiu, fazendo que compreendia. —Sinto que tudo mudou agora.

 E de fato, lembro-me dos pensamentos que me levaram a Santiago, os que tive depois daquela noite decisiva, no bar. Eu sentira que só poderia sair se me perdesse (não havia opção de escolha) como se só pudesse encontrar o caminho, a minha verdade quando duvidasse de tudo em que acreditava.  E agora eu estava perdida, as ondas vieram e eu estava tomada pelas águas nebulosas. 

  Todos nós temos verdades em que depositamos toda a nossa fé, regras e conceitos que criamos e nos apegamos para ter algo seguro em que confiar. Baseados nisso acreditamos ter o livre arbítrio, que podemos escolher nosso caminho… Ás vezes o caminho é claro ás vezes nem tanto. Cada oscilação, cada volta pode desafiar seu senso de direção… Há momentos em que tudo dá errado, apesar de nossos esforços, mesmo sem explicações a tragédia acontece. Se quebramos nossas regras, se na bifurcação fazemos escolhas que vão contra aquilo em que cremos arriscamos nos perder, nos tornamos em algo desconhecido.

  Mudar assim é como se trair abandonando aquilo que costumava ser sua razão. E eu ainda era incapaz de entender ou lembrar como tudo começou.

 Se eu tinha tanta convicção do meu amor por Peter e tudo o que tínhamos por que eu me envolvi tanto com Santiago?

 Atordoada e dominada por minhas emoções eu tomara atitudes, ruminara pensamentos mórbidos e sofrera por antecipação e perdera totalmente o controle de mim mesma. E no meio de toda a minha insegurança, lá estava Santiago. No entanto, temos fechaduras nas portas, janelas, carros, cofres, senhas no cartão de crédito, mas não temos proteção psíquica contra os ataques de dentro.

 É mais fácil controlar um tigre do que a mente humana.

 Ninguém consegue interromper a construção de pensamentos, apenas liderá-la. E a emoção? Quem pode entende-la plenamente? Os generais ficam pequenos diante dela, os ditadores e os psicopatas são seus escravos. O maior desafio do ser humano é dominar seu mundo intelectual. E eu cansara do medo, cansara de ser vítima dos meus problemas e decidi ser a protagonista. Eu não podia escolher se me magoaria na vida, mas tinha o poder de escolher meus caminhos, mesmo que ás vezes fosse obtuso, como eu lido com isso muda tudo.

 Isso não significa não falhar ou não chorar. Significa refazer caminhos, reconhecer erros e aprender a gerenciar os pensamento e emoções.

 Quando da casa de Mike na manhã seguinte achei sobre a mesa um buque de rosas vermelhas e embaixo dele uma passagem de avião sem escala para Los Angeles. E me lembrei de Peter ter falado sobre isso e que tinha me ligado naquela tarde, e lembrei que ignorei meu celular tocando, enquanto beijava Santiago.

 Peter aparecera de surpresa e planejara me levar consigo, “para concertar as coisas”. Eu também planejara algo parecido, mas fui de encontro a Santiago. Tentando apenas entende-lo e então finalizar aquilo de uma vez, não deixar nada mal resolvido. Penso no que seria se eu tivesse atendido aquela ligação.

  Os caminhos se bifurcaram mais uma vez.

 Algo mudara definitivamente, naquela noite algo rompera.

 Mesmo sabendo que Peter não me atenderia eu liguei, mas obtive a resposta esperada, nenhuma.  Passei o dia sozinha em casa, hora jogada na cama, hora olhando para o mar da varanda, remoendo e vendo as imagens da noite anterior repetidas vezes em minha mente. Tentando chegar a alguma explicação, alguma solução, mas eu não era capaz o que poderia ser a partir de agora.

 Fui trabalhar no dia seguinte, seguindo a rotina normal. Com certeza muito mal, mas eu já estava assim antes. Olhei inúmeras vezes para o celular, em algumas delas eu não resisti e liguei para ele de novo, mas percebi que Peter precisava de tempo. Como eu também precisava, e temia encontrar Santiago, porque eu não conseguiria vê-lo agora.

  O dia findou, e eu tomei decisões as quais seriam muito significativas, porque me ajudariam a manter a mente sóbria e lidar com tudo aquilo.

  Eu escolhi seguir em frente. Era assim que eu estava lidando.

 Eu liguei para a secretária do Dr. Rochel aceitei a proposta de emprego, em seguida tomei banho, me arrumei e fui fazer uma visita a meus pais.

 Eu estava muito decidida, e mesmo meu pai tendo me questionado se eu não queria pensar mais sobre deixar meu encargo no comercio exterior e importação fui firme e disse que seria apenas perda de tempo. Eu queria priorizar a psicologia. Como ele me dissera para fazer meses atrás, pouco depois de eu voltar do Hawai’i. Eu sabia que precisava fazer isso, já demorara demais.

 Nós jantamos na sala de estar, assistindo um documentário sobre a savana africana. A noite transcorreu tranquila, o vô falava o tempo inteiro, ele e meu pai discutiam os conhecimentos e opiniões sobre os animais, enquanto mamãe e eu suspirávamos querendo apenas ouvir o narrador. Ao final eu e o vô cambaleamos sonolentos e cansados para o elevador e meu pai se despediu dizendo que tomaria as providencias para me despedir.

 Outra questão era o consultório.

 Eu sabia que era delicado romper com um paciente familiarizado, por isso pedi que Amanda, minha secretária avisasse ao pacientes sobre a mudança. E logo eu esvaziaria o consultório e poria o anuncio de venda.

  Aquela semana chegou ao fim, o tempo estava passando de forma embaçada, e os dias curtos. E eu comecei a trabalhar na Universidade na segunda-feira, tinha tantos artigos escritos que era material para um ano de aulas. De maneira destrutiva ouvir o suplício dos outros passou a me afetar, não suportava mais, ainda mais agora, por isso decidi não mais fazer consultas, por isso tinha tomado esses novos caminhos.

 Eu trabalhava na Clínica durante o dia, das 8hrs ás 15hrs, e dava aula á noite, de 19h30 às 21h15 em duas turmas. E tinha um agradável intervalo entre um e outro, minha vida estava sendo mais tranquila assim.

 E o fato de que o vô Antony estava ficando estável agora ajudava muito. Seguindo as novas regras, se adaptando. Muita coisa estava mudando em sua vida, é claro, mas meus pais e eu estávamos ao seu lado, o incentivávamos e segurávamos nas mãos uns dos outros. Nos lembrando apenas de não perder a fé. Eu me agarrava a esse bom momento, e me concentrava nele. Eu preferi não lhes contar sobre Peter, não agora que tudo estava ficando bem.

 Eu entrara em pane, o excesso de informações e emoções confusas e conflitantes me fizeram entrar em colapso. Mas quando é insuportável e se torna cansativo, a gente muda, busca por um sopro de vida. E embora eu ainda sentisse dor não era mais vítima, principalmente de mim mesma.

 Sinto que tiraram um pedaço da minha alma, quando Bruno se fora tudo se deformara para algo desconhecido. Meu coração, com sua partida ficou só gritando, mas em meia voz… Nem toda vida, nem toda água do mar poderá apagar todo amor que ele me ensinara a sentir. Só espero que algum dia possa me perdoar. Eu esperarei. Sei que em seus olhos ainda havia amor, e seu olhar dizia voltarei.

 Na verdade eu estava entorpecida, e para mim ele apenas fora embora outra vez, como fazia, e voltaria logo.

 Mas agora era diferente, mesmo que eu lutasse para não entrar em pânico, como fiz tantas vezes, era difícil demais quando eu pensava no seu silêncio. E no que ele tinha dito antes de se calar. Quase duas semanas se passaram, e nada.

 Ao lado disso, havia outra dor.

 Santiago Salazar.

 Demorei a absorver tudo o que acontecera, e ainda não entendia, o que vinha acontecendo há tanto tempo que eu não lembrava de como tudo começou. Minha mente e coração ficaram tão atordoados por suas revelações, por seus sentimentos crus e intensos, por seu olhar emocionado e também por seu sorriso ao me contar sobre a primeira vez que me viu.

 Há um ano. Santiago viera ao Brasil, um lugar entre tantos, ele me viu em um dia e “simplesmente fiquei gravada em sua mente”, o persegui mundo a fora, tomei seus pensamentos e ele olhava uma fotografia que tirou de mim sonhando em me reencontrar. Uma única vez, Santiago me viu e eu era tudo o que ele queria a partir de então, não me esqueceu. Mesmo depois de ter ido embora. E eu não sabia porque isso me enternecia e afetava tanto.

 Lembro de nosso beijo… No fundo eu sabia que ia acabar acontecendo, eu já estava tão envolvida. Mas jamais imaginaria algo assim. Jamais. Como conceber que sem mesmo me conhecer Santiago era tomado por sentimentos tão profundos e intensos?

 Como um furacão.

 Ele nunca reagiria com tanta veemência —perdendo sua excessiva confiança e mostrando a intensidade de sua dor, se não fosse verdadeiro. O som de sua agonia ainda penetrava em mim, em algum lugar no fundo do meu peito. Depois do que acontecera entre nós foi muito insensível e cruel que eu lhe negasse a palavra, que apenas o ignorasse sem dar explicações. Ao lado disso, ainda havia outra dor. A dor por sentir dor por Santiago. Dor também por magoar Peter e quebrar tudo o que tínhamos.

 Santiago não deu sinal nenhum por dias, e com o passar deles eu ficava imaginando a nós três como exilados sentimentais, feridos refugiados por tempo suficiente para tomar coragem de encarar seus conflitos. 

 Isso era um novo início, ou o começo do fim?

Continua… :/

Comente… ;)

Honis :**

Texto postado em 05/04/2014 | 2 notes | Source | Reblog •

Capítulo 39— Exílio

Capítulo 39—   Exílio

๗BRUNO

 Quando o braço de Jasmin rodeou a cintura de Salazar, meus olhos arderam. A mulher a quem eu amava aceitava os carinhos de outro homem. Trinquei os dentes com a força da fúria que efervescia dentro de mim. Seus sorrisos, seus olhares que outrora eram para mim… e apenas meus. Ela oferecia a outro. Devia ser eu sentado ao lado dela no carro, deia ser eu fazendo-a corar, devia ser eu segurando sua mão.

 Era preciso muita força e desviar o olhar para não ceder a loucura de avançar encima daquele maldito e arremessar-lhe o crânio contra a superfície sólida mais próxima. Minha respiração hiperventilava, mordi a língua para reprimir o urro de furor e esperei até que me vissem.

 Olhar no rosto dela foi terrível, quase não puder suportar. E ele ainda se pôs entre nós, literalmente querendo tirá-la de mim. Se ao menos Jasmin tivesse reagido, se ao menos ela não tivesse cedido. Isso só provava que aquele não era o primeiro encontro, provava que eles já estavam envolvidos, que Jasmin estava envolvida. Então eu não poderia culpar somente a ele.

 Eu vi em seu olhar. E de repente tudo o que tínhamos pareceu não ter valor algum. A confiança é a base, e Jasmin a quebrou quando não me contou sobre ele, quando não falou a verdade.

 Eu estava farto. De tudo.

 “Para se esquecer de mim, precisa voltar a nascer. Eu também. Você sabe disso Peter… Então, por favor… pare de ignorar minhas ligações, porque eu não vou desistir. Precisamos conversar. Por favor… me perdoe. Você tem todo o direito, toda a razão. Mas por favor… Não… Não desista. Me liga.

 Mensagens como essa chegavam todos os dias, até que não me dei mais ao trabalho de ouvi-las. Eu não queria vê-la, não queria falar com ela, não queria nem ouvi-la ou ler suas mensagens de texto. Eu sentia raiva, esse tempo todo trabalhando feito um louco e ela se divertia, me enganava. Eu não queria saber dela, não suportava pensar nela. Claro que eu ainda a amava, e era exatamente por isso que eu me sentia assim. Mas isso não muda o que aconteceu. E com tantas cobranças no trabalho eu não consegui ter o tempo suficiente para pensar nisso tudo.

 Voltei a minha vida, continuei com meus planos, faltava um mês para o lançamento do álbum e esse era o meu foco. Especulações sobre a turnê já estavam sendo feitas, entrevistas sendo pedidas, todos querendo informações exclusivas sobre meu novo trabalho, mas nós nos empenhamos para manter tudo em sigilo até que o dia chegasse. No entanto, apesar disso tudo, eu sentia a falta dela. Sofria pela forma como tudo tinha acabado, por tudo o que vinha acontecendo. Eu não conseguia entender.

 E quando a raiva amenizou, pude pensar com mais clareza, embora ainda ignorasse suas ligações.

Continua… :/

Texto postado em 04/04/2014 | 1 note | Source | Reblog •

Capítulo 38— Fel

Nota inicial

Muito obrigada pelos comentários no capítulo anterior! *-* Fiquei tão feliz que até estou publicando este antes de uma semana. ;)

”~Na calçada do condomínio eu não resisti outra vez. Segurei seu rosto entre as mãos e comprimi meus lábios contra os dele, surpreendendo-o, fazendo-o tremer e suspirar. Santiago se atreveu a pegar em meus seios, e percorrer as mãos por minhas coxas, entrelaçar os dedos em meu cabelo. Tomada pelo desejo, pelo perigo e adrenalina espalmei seu tórax, sentindo, enfim, seus músculos firmes, adentrando a camisa e sentindo a pele quente na minha. Entrelaçados no meio da rua. Trêmulos e insanos. Salientes e obscenos. Desesperados e feridos.

 Sem fôlego! Minha consciência desperta, sei que perdi o controle, sei que estou adorando isso, mas estou também desesperada. Porque não é certo!
 —Não… Eu preciso parar…
 Soltei-me dos braços dele e bati de encontro a alguém.
 —Deus do Céu, Peter!

Capítulo 38—   Fel  

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 A atmosfera parou. Naquele momento.

 Quando os olhos de Peter encontraram os meus traidores.

 O meu coração sangrou. Ao ver o dele ser rasgado, por mim.

 “—Não é uma despedida, eu prometo. Logo estaremos nos braços um do outro, confie em mim.

“-Eu confio, confio em você Peter – sussurrei. Eu só não confiava era nas armadilhas da vida, das circunstâncias, era isso que eu temia…

“…Bruno pôs o chapéu sobre as roupas e saltou na piscina espirrando água para todos os lados.

–Oh – eu gritei, Bruno pegou-me pela cintura e rodou-me em seu colo, dei-lhe um beijo, soltei-me e fugi.
–Me pegue – desafiei-o.
 Peter sorriu torto e veio atrás de mim. “Ah!” Eu disparei, tentando fugir, mas logo estava em seus braços. Abracei-o, nossos corpos seminus e molhados colaram-se, ouvi sua respiração ofegante ao meu ouvido.
–Nunca, nunca deixarei você ir. E se for, eu a trarei de volta – ele sussurrou.
–Promisse?
–I promisse you.”

 A espessura de uma navalha era a distância entre nós, Bruno e eu. Santiago se pôs a minha frente e o encarou.

 —Solte Jasmin.

 —Bruno, não —supliquei. —Santiago…

 —Cale a boca Jasmin —Bruno berrou, mas olhou para Santiago e me empurrou para longe. Mas eu me pus a sua frente, pondo as mãos em seus ombros, forçando-o a me olhar.

 —Bruno, por favor… —Varri seus olhos, e a maneira que ele me olhava me incapacitou, não suportei o desprezo e a dor que vi.

 —Sabe, eu não me surpreendo —disse com um tom mais que ácido, desdenhoso.

 —O que você quer dizer com isso? — indaguei.

  Peter manteve os olhos cravados em mim e apenas arqueou as sobrancelhas, virou o rosto trincando o maxilar. Não aguentava olhar em meu rosto.

 —Bruno… Eu não queria! —Exclamei desesperada. Meu Deus! O que eu fiz? Tudo o que tenho! Eu não queria ter feito aquilo…

 —Não mesmo? Eu não a vi lutar. —Fixou o olhar em mim. Respirava com sofreguidão e sabíamos que ele tentava controlar a raiva. Eu não sentia meu corpo, minha pulsação era como tambores em minha cabeça. —Eu vou esperar por você! —Berrou Bruno, erguendo os braços exasperado, o rosto rubro de furor e as veias de seu pescoço e têmporas latejavam. —O que aconteceu com esperar por você, Jasmin? —E de repente ele parou de gritar na minha cara e empurrou Santiago que se punha entre nós. De repente Bruno pareceu lembrar de sua presença e desviou sua fúria de mim a direcionou a ele.

 Eu tropecei no buraco da calçada, desviando do punho de Peter.

  —Ai, meu Deus! —Gritei ao ouvir o barulho horrendo do soco dele na cara de Santigo.

 —E você seu desgraçado! Vou acabar com você! —Bruno berrava.

 —Peter, por favor! Vamos conversar, ah, pare, pare! —Mas ele não me ouvia. Praguejava e grunhia xingamentos direcionados a Santiago.

 Os dois homens se embolaram caindo sobre o arbusto na entrada do condomínio, amaçando a tela de arame. Peter falava algo sobre não aceitar sair por baixo e correr atrás da mulher dele. As vozes de ambos se misturavam entre urros e golpes impiedosos. Passantes noturnos olhavam, mas ninguém parou para separá-los, não adiantaria o quanto eu gritasse. Santiago empurrava Bruno, tentando se livrar, tentando pedir que o ouvisse, mas apenas de início. Ele também tinha raiva de Peter e caiu para cima dele correspondendo com igual fervor, parecia que os dois esperavam por aquele momento. Nenhum dos dois seria o primeiro a recuar.

 —Seu Guilherme! Guilherme, pelo amordedeusepareaquelesdois!

 —Usted está bién? —Encadeado nos braços do porteiro, Natanael, Santiago olhou para mim, arfante e suado.

 —Sai de perto dela! —Bruno berrou se debatendo contra o aperto de Guilherme. Eu olhei de um para o outro com os olhos arregalados, levei as mãos ao rosto, enxugando as lágrimas e o suor, tirando o cabelo dos olhos. Sentia-me totalmente perdida, oca, sem erguer os olhos da calçada sussurrei entrecortado;

 —Santiago… Vá embora, por favor.

 Passou-se um momento de silêncio fúnebre até que eu levantei a cabeça para olhá-lo. Ele tinha o olhar fixo em mim, comprimiu os lábios me atravessando com a dor de seus olhos. Desvencilhou-se do rapaz que o detinha, ajeitou a roupa e passou por mim que baixara o rosto outra vez para não ver a súplica nos dele. Por que isso me magoava? Isso não era certo. Isso não devia me magoar.

 O som do motor extinguiu ao longe… Procurei por Bruno e senti como se caindo de uma ponte vacilante, vi a minha frente tudo o que eu amava, como eu pude partir seu coração?

 Ele me encarava com a expressão tão dolorosa que eu não podia suportar. Como eu pude macular o nosso amor?

 —Você está bem?

 Virei o rosto e pestanejei olhando para Guilherme, mal o reconhecendo, e fiz que sim com a cabeça. Ele assentiu, hesitou um instante, mas fez sinal para o assistente e se foi.

 —Foi por isso que você não me contou nada? Por que está tendo um caso com ele? —Peter continha a voz, um rouco entre dentes. Ele se aproximava enquanto falava. —Você disse que ele não a procurou, nunca tentou nada! Não tinha nada a ver com você! E quanto a você? Por quê? —Balançou a cabeça, desviando os olhos injetados.

 E eu sabia que devia dizer alguma coisa, qualquer coisa que justificasse, explicasse ou expressasse o quanto eu queria remediar as coisas. Mas não havia o que falar, como me desculpar por traí-lo? A quem eu fiz tantas promessas.

 —Não há como explicar isso, nem tente, não vou ouvir! —Gesticulou com uma mão, em recusa. —Você estava… Os dois estavam quase transando aqui na rua! Foi por isso que não atendeu ás minhas ligações? —Fez uma pausa brusca, — não consigo, nem olhar, pra você. Ele com as mãos em seu corpo… —Prendeu a respiração. —Jasmin

 Fel.

 Foi como meu nome soou de seus lábios. Podia meu coração se quebrar mais ainda? Parece que sim. E foi naquele preciso momento.

 Havia uma explicação, mas ele não gostaria de ouvi-la. Havia também uma justificativa, mas não era para minha redenção, não o faria me perdoar, não era a minha remição. Apenas, e nada mais, que a brecha em meu coração. Por isso tudo aquilo estava acontecendo, porque algo dentro de mim mudara, e eu sabia que jamais voltaria a seu lugar.

 —Me perdoe, Peter… por favor. Eu nunca o enganaria, jamais planejaria isso. Nunca seria desonesta com o que de mais sincero aconteceu em minha vida! Eu te amo… —sussurrei.

 Ele ficou me encarando e enquanto isso eu imaginei se fosse ao contrário, eu não aguentaria. Depois de tudo o que vivemos ele teria toda a razão e direito de não me perdoar e acabar comigo. Todo o direito.

 Mas quando ele ia embora…

 Ele ficava distante…

 Longe de mim…

 Longe do meu lado.

—Se você fosse mais presente, se nos víssemos mais! —Disse trêmula, —se não estivéssemos tão distantes!

 Eu não me referia apenas a distância física. Coisas vinham se acumulando, eu não fazia mais parte da vida dele e nem ele da minha, não estávamos ao alcance um do outro. E não importava quantas vezes ele viesse, Bruno sempre ia embora outra vez.

 —O que quer dizer? Beijou aquele cara por carência? Por que está carente? Por que está se sentindo sozinha? —Balançou a cabeça com pesar. —Muito pouco. Muito pouco, Jasmin! Do que reclama? Deixo minhas coisas, minha vida e venho aqui. Faço o que posso. As coisas são assim agora, mas é só uma questão de tempo, droga! Sabe disso, não sabe? Hein?!

 —Sim.

 —Mas?

 —Eu não disse nada.

 —No entanto, pensou. —Bruno se afastou desanimado. —Acha que está em segundo plano na minha vida, que não me importo e sou capaz de esquecê-la.

 —Sim —afirmo sincera.

 —Pois engana-se.

 Com os lábios comprimidos e respiração difícil nos encaramos. Vejo tudo o que mais amo bem na minha frente, o meu tudo, e me pergunto como pude esquecer. O que nos tornamos? Porque todos os meus sonhos foram destruídos. Eu não sei para onde estamos indo.

 Devagar, ele se aproxima de mim e segura em meus ombros. Meu coração para de bater e volta a mil, olho em seus olhos e sinto o sangue ferver. O rosto tão perto! Desejo que ele me leve daqui, que me faça esquecer. A voz macia e melódica diz bem devagar:

 —Você não confiar em mim? Não sabe que eu sempre volto?

 Cativa por seu olhar, entorpecida pela dor, pela esperança e pelo amor ferido eu demoro a entender suas palavras seguintes. Eu as ouvi, mas não compreendi, meu cérebro se recusou a concebe-las. Balancei minha cabeça para frente e para trás, tentando organizá-la. Houve uma pausa, enquanto eu repetia as palavras em minha cabeça, buscando seu verdadeiro significado.

 —O… o quê?

  E ele repetiu, mas eu não ouvi a frase inteira, me retive a parte mais dolorosa. Um jato de gelo em minhas veias. Sentidos completamente toldados, pernas insustentáveis.

 —…até lá, eu não quero te ver… —Cada palavra separada e distinta. E ele se afasta de mim.

 Até lá, eu não quero te ver… Até lá, eu não quero te ver… Até lá, eu não quero te ver. Eu não quero te ver… Eu não quero te ver não quero te ver não quero te ver não quero te ver não quero te ver

 —Não vá embora — eu apenas não consigo encontrar as palavras certas para dizer. Eu tentei, mas toda a dor fica no caminho. —Diga o que preciso fazer para você ficar! E como eu posso parar de perder você? Como eu posso… Não há mais nada além de ir embora?

 Peter parou na calçada e ficou me encarando, sem forças eu sustentei seu olhar entre lágrimas, contendo o soluço que me sufocava, o desespero que me matava. Por favor, por favor, por favor

 —Eu te liguei mais cedo, para avisar que estava aqui te esperando, tem uma coisa para você em cima da mesa. —Disse sem emoção. —E sabe o que vim fazer aqui? Percebi que não estamos bem, vim te buscar, ia te levar para Los Angeles comigo, tentar… —pigarreou e suspirou pesadamente. —E acho que você deve perguntar ao seu amigo sobre nosso passado com uma mulher chamada Fabrícia. Apenas pergunte, talvez não tenha nada a ver, mas quem sabe… —Sorriu com amargura e se foi.

 —Peter! —Fui atrás dele, puxei seu braço, mas ele o sacudiu e andou mais rápido. —Por favor… Me deixe explicar, vamos conversar. Você não pode ir! —Mas não adiantava, Bruno ainda não me ouvia, estava ferido demais. E tinha toda razão.

 Repelida por sua frieza eu estaquei no meio da rua, fiquei olhando o meu amor ir embora com a promessa de que não queria mais me ver, sem saber se ele um dia voltaria.

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Continua… :’( E agora? …

Texto postado em 07/03/2014 | 1 note | Source | Reblog •

Capítulo 37 — Deus do Céu!

Capítulo 37 — Deus do Céu!

 ULTIMATO

 Publicarei o próximo capítulo apenas quando tiver ao menos TRÊS COMENTÁRIOS. Eu entendo a disponibilidade de vocês, então espero uma semana. :) Leiam com calma, sem pressa e pressão, podem reler se quiserem, e se expressem. Devolvam pra mim um pouquinho. Apesar de eu duvidar mesmo que não tenham nada a dizer ao final deste. Prestem atenção aos detalhes, acada fala, reação, reflexão e pensamento, para compreender os personagens, não se atenha apenas ao fato. E reúnam tudo essa análise em um pequeno texto pra mim, pode ser? *-* Esse capítulo é muito importante para mim, há tempos o espero ansiosa. :’( 

Capítulo 37 — Deus do Céu!

 A boca da noite eu desci as escadas do condomínio. Cabelo molhado solto nas costas, vestido floral e sandálias Havaianas. O céu já estava tingido de verde oliva, uma luminosidade perolada pincelada fora a fora. Caminhei em direção a orla.

 Santiago despontou da esquina do Forte, percorreu a Avenida diminuindo a velocidade quando parou no meio-fio. Meu estomago dançou assim que meus ouvidos reconheceram o som do motor, antes de meus olhos o verem.

 Acontecia uma coisa quando eu o via: Meu sangue fervia em minhas veias e um instinto pulsava dentro de mim. Um fascínio sinistro, mas irresistível. Eu não sabia explicar porque.

 Corri os olhos por seu cabelo, estava mais curto. Um corte estilo despojado, repicado e desgrenhado. Caia-lhe na testa e nos olhos e para todas as direções, como se ele tivesse acabado de acordar ou os secado ao vento enquanto pilotava a 100/h. Continuei o passeio descendo pela camisa gola V azul-marinho de algodão e mangas compridas dobradas até o cotovelo, bermudões jeans do tipo que os modelos usam e as botas de motoqueiro.

—O que aconteceu? —Faço careta. —Está cada dia mais largado. —Digo sabendo que não era bem verdade, ontem ele estava impecável, como o conheci.

 Santiago riu gostosamente. Seus olhos apertados pelo sorriso largo e bonito. —O quê? No gostou? — Focou em mim as íris verde-cristalino me fazendo arfar fascinada.

 Pigarreei dando de ombros. —Não. Está bem, na verdade combina com seu estilo. Sabe, a moto.

 Ele comprimiu os lábios em um sorriso fazendo que sim com a cabeça.

 —Eu estava indo caminhar. —Gesticulo a frente, meu tom é corriqueiro e eu retomo o passo pela calçada.

—Posso acompanhar?

—Agora pede permissão?

—Agora usted convida? —Sorri, com uma expressão marota erguendo uma sobrancelha.

 Dei de ombros. —Você não é tão mal.

 Santiago estreitou os olhos, comprimindo os lábios ao virar o rosto para mim e me analisar por um instante. —Tu também no é tão assustadora quanto piensa.

—Eu não penso isso. —Olho para ele ao meu lado na calçada. —Prova de que você tem medo de mim.

 Ele dá de ombros. —Yo tinha e ainda tenho.

 Não respondi, apenas olhei para o mar e me concentrei no vento marinho, para esconder o sorriso em meus lábios.

—Vamos —ele faz o retorno e começa a dirigir de vagar de maneira a acompanhar meus passos ao longo da orla.

 A lua surgiu a leste, um pingo de tinta prateada na tela ouro negro. O sal do sopro marinho grudava em minha pele, eu sentia seu gosto salgado em meus lábios. O frio revigorante me enchia de calma, eu estava deixando as coisas tomarem seu curso natural. Afinal, tudo na natureza encontra seu equilíbrio.

 Percorremos mais que a metade da praia em silêncio, ao menos não houveram palavras audíveis, porque tanto eu quanto Santiago tínhamos os pensamentos repletos.

 Não havia tumulto, porém, esse era um momento de esclarecimentos, refletíamos ali na praia nos preparado para o inevitável.

—Hoje vamos jogar limpo? —Pergunta ele, quase parando moto. —Sem interrupções desta vez.

 Olho para ele assentindo —acho justo que sim.

 Ele concorda —tudo bién.

 Sugeri que fossemos para outra praia, do Arpoador a uma quadra dali. Mesmo sendo mais lógico que eu subisse na garupa, Santiago me seguiu pela calçada.

 Um portão grande com grades ferro cuja a tinta verde-escuro está descascando é a entrada. Eu nunca soube se aquele espaço entre a praia do Arpoador e a Avenida Nossa Senhora de Copacabana era um parque, porque tinha rampas e pistas de skates, playground, gramado, árvores, e algumas pedras (pedaço da praia) ou se era uma praça, pois o espaço não é tão grande. Do portão de entrada ao de frente a praia os muros são grafitados, as árvores são altas apenas sendo possível ver seus troncos pelo caminho.

 Santiago deixou a moto na calçada e me acompanhou pelo caminho cimentado sob a luz do luar. Sua presença era tão forte que me senti tentada a deixa-lo ir na frente para tê-lo em meu campo de visão, e não eu no dele. Mas ele ficou ao meu lado, acompanhando meu passo, ressaltando seu porte alto e forte, andando com segurança. Eu olhei de esguelha para ele, para conferir sua expressão, para ver se era tão determinada quanto seu andar, mas ele parecia bem tranquilo. Respirei fundo sem saber o que esperar daquela noite.

 Irrompemos pelo portão e tivemos a visão do imenso oceano a nossa frente. A vastidão arrebatadora, a primazia da natureza dançava sobre as águas, ondas contra rochas, os contornos dos relevos como sombras de gigantes testemunhas. Segui para o conjunto de pedras cor de fuligem de ferrugem, tirei as sandálias e subi sem dificuldade pelos degraus naturais e salgados até estar no ponto mais alto. A sensação é escorregadia na sola dos pés descalços. Virei para esquerda e contornei o relevo rochoso encontrando a superfície plana, virada para o leste do oceano de águas claras. Sombreados por um paredão, longe dos banhistas do outro lado.

  Aproximei-me da beira, os olhos no horizonte.

 —Aqui é lindo —Santiago me acompanhava de perto, ele parou ao meu lado, olhando em volta arrebatado pela paisagem.

 —Eu sei —suspiro distraída, igualmente fascinada pela natureza, pelo som do mar.

 —Vem sempre aqui? —Olha para mim.

 —Desde sempre —baixo os olhos e me viro para ele, recosto-me no paredão de rocha e me sento no chão cruzando as pernas.

 Santiago sentou ao meu lado, as pernas esticadas e mãos no colo.

 Silêncio.

 Nada além do som dos ventos uivantes contra as rochas.

 —Qual é o seu nome?

 Ele baixa o rosto do horizonte e olha para mim —tu sabe.

 Faço que não com a cabeça —você tem um nome diferente para cada convívio. Preciso saber com quem estou lidando.

 Santiago apalpou o bolso da bermuda e pegou uma carteira de couro preto, me ofereceu a carteira de identidade. Eu peguei o documento e o examinei em silêncio.

 —Santiago Esteban Salazar —profiro em voz alta vendo as letras datilografadas diante de meus olhos. —Espanhol de Barcelona, 30 anos.

 —Eso miesmo —confirma pegando o documento de meus dedos.

 Franzi o cenho, concentrada em reafirmar a informação em minha mente, visualizando sua foto de doze anos atrás. Aos dezoito ele usava o cabelo curto, talvez pelo alistamento militar—será que ele servira ao exército? Suas feições já eram fortes e entalhadas, embora, ainda tivesse os traços de um garoto.

 —Por que mente sobre seu nome? —Faço uma pausa —para manipular?

 Santiago deu um sorriso de canto —Por que sempre presume o pior a meu respeito?

 —Tenho muitos motivos para isso, concorda?

 —Tem sim —faz um gesto positivo com a cabeça recostando-a no paredão. —Os americanos que adaptaram Miguel, que é como sou, ou fui conhecido no início da minha careira na Europa.

 —Por quê?

 —No sei, sinceramente. —Vira o rosto para mim, buscando meus olhos, deixo que ele os encontre. —Talvez por yo ter recriado obras de Michelangelo no início, fiz muitos trabalhos impressionistas inspirados no estilo dele. Yo gostava muito de la tendência de recuperação na arte do clássico y da Antiguidade. Lo Humanismo costumava me fascinar. —Faço um gesto em concordância, ele continua. —La incorporación de elementos das tradiciones árabes, orientais e egípcias, bem como outros oriundos da magia, das tradiciones religiosas esotéricas, da mitologia clássica y da astrologia. —Alterno os olhos em seu rosto e as palmas de minhas mãos enquanto o ouço atentamente. Seu tom é fluido, a voz rouca é simpática e ele parece a vontade enquanto seu tom se intensifica cada vez mais expressando a paixão que sente sobre o que fala. —La colocación del ser humano nuevamente no centro do universo, enfatizando su nobreza, su beleza, su libertad, los poderes de su intelecto y su natureza divina.

 —Não acha isso um tanto narcisista? —Arqueio uma sobrancelha.

 —No exatamente. —Discorda com um meio sorriso. —Fui na última fase do Renascimento, evolución de la ciência. Junção do clássico y lo cientifico. Era impossível continuar acreditando apenas em justificativas por crenças, los homens tinham muitas respostas por si agora.

 —Eu sei. —O interrompo. —Foi uma arte de índole ética, pois se considerava possuir uma função social da qual não podia escapar, e almejava sobretudo a cura das almas e a instrução do público para a condução da vida pelos caminhos da virtude. —Deixo escapar, e desvio meus olhos para o mar a frente, evitando seu olhar. De tudo que pudéssemos falar eu nunca imaginaria que nós fossemos trocar conhecimentos sobre a Época Renascentista.

 —Fascinante —ele suspira ao meu lado.

 —Então isso explica seu codinome Miguel —não deixo o foco se perder.

 —Basicamente.

 —Vou te chamar de Santiago —digo olhando para ele. Seu cabelo dança com o vento, ele traz as pernas ao peito e apoia os cotovelos nos joelhos.

 —Todo bién — sorri sereno, condescendente. Um sorriso que me envolve de carisma e carinho, sinto meu coração acelerar. Observando sua expressão tranquila, a presença forte e agradável sei que ele é assim, de verdade.

 Suspiro ao confessar — eu fugi de você.

 —Yo sei. Mas tu se refere a todas las vezes em que nos encontramos até agora ou a alguma em especifico? Como quando viajou do nada e ficou fora por dias…

 —Aos dois. Eu não consigo te entender, nem como é capaz de vir de tão longe por minha causa.

 —Eso te assusta? —Eu fiz que sim e ele assentiu em compreensão. —Yo quero muito…

 —A mim? Você já disse isso algumas vezes.

 —Deixe que eu termine a frase. —Fez uma pausa, sorriu de canto e prosseguiu ao se certificar de que eu não o interromperia, falando em português. —Sim eu quero você. Mas o que eu ia mesmo dizer é que quero esclarecer o que você quiser, é para isso que estamos aqui. Eu sou um homem muito ambicioso, mas não no quesito dinheiro, o que me atrai são as peculiaridades, fascínio, o que é gritante em você. Você é interessante ao ponto de me deixar louco e me fazer procura-la. Eu sou obstinado e não tenho muitos escrúpulos entende?

 Desencostei do paredão de rocha e o encarei. —Você também é descarado, sabe disso não sabe? —Reprimo um riso ao vê-lo olhar para mim com os olhos cerrados e sorriso torto, o ar divertido.

 —Ao menos não sou hipócrita — dá de ombros.

 Estreito os olhos, mas concordo.

 Ele era um homem complicado, com certeza muito atrevido, mas isso era provocante… divertido. Ao menos estava sendo sincero comigo.

 —Mas o que muda tudo são os meus motivos. Não sou o homem mais puritano nem correto, mas isso não quer dizer que eu seja um libertino. — Se vira para mim, seu tom é um pedido de compreensão.

Creio que a primeira deve ter acabo por aqui, então de play e continue.

 Reprimo o impulso de dizer que sei exatamente do que ele está falando, que entendo o lado malicioso do ser humano, e o aprecio, pois sei analisar as profundezas da mente e suas façanhas até onde a psicanálise me permite, sem julgar, apenas compreendendo e me fascinando com os instintos intrínsecos do homem. Pelo amor de Deus, quem não tem um pouco de malícia? E sei que ele vê isso, mesmo que eu não diga em voz alta. 

 Eu estava disposta a entende-lo, Santiago era um oceano de incógnitas e enigmas irresistível. 

 Caminhos perdidos são seus guias e como uma onda tsunamica ele me impele para seu caos… Mas então vem a bonaça e seus olhos me arrebatam, sua essensia única me envolve.

 Comprimi os lábios, um pensamento inquietante cobrou que eu inquirisse mais, e tinha uma coisa que eu queria muito saber, mas sentia receio da resposta. —Quando disse que não deixaria que eu fosse embora outra vez, o que quis dizer? A única vez que o vi foi em Waikiki, e depois do luau você sumiu e eu pensei que nunca mais fosse vê-lo. É a isso que se refere? —O encarei abertamente, segurando o vestido esvoaçante o prendi entre as pernas esperando sua resposta. Santiago apoiava os braços sobre os joelhos, ele fixou o olhar em mim um instante e baixou os olhos, desviando para as sombras dos contornos rochosos atrás do horizonte.

 Tentei ver através de seus cabelos, mas ele protegeu a brecha de sua alma, escondeu-a de mim. Como se minha pergunta o tivesse ferido de alguma forma, seu silêncio era intenso, Santiago se voltou para mim com os olhos turvos.

 —Você diz “não” a todos os caras, isso faz você se sentir bem. — As sobrancelhas se unem e seu tom rouco é um murmúrio. — Sei que você está fora do meu alcance, mas isso não me assusta e não vai me afastar.

 Olho para ele desconcertada, sua voz é intensa, como se vindo do fundo de sua alma, rasgando-a ao meio e reverberando direto em mim. Por entre as mechas de cabelo negro seus olhos verdes incríveis me prendem, me invadem e me atravessam.

 —Você tem segurado e levado as coisas adiante por muito tempo… Não poderia parar nem se quisesse, aguenta sozinha e diz a si mesma que pode lidar com tudo, isso se solidifica em seu coração e te prende. Ergueu sua parede tão alta que ninguém poderia subir nela, mas eu vou tentar. —Agora de frente para mim, se inclina, o rosto tão próximo ao meu que nossas respirações se confundem. —Eu sei o que está pensando, mas ele também é parte do problema agora, não é mais seu refúgio seguro, e é também a isso que me refiro.

 Não respondo, fito-o nos olhos em silêncio.

 Suas palavras ecoam em minha mente.

 Seus olhos veem através de mim…

 Fui pega de surpresa, ele passara esse tempo todo me analisando? Como podia saber dos meus medos mais profundos? Os quais eu não tinha coragem de assumir para mim mesma, como ele via isso?

 Será que ele via em mim um pedaço seu como eu via um pedaço meu nele? Um reconhecimento, uma identificação…

 Comprimi os lábios, reprimindo a reação instável que eu me negava a nomear “choro” ou qualquer coisa do tipo. Me pus de pé em busca de fuga, sentindo o ar escapar dos pulmões. Arfei, inspirei o ar salgado do oceano com avidez na beira do precipício e me virei para ele, tonta.

 Santiago estava em pé atrás de mim. —Usted dejarme ver por debajo de su beleza? —Diz rouco, com os olhos turvos ele venceu a curta disntancia entre nós. — Dejarías yo ver debajo de tu perfeicción? Disfaça-se disso ahora, Jasmin, quiero ver-te por dentro.

 Você me deixa ver por debaixo de sua beleza? Deixará eu ver por debaixo da sua perfeição? Desfaça-se disso agora, Jasmin, quero te ver por dentro.

 Prendendo a respiração e com o maxilar tenso sustentei seu olhar. Eu não queria admitir que ele já estava vendo, mas o pulso dentro de mim estava enlouquecido, então não pude responde-lo.

 —E você dispensou todas as mulheres, isso te faz sentir bem, não? —Rebato, mesmo sem saber, mas tendo certeza do que digo. Santiago não é o tipo de homem que se prende a alguma coisa, mas…

 —Nenhuma delas me fez querer ficar antes.

 Pestanejo engolindo em seco. —E agora? —Minha voz soa embargada.

 —Agora eu fico por você.

 Tenho o impulso de recuar, mas lembro do precipício atrás de mim e dou um passo à frente, para mais perto dele.

 —Mas como pode dizer isso? — Indago mais para mim mesma. 

 Porque me sinto tão próxima a ele. Sinto-me próxima a Santiago, mesmo sem saber os detalhes sobre ele, mesmo sem saber sua trajetória de vida ou nada além da confusão que me inflige desde o primeiro momento. E sei que é exatamente isso que me aproxima. Porque seus olhos me desafiam. Por que seus olhos incrivelmente verdes me atravessam como espadas de dois gumes. Por que ele me invade e me toma sem minha permissão. E me fascina! É uma força irresistível. Uma identificação profunda. Um frio na barriga e o convite para uma aventura insana, alucinante, intensa, quente. E acima de tudo, segura. —Você não me conhece de verdade, e não conhecia antes de tudo começar, como pode dizer isso?

 —Não precisei conversar com você para deseja-la.

 —Rá… 

 —Você me fascinou com seu jeito, —esclarece— sua beleza, é claro,porém mais com sua personalidade excêntrica. Observar você foi o bastante. E agora, depois desse tempo aqui… Jasmin eu… tenho…

 —O quê?

 —Diz para mim por que está aqui comigo? —Indagou, mas ficou claro que não era exatamente isso que ele ia falar.

 —Estou aqui porque quero te entender. —Prefiro ser sincera de uma vez. Acompanho com os olhos os pássaros noturnos cortando o céu acima de nós dois, seu canto um eco na noite. —E porque… você me… atrai e perturba.

 Santiago franze o cenho e murmura que entende.

 —É o que sente também? —Pergunto hesitante.

 —Um pouco mais que isso.

 —Você diz que me quer, é só isso? Sou sua obsessão, um desejo de consumo? Você é tão egocêntrico assim? Porque me procura quando já tenho problemas o suficiente?

 —Porque te quero demais… —Sussurra ardentemente. —Mas quando digo isso não é apenas um desejo carnal. —Se inclina para mim e uni as sobrancelhas. —É você, entende? Você.

 —Você não me respondeu ainda. —Cobrei sentindo o coração pular.

 —Tenha paciência, só mais um pouco…

 —Santiago, você é muito hábil em se auto proteger. Eu estou aqui não estou? Se você quer ver por debaixo de minhas impressões tem que me deixar ver também.  Não vê que está em jogo? Responda, não acha que deve ser mais claro e direto comigo? —Praticamente suplico. —O que você sabe sobre mim? Praticamente tudo! Onde moro, quem são meus pais, sobre a saúde de meu avô, onde trabalho… E como? E eu? O que sei? —Nenhuma dessas questões importava na verdade, eu só queria que ele se expusesse… tanto quanto eu estava me expondo.

 Porque eu não ia me jogar no precipício sozinha.

 Eu queria confiar nele.

 Santiago baixa os olhos e vira o rosto. —Não há muito o que saber. O que você quer saber? —Volta o olhar para mim com a expressão endurecida. —Sou um homem sem passado, que prefere esquecê-lo, mantê-lo atrás. Não tenho nada! —Trinca o maxilar com força, as veias de seu pescoço e têmporas dilatam-se e percebo o quanto está sendo difícil para ele falar. —Tudo o que eu tinha cometi o erro de deixar, fui embora sem olhar para trás, sempre escolhi o que era mais fácil, e minha vida é uma série de erros que não lamento, mas nem de longe gosto de lembrar. É isso que você quer saber? —Olha para mim angustiado e ressentido.

 Mantenho-me firme, ao menos tento. —Na verdade há mais aí dentro do que você deixa transparecer. —Falei baixinho. —Que erros poderiam ter sido tão horríveis?

 Ele me fita, seus olhos injetados fazem meu coração quebrar um pouco mais, vejo o brilho deles se estilhaçar como um caleidoscópio que nunca mais pode ser restituído.  —Sim, eu sou um abismo. —Seus lábios se esticam em um sorriso torto e conformado.

 Mas você vê a salvação em mim… —Sussurro só para mim mesma.

SANTIAGO

 Eu não tinha mais coração, eu tinha me tornado de pedra, e com o amor e desprezo de Jasmin, tinha ficado perigosamente frágil. Abafei um soluço por Jasmin e por todos que tinha magoado, lutava contra as emoções confusas que me abalavam.

 Jamais ousei pensar isso, tentei ser sóbrio e me mantive impassível o máximo que pude, mas agora tudo estava em jogo. Eu não podia deixa-la ir. Jasmin era boa demais, e eu não podia deixar as coisas belas irem embora outra vez. Eu estava preso a ela, e por todos os meus erros o carma me perseguia, para ajustar o equilíbrio tudo o que plantei agora eu colhia.

 “Você só se importa consigo mesmo, mas chegará o dia em que conhecerá alguém que se importará com outra pessoa mais do que com você. E estão compreenderá a dor que causou aos outros.”

 Eu não me lembrava de quem me dissera isso. Decerto fora meu pai, quando nos vimos pela última vez. “Pensa que partir é fácil, não é? É muito mais difícil ficar, meu jovem, mas você sempre procura a saída menos complicada.”

 A voz em minha memória era, sem dúvida, do meu pai, que podia se repetir por horas a fio sem perceber que eu não mais o escutava.

 Eu a vejo sofrer, todos os dias as mesmas coisas de sempre, e eu do lado de fora sabendo que ela é tudo o que eu quero. O amor dele é tudo o que ela conhece.

 É o Carma. A causa e o efeito, o resultado que nossas ações geram em nosso futuro. O Destino me fez encontra-la, eu a deixei passar, depois de tanto percebi que sua imagem ficara gravada em mim, a curiosidade, a missão não cumprida. E agora o Destino me dava uma segunda oportunidade, eu a encontrei outra vez e demorei a entender, mas agora eu sabia.

 Eu não conseguiria explicar, apenas não a tirei da cabeça desde a primeira vez que a vi.

 —Eu a vi. —Olhei em seu rosto alabastro como as ninfas do Renascimento, erguendo a mão e roçando os dedos em sua bochecha, não contive um sorriso ao me perder na lembrança de um ano e meio atrás. —Entre tantas pessoas eu a vi.

 Eu sabia que Jasmin não entendia, me olhava como seu eu a quisesse tragar, mas na verdade eu é quem estava sendo tragado e não sabia como lidar com isso. —Onde? Do que está falando? —Indagou em um sussurro curioso.

 —Muito antes… —Sussurrei e fiz uma pausa, sem folego por sua beleza, pela feminilidade, pelos lábios rosados tentadores e pelos olhos casntanhos que varriam meu rosto. Desconcertado pela maneira com que ela me olhava. —Vamos nos sentar, por favor. Precisamos conversar agora.

 Atônita ela deu um passo para o lado, passou por mim esbarrando em meu braço e andou de um lado a outro pela pedreira procurando por uma pedra achatada. 

 Eu a observei pacientemente, ainda inebriado pelo seu perfume de frutas vermelhas. Aproximei-me e sentei no chão mesmo e esperei que ela viesse até mim, Jasmin se sentou à minha frente.

 —Yo viajo por el mundo a muito tempo, nunca me prendi a nada nem a ninguém. —Comecei. — Podes me considerar un cigano, se quiser. No sentido de nômade á um astuto enganador, um velhaco. Minha petulância e ousadia muitas vezes trouxeram problemas, mesmo que no final eu sempre desse um jeito de me safar, eso é, buscando la solución mais fácil. Yo nunca tive la mínima noção, en la verdade yo nunca soube, en toda mi vida. Apenas sempre fiz lo que queria, sem me importar com consequências ou obstáculos, sem me comprometer. 

 —O que te fez agir assim? —Jasmin quis saber.

 Hesitei, eu nunca falei sobre nada disso com ninguém, se quer pensava nessas coisas, as considerava uma fraqueza. Eu preferia a razão a emoção.

 —Complexo pós traumático, sabe? —Ergui uma sobrancelha e sorri torto, mas ela não sorriu de volta. Jasmin apenas assentiu, respeitando minha evasão quanto a detalhes. Reviver a perdas passadas não era uma opção, na verdade eu jamais conseguiria lembrar quando tudo começou, eu não possuía coração.

 —Era assim que yo costumaba ser. —Mantenho firme o seu olhar, sustento-o para que ela sabia que estou sendo sincero. — Pero, no ahora. Porque ahora pela primera vez yo estoy comprometido, y disposto a ficar. Yo no consigo compreender, pero a razao desta mudaça és tu. 

 Respirei fundo tentando fazer com que aquilo não fosse tão tenso, mas sabia que não poderia ser de outra forma, então apenas continuei —lutando contra os sentimentos confusos que me abalavam. —Em 2010, yo vim aquí, a Rio de Janeiro pela primera vez. —Inspirei pesadamente, não encontrando palavras, selecionando, calculando o que dizer. Jasmin esperava, aflita, sem desviar os olhos de mim, eu não queria assutá-la. Mas sabia que o que estava prestes a dizer era perturbador. —Yo a vi surfando, aqui mesmo no Arpoador, vi usted entre centenas de pessoas, tu era la única. Linda, exuberante corriendo en la areia molhada ao salir del mar con la prancha sob el braço. Yo estaba em una tenda, fotografando la playa quando tu saiu de la água. Tu sorria mutio, conversava com alguém, pero yo no consigo recodar jamais, só lembro de tu. —Fecho os olhos revivendo o momento, me aproximando dela sem poder me conter, sem querer me impedir de avançar. — Tu sentaste tão perto de mí! Yo solo pude te mirar. Como se pudesse absorver un poco de ti, como una obra de arte para ser admirada.

 Suspiro e abro os olhos. Olho para o oceano por um momento e então procigo;

—Pero, apenas percibí que debía ter feíto algo más cuando já estaba a legos longe de ti… Solo quando era tarde demais, longe demais vi lo grande erro que cometi. —Lamento distorcendo o rosto com o aperto que sinto no peito, vendo sua expressão surpresa, assustada, querendo abraça-la e poder… Poder apenas… Agora ela está aqui, tão perto, é ela mesmo! Mas não o faço, me contenho e concentro, ela percebe, mas não sei como interpreta essas minhas mudanças repentinas. De qualquer forma continuo com oque precisa ser dito.— Enquanto el sol mudaba in cielo yo apenas te apreciei. Lo arrebatamento fue tão incapacitante, yo no pensé… Pero, quando fui embora, me peguei mirando tu fotografía. —Sorri —una única fotografía que tiré de ti y apenas pude lamentar por no ter ido até usted. No me pregunte como pude ser. Yo no saberia explicar, apenas me fasciné por ti sin mismo te conocer. —Suspiro passando os dedos entre meu cabelo com força. —Aarrh! Yo soy loco por ti! —Ergo o rosto novamente, sentindo o peito queimar, tentando controlar meu impulso irracional, enfim falando. —Enton diga-me como no enloquecer a te ver otra vez en Waikiki? Como resistir a lo impulso de te tocar? Tu que yo pensé que nuca más veria, que no había pasado de ilusión! E después quando soube que había otro alguien en su vida… Yo te disse como soy… Un estúpido. No sei lidar com todo eso. —Balanço a cabeça e respiro fundo. —Yo no tiña la convicción que tengo ahora, pero, apenas sabía que yo no podía déjalo ir de nuevo. —Paro, arfante, sabendo que preciso ir de vagar. 


 Espero por sua reação que nunca vem, Jasmin balbucia, abre e fecha a boca em tentativas sem sucesso. Olho em seu rosto, sofrendo como nunca me permiti. 

 Como é possível querer tanto alguém assim? Como é possível precisar tanto que alguém que a dor de não poder tê-la chega a ser física? Minha respiração fica cada vez mais difícil, começo a arfar, me esforçando para conter o soluço estúpido, mas meus lábios tremem e sinto meu rosto desfigurado. Não suporto e me afasto, inspirando, tentando puxar tudo de volta para dentro.

 Mas não consigo!

 Palavras são como balas, uma vez disparadas não tem volta. O que está feito está feito.

 Ela é tudo o que há de mais belo e apenas espero sua rejeição. Sei que cometi os mesmo erros, sei que fui rude tantas vezes e petulante e agora ela só quer estar longe de mim!

 Só me faltou amar e ser amado para ser melhor.

 Se amor é isso, eu não quero.

 Poderia continuar livre e não me sentir tão tolo! Sem dúvida foi um erro correr atrás dela daquele jeito, mais uma vez eu estava sendo egoísta, buscando os meus interesses! Bagunçando sua vida, exigindo o que não posso ter. Não mais… Minha chance se perdera há um ano atrás.

 Mas… Eu sinto que em seu coração há uma brecha, na qual eu me agarrara, sinto no olhar que ela me corresponde que só preciso…

 Se ela me dissesse agora eu iria embora. De verdade, se não houvesse a dúvida que vejo em seu olhar.

 —Eu… Santiago. —De repente ela está perto de mim. —Eu não sei o que dizer. —Sua voz é como um miado de gato, Jasmin me olha com timidez e meu coração esquece tudo sobre erros e arrependimentos. Eu não queria machucar ninguém, só eu sabia como me sentia, não desejava infligir isso a ela. 

 Corri os olhos por seu rosto, suas feições tristes, mas calorosas, pude sentir a maciez de sua boca, o calor do corpo feminino… Nunca estive tão perdido! —Você quer dizer que… Quer dizer que… —Ela tenta novamente, mas baixa os olhos e chora… Não. Não.

 —Por favor, no chores. —Tiro os cachos vermelhos de seu rosto, mas quando levanto seu queixo e ela vê os meus olhos começa a soluçar e inesperadamente estende a mão ao meu ombro. A observo, confuso. Jasmin hesita, mas me encara através das lágrimas e fala comigo em silêncio. Minha pulsação enlouquece, sinto todo o corpo inerte, vontade de toma-la, fazê-la minha e me fundir a ela!

 Todas as barreiras foram quebradas.

 Jasmin sentia algo por mim.

 Oh, Céus!

 Levei as mãos a sua cintura e a trouxe para mais perto. Suas mãos deslizaram por meus ombros e ela inclinou a cabeça para mim, nossas respirações se confundiam, nosso suplício se fundia. Eu jamais me senti assim antes. Com o amor e desprezo de Jasmin eu tinha ficado perigosamente frágil.

  Ela não tinha coragem de falar. — Mas eu posso esperar, cariño. —Sussurrei ao seu ouvido. — Quando tive que partir do Hawai’i, por questões familiares, garanti que saberia donde encontra-la novamente, más no fiz uso disso. Esperei lo momento certo, esperei sentir que tinha que ir ao tu encontro, mesmo con la voz dentro de mí dizendo que yo estaba perdendo tempo, fui paciente. Yo estaba na Índia, contigo sempre no pensamento, quando recebi la proposta de tranajo. Y então daí em diante tu já sabe… —Sorri ao senti-la estremecer e a puxei para mais perto, colando seu corpo ao meu, sentindo cada curva estremeci também. Tinha consciência de que ela sentia o desejo sensível e evidente entre nós. Apertei-a em meus braços como desejei fazer por tanto! Deixei-a apenas sentir… 

 Meu coração. Seu coração. A respiração difícil. A tontura. O desejo. E a Paixão.

 —Que convicção você tem agora? —Indaga, mas não esperava a resposta. — Eu tenho uma pessoa que me ama —soluça contra meu peito — como pude partir seu coração? Mesmo assim você conseguiu minha atenção. Por que você vem aqui, sabendo que eu já tenho problemas o suficiente? Por que você me liga, sabendo que eu não posso atender? E me faz mentir quando eu não quero. Por que me faz ficar quando eu não deveria? Por que você vem aqui, e finge que só está de passagem? —Levanta o rosto e me olha com angustia, a sinto mole em meus braços e não posso mais resistir.

 Fecho os olhos e inspiro a pele de seu pescoço, Jasmin estremece e se afasta, me encara com os olhos sobressaltados, mas em seguida os cerra, e me fita com veemência. Vejo luxúria e desejo, sinto seus seios roçarem em meu peito, sinto seu corpo trêmulo. Sem hesitar desço minhas mãos por sua cintura até os quadris, espalmo os glúteos e a comprimo contra minha virilha. Nós dois arfamos no mesmo momento, sinto a paixão queimar em mim, sinto que enlouqueço, perco a cabeça! Seu hálito esquenta meu rosto, e os lábios estão perto demais.

 Posso ouvir seu coração bater, e o meu que estremece por estar assim, perto demais; um ponto sem retorno.

JASMIN

 Ele me puxou para mais perto e eu, de repente, tive consciência daquele corpo másculo prensado ao meu. —Que Deus o ajude, Santiago… se você se atrever… —Ele desce as mãos grandes e grossas por meu corpo. Meu pulso dispara.

 —Se yo me atrever a que? —Ele indaga ao virar meu rosto para cima.

 —Se você…  —Os olhos de Santiago me devoram, por mais que eu balbucie não faço nada para afastá-lo. Meu corpo está fraco, sem forças, eu estou pronta a me render. E Santiago vem para me beijar, tento desviar, mas ele não permite.

—Ah, quis sim.

 Beijou-me com sofreguidão. Meus lábios se abriram instintivamente e os braços o rodearam. Fechei os olhos, sentindo-me perdida com o odor dele, uma mistura intoxicante de homem e couro.

 A língua de Santiago juntou-se a minha e, então invadiu-me a boca como se buscasse um tesouro. Eu sabia que devia faze-lo parar. Por Deus, porque não tentava? Tinha a vaga consciência de rock tocando, mas Santiago parecia não se importar com o toque insistente do meu celular. Uma onda de calor me consumia enquanto as mãos dele percorriam minhas costas. O que estava acontecendo? Sem querer gemi baixinho, e Santiago, numa resposta, também o fez ao mesmo tempo em que me apertava os quadris contra o corpo. Meus olhos arregalaram-se.

 —Não —protestei e tentei me afastar.

 —O que foi? —ele indagou ao beijar-me no rosto, os olhos semicerrados.

 —Você precisa parar. Eu… devo…

 Desvencilhei-me de Santiago e desatinada comecei a descer a pedreira.

 —Jasmin! —Ele veio atrás de mim. Eu ainda sentia a sensação de seus lábios nos meus, de seu corpo e suas mãos em minha pele. Isso me enlouqueceria! Parei quando meus pés escorregaram na superfície cheia de sal e meu tornozelo virou, meu coração estava a mil, mas eu queria voltar e beijá-lo de novo! Isso era tão errado, mas tão bom! Eu me sentia aliviada por ter me rendido ao instinto que me perseguia em meu subconsciente há tanto tempo.

 —Espere… —Seu olhar era como uma mão segurando em meu pulso, me prendendo ali. Eu parei. Encarando-o de volta, sentindo o estomago dançar e as mãos suarem.

 —Deixa eu que te levo… —Falou baixinho, me estendendo minha bolsinha de couro e minhas sandálias.

 Na calçada do condomínio eu não resisti outra vez. Segurei seu rosto entre as mãos e comprimi meus lábios contra os dele, surpreendendo-o, fazendo-o tremer e suspirar. Santiago se atreveu a pegar em meus seios, e percorrer as mãos por minhas coxas, entrelaçar os dedos em meu cabelo. Tomada pelo desejo, pelo perigo e adrenalina espalmei seu tórax, sentindo, enfim, seus músculos firmes, adentrando a camisa e sentindo a pele quente na minha. Entrelaçados no meio da rua. Trêmulos e insanos. Salientes e obscenos. Desesperados e feridos.

 Sem fôlego! Minha consciência desperta, sei que perdi o controle, sei que estou adorando isso, mas estou também desesperada. Porque não é certo!

 —Não… Eu preciso parar…

 Soltei-me dos braços dele e bati de encontro a alguém.

 —Deus do Céu, Peter!

                                 CONTINUA

Mantenha a calma e releia. :) Depois comente, com calma.

Confesso, meu coração metralhou quando escrevi esse troço! -.-

Enfim tudo foi revelado.

Enfim um monte de coisas.

Prestaram atenção aos detalhes, acada fala, reação, reflexão e pensamento, para compreender os personagens? Não se atenham apenas ao fato

Honis, com carinho e muita dedicação.

Mine

Aloha!

Texto postado em 06/03/2014 | 0 notes | Source | Reblog •

Capítulo 36 — Continuação de Os polos, as extremidades do eixo; Véspera de um ataque do coração

Capítulo 36 — Véspera de um ataque do coração

 Acordei com gosto de cigarro e vinho na boca. Meu celular tocando. Revirei na cama, desorientada pelos pensamentos agitados e entorpecida pelo sono extremo fiz vaga menção de levantar o braço para pegá-lo, mas esqueci o propósito e recolhi braço voltando a incônscia completa. Nado, nado, nado com os braços cansados em direção às sombras de copas de coqueiros, preciso chegar à areia! De repete um buraco me suga, deslizo no escorrego de água quente e negra, para baixo e os braços do oceano me carregam, e meu peito congela, não consigo respirar. De repente abro os olhos, levanto de um salto e começo a procurar pelo som alto e insistente, cega, na semiconsciência tateio no escuro desatinada, o coração a mil. Acho o celular em cima da cômoda, e mergulho na cama outra vez, apagando na hora.

 Só acordei de novo às 9hrs, dando um pulo da cama, coração na boca. A reunião! Meu Deus, corre, corre. Nãopossomeatrasar! Voei para o banheiro, me enfiei debaixo do chuveiro e logo saí correndo para o armário, peguei um vestido azul-marinho, pela praticidade de ser peça única, enfiei os sapatos já penteando o cabelo e tirando o rímel do estojo. 9h13! Corri à biblioteca, peguei meu material, arrumei a pasta com atropelo e voltei ao quarto. Bom… na verdade, meu cérebro disse para eu voltar ao quarto, mas meus pés correram para a cozinha. Virei um copo de iogurte e nem voltei ao quarto, saí porta a fora.

 9h19! A reunião é as nove e meia! Meu pai quase não me dá trabalho e o que me dá não sou capaz de cumprir! 9h21! O elevador chegou ao estacionamento, desci a rampa e corri ao meu carro, me joguei no banco e saí para a luz do dia, o portão abriu, subi para a calçada.

 E então o mundo parou e eu esqueci o porquê de tanta pressa.

—Ai, merda. Que merda é essa?

 Do outro lado da rua. Os dois. Santiago recostado na Harley Davidson, braços cruzados, jeans escuro, jaqueta de couro e aquelas botas de combate. Victor, terno cinza, gravata preta, óculos escuros, recostado no capô de seu Logan prata.

 Encostei na calçada e desci do carro, olhando de um para outro sem saber o que fazer.

—Victor, oi. —Paro a sua frente, colocando as mãos nos bolsos altos do vestido. —O que está fazendo aqui?

—Bom dia. —Sorri expandindo as bochechas, os olhos negros brilhantes nos meus. — Vim te levar pra tomar um café.

 Faço um ligeiro bico com os lábios, e reflito por um instante, observando sua naturalidade. —Ah, eu já comi. —Não que aquele copo de iogurte tivesse enchido meu estomago, mas eu referi assim.

—Ah, tá… Posso te dar uma carona.

—Eu tenho carro.

Victor ri. Ele dá uma risadinha, mordendo o lábio inferior e seus olhos me dizem que ele não acredita em nada do que estou dizendo.

—É por causa dele não é? —Faz um gesto com a cabeça para Santiago, quem eu evitara olhar, vindo diretamente a Victor.

Olho para o lado, Santiago nos observa deliberadamente, e repondo. —Não.

—Ele já estava aqui quando cheguei. —Diz. —Isso foi às 6hrs. O cara é neurótico. —Sorri divertido.

Estreito os olhos. —E espero que você não esteja ficando como ele. —Solto sem pensar. —Não está tentando compensar nada está? Diga que não… Não podemos ficar assim. Não quero que fique um clima estranho entre nós.

—Não. É exatamente o que quero evitar. —Victor franze a testa fazendo gesto negativo com a cabeça. —Por isso mesmo vim aqui esta manhã.

—Então faça isso entrando no carro e indo trabalhar. —Faço um gesto displicente com a mão.

Victor ri novamente, os olhos apertados. Por que ele está rindo?

—O que foi? —Indago confusa.

—Você é muito fofa. —Balança a cabeça. —Tudo bem, eu vou. Mas se cuide, okay? —Faz um meneio de cabeça indicando Santiago novamente. Este último acendera um cigarro e continua nos observando diretamente, sem se importar.

—Desculpe… —Franzo a testa me sentindo mal pela forma que falei. —É só que…

—Eu entendo. —Me interrompe. —Só não quero que fuja de mim.

—Não.

—Então tchau. —Se inclina e me beija na bochecha, beijo-o de volta e trocamos um olhar por um instante. O observo dar a volta em seu carro, sentar e dar a partida. Respiro fundo, trêmula me preparando para a próxima.

 A cada passo eu sentia como se em meus sapatos fossem de chumbo. O nervoso inesperado revirando meu estomago.

—Está linda. —Santiago abre um sorriso magnífico, expelindo fumaça enquanto fala, me examinando dos peep toes ao blazer.

—Obrigada. —Falo sufocada.

—Vamos, sobe aqui. —Indica o assento da moto com o queixo. —Quero te mostrar umas coisas.

—O que?

—Venha comigo e verá. —Sorri enviesado.

—Tenho que trabalhar.

—Todo bien… —Suspira desencostando da moto. —Não vou insistir. Trouxe isso caso você tivesse essa atitude. —Se virou e pegou uma sacola de papel pardo. Um pedido para viajem da Starbucks.

—Capuccino com canela, um coockie e pães de queijo. — Me oferece com um meio sorriso.

—Obrigada. —Pego a sacola olhando para ele como se nunca o tivesse visto, tentando disfarçar a mão trêmula.

—O que é que tu tem? —Ele arqueia uma sobrancelha. —Está estraña. —Sorri torto.

—Nada. Não estou. —E descubro que minha voz também está vacilante.

Santiago fixa aqueles olhos esmeralda em mim e os estreita com malícia. —Teve algum sonhos constrangedor comigo? Todo bién… No precisa ficar corada. —Sorri com doçura desta vez.

Abri a boca e fechei, por meus lábios soou um silvo e eu abri e fechei a boca outra vez sem consegui formular qualquer coisa. Bloqueada.

—Não sonhei com nada disso. —Fecho a cara, conseguindo falar por fim.

Santiago torceu a boca para o lado e converteu a expressão, as sobrancelhas baixando. —Desculpe.

Olhei para ele.

—Sou tão gentil quanto desrespeitoso e rude.

—Ao menos tem consciência disso. —Cuspo rispidamente.

 Ele faz uma pausa e me olha por um instante antes de falar. —Hoje à noite, prometo ser apenas o Don Juan. —Se aproxima, mais rouco que o normal. Elevo os olhos e encontro os dele, vejo as gotas de ouro em meio ao verde vítreo, sinto sua intensidade me tomar, afundo nas águas cristalinas e me obrigo a voltar a superfície imediatamente. Mas quem se afasta primeiro é ele.

—Buenos dias, cariño. —Dá passos para trás e sobe na moto.

 Meneei a cabeça e atravessei a rua sem olhar para trás, as pernas dormentes, o corpo todo dormente. Antes de entrar no carro, porém, virei o rosto e o vi com os olhos em mim, os olhos verdes que pareciam emitir luz.

 Passei a manhã no imponente prédio espelhado da sede da Apple Venice. Cheguei atrasada. Eu que costumava ser tão pontual e responsável, cheguei atrasada. E o presidente e dono da empresa— meu pai— me chamou a atenção diante de todos a mesa de reunião. Com um única frase, admoestava o suficiente, lembrando meu “antiga postura e compromisso”.

 Isso foi quando minha vida pessoal era basicamente eu mesma — pensei — sem paixões, sem saudades, sem ninguém para me atormentar. Caminhando pela razão. Eu sempre fora a luz e nunca a mariposa. E não sou mais o que costumava ser. E para completar, Gabriel passou o tempo todo me lançando olhares azuis.

 As notícias não foram nada animadoras no almoço com meus pais. Além das preocupações com o vô Antony que nos esmagava meus pais quiseram saber sobre mim. Eu engasguei, embora tenha me esforçado para não transparecer. Não consegui falar, se quer dar uma desculpa qualquer, mas justo essa incapacidade fazia desnecessário qualquer argumento. Minha vida estava uma bagunça, eu estava uma bagunça. E não havia como fugir, era isso e pronto, estava na cara. Estampado embaixo de meus olhos em olheiras, em meu olhar embaçado ou em meu estado de espírito, nunca completamente presente, disperso em pensamentos distantes.

 Papai falou sem perceber que eu não ouvia, desviava os pensamentos para Santiago, para a conversa a qual precisava voltar, que poderia aquietar a palpitação em meu coração. Ou não.

 Eu queria acabar logo com aquilo e poder virar a página. Ir à Los Angeles sem deixar nada mal resolvido para trás.

 Era isso não era?

 Comprimo os lábios e sinto o coração apertar, pois alguma coisa me diz que algo vai dar errado, que esse plano é impossível. Parece longe de meu alcance, mas continuo me agarrando a ele, porque preciso acreditar.

—Muita coisa na cabeça. —Dei de ombros apenas, quando papai perguntou se eu estava bem. Seus olhos castanho café, exatamente a mesma cor que os meus, se tornaram profundos e eu soube que ele buscava dentro de si força para me dizer algo útil, esperançoso.

 Ele suspirou, o clima era tenso, carregado de tristeza e preocupações. —Todos nós estamos muito mal com isso, é a nossa família, tudo o que temos. Mas temos que ser fortes, pai já é velho… É a ordem natural das coisas. Tudo o que podemos fazer é fazermos o que pudermos, e nos preparar Não perder a fé, não podemos perder a fé. E nos deixar abater, temos que continuar. —Suas pálpebras piscam devagar, a cor quente dos olhos transparece cansaço e dor, mas esperança e tanto amor que eu reprimo as lágrimas. Pouco importava minha vida pessoal, meus pais estavam sofrendo. E eu os fazia sofrer ainda mais por sofrer sozinha e de certa forma, me isolando, abandonando-os.

 Comprimi os lábios e fiz um meneio de cabeça sem conseguir falar.

 Mamãe pigarreou. —Filha, e Bruno?

 Direcionei meu olhar a seu rosto, sentindo o coração apertar com a menção do nome, ainda mais depois daquele telefonema. Lembrando de nosso último reencontro e de como fizemos as coisas meio que no automático. Cegos. Fingindo que estava tudo bem, nos negando a ver. A dor de suas palavras frias. Olhei para ela indagativamente.

—Não soubemos mais nada dele. Ele tem estado com você?

 Deixo minha visão se turvar, olhando seu rosto sem ver, o que vejo é um namorado distante, tão distante que não parece fazer parte da minha vida realmente. Sei o que minha mãe quer dizer, apesar de Peter ter vindo ao Brasil há uma semana apenas ela se refere a estar junto comigo, junto mesmo. E isso eu não sei responder, porque há meses, cada vez mais eu o sinto se afastar, mesmo que nos encontremos o reencontro nunca é suficiente para aplacar sua falta e a despedida eminente. E isso enfraquece meu coração… o fragmenta aos poucos como um caleidoscópio que nunca mais pode ser concertado.

 Ao final, apenas dou de ombros outra vez.

—Jasmin, ás vezes temos que aprender a amar o que nos faz bem e a deixar o que nos traz mal, apesar de o amarmos. —Mamãe disse com delicadeza tingida de ressentimento, sentimento que eu sabia, era direcionado a Peter.

—Eu não aprovei essa ideia de namorar com um cara como ele desde o início. —Disse meu pai com o tom comedido, eu engoli em seco tentando não me abalar com suas palavras. —A vida que ele leva, sabe como é. Eu não preciso dizer porque não quero levantar falsas acusações. Confiei em você, filha, e por isso o aceitei. Você o conhece melhor que eu, e é adulta, sabe o que faz. E se não souber deve se responsabilizar pelas escolhas. Peter é um homem educado, gentil com você e conosco, mas vejo claramente que não é apenas a saúde de pai que a deixa tão mal. —Suspirou e fez uma pausa inconsciente cheia de reflexões. —Reconsidere, pense bem o que está fazendo com sua vida, escolha o melhor para você. O que te faça bem.

 Meus lábios tremiam e meu coração parecia estar sendo espremido, trinquei os dentes para conter as lágrimas, e não confiava em minha voz para falar sem perder o controle.

—É… Sim. —Pigarreei para desfazer a rouquidão. —Tá bom.

 Está tudo em jogo, um jogo do qual não sei as regras. E falar sobre isso não vai adiantar nada, além de eu simplesmente não conseguir, eu não quero falar.

 Eu sei que seria bom compartilhar com alguém, o quanto preciso dividir essa carga que tenho insistido em carregar sozinha. Mas ninguém pode me ajudar, sei disso também. Por que não sei o que dizer a Michael que deseja fazer as coisas certas sem prejudicar as pessoas que ama. Tentando se perdoar pelos próprios erros e entender a si mesmo. Amanda com seus vários conflitos sentimentais e definitivamente não compartilho da vida de recém casada de Júlia, não estamos na mesma página, eu não sei o que lhes dizer, quanto menos eles a mim.

 É comigo. A minha vida é uma questão que só eu posso resolver. Há jornadas que temos que trilhar sozinhos.

 Nos olhos de meus pais vi a mesma dor que a minha, eu entendia suas preocupações e o sentimento de dever ao me aconselharem, no entanto, eu estava distante demais para ouvir, lamento, mas fazer diferente não estava ao meu alcance.

 Conferi o celular pela primeira vez no dia e vi as ligações perdidas de Peter. Foi ele que me ligou.  Depois olho a hora me despeço de meus pais dizendo que não quero me atrasar. Sabendo que meus não me ajuda em monossílabos não ajudaram em nada, mas estou resignada e sigo em frente.

 Às 14h30 o vovô tinha consulta marcada em uma clínica cardiologista, após o almoço fui busca-lo. Os procedimentos ocorreram bem, mas não tranquilos, saber que o frágil coração sobrecarregado dele pode parar a qualquer momento é desesperador. O medo de perde-lo faz meu o meu bater retumbante, oprimido de pavor. Mas o vô Antony continuava levando a situação na brincadeira, mal criação e sarcasmo. Ele achava a preocupação desnecessária e as horas marcadas intoleráveis. Ele não podia fazer isso… Não podia desfazer da própria vida. Não via que se o perdêssemos nossa família seria mutilada sem regeneração?

 Ouvimos em silêncio as explicações sobre artérias, vasos sanguíneos e uma série de tratamentos. O vô respondeu a uma pequena entrevista e novas consultas foram marcadas, outros encaminhamentos médicos e mais exames. Tudo tão cansativo e opressor.

—Vou pegar no seu pé, fique sabendo! —Digo entredentes ao sair da clínica.

—Mais ainda?

—Eu, mamãe e papai. Mais ainda! —Sou inflexível. — Se tivesse nos ouvido antes isso poderia ter sido amenizado. —Tento controlar a instabilidade em minha voz.

 Por um instante penso que vejo o pesar em seus olhos verde-claros, mas ele dá de ombros. —Vou ficar bem! Sou feito de ferro, nada pode me derrubar. —Garante cheio de segurança. E só eu sei o quanto desejo eu isso fosse verdade.

 Fui para a minha Clínica depois disso, com minha folga ontem hoje eu tinha muito o que fazer.

 Sabia que devia ligar de volta para Peter, mas não podia agora. Primeiro porque precisava me concentrar e principalmente porque eu tinha medo, porque eu sentia mágoa salpicada de raiva pela forma com que ele me tratara.

 Concentrei-me cegamente no trabalho, fugi para ele. Porém a todo instante meus pensamentos se desviavam. Encerrei o dia ás 22hrs como de costume, fechei minha sala sem arrumar a mesa e fui em direção a recepção.

—Confirme a reunião com o Dr. Rochel. —Peço a Milena pondo o relatório dos pacientes sobre sua mesa, dados a serem postos nas fichas e passadas aos familiares.

 Depois do seminário fui convidada para alguns eventos, como palestrante, e a mais recente trazia o convite para o cargo de professora de psicanálise em uma universidade. Eu precisava começar a considerar essas coisas, principalmente porque agora eu não conseguia lidar diretamente com meus pacientes como antes. Eu não sabia o que dizer e vinha procedendo mais pelo prático e técnico do que pelo emocional. Professora de universidade e palestrante parecia bom para mim, além de ser mais rentável.

—Às 10h30 está bom? —Com os dedos no teclado do computador Milena olha para mim pronta para tomar nota.

 Eu reflito sobre essas mudanças eminentes, pensando se seriam para melhor e respondo distraída. —Ótimo. Na Starbucks da Presidente Vargas.

—Anotado. —Sorri cansada. —Esse cara está te esperando desde ás 20hrs. —Franze a testa apontando com o polegar para o lado.

 Sigo a direção de seu dedo e sinto meu estomago dançar quando vejo o par de olhos verdes me observando no canto da sala. Meu coração estremece e eu sinto o nervosismo em minhas veias esquentar todo o meu corpo.

 Vou até ele, que se põe de pé a minha frente com um sorriso lindo e malicioso estampado no rosto.

—Hola… —Sussurra pondo as mãos nos bolsos dianteiros da calça preta e levanta os ombros.

 Eu pestanejo sem conseguir falar, meu estômago revirando, os olhos percorrendo seu rosto bronzeado, observando o brilho magnífico do cabelo negro como carvão penteado para trás com gel e o contraste com a cor de sua pele, os traços ligeiramente encovados e a expressão sensualmente arrogante. O rosto exageradamente lindo e esculpido que me desorienta trazia um sorriso confiante emoldurado pelo cavanhaque negro disposto a me hipnotizar.

—O… Oi. —Murmuro como uma tola, sem conseguir desfazer a expressão assustadora em meu rosto.

 Santiago devolve o olhar intenso e absorvedor. Isso, nós ficamos nos absorvendo de uma maneira sinistra e indagativa. Eu não sabia que diabo era aquilo, virei de chofre para fugir.

—Milena, acabamos por hoje. Até amanhã. — E saí porta a fora sem ouvir a resposta.

—Está fugindo de mim? —Santiago vem ao meu encalço pela escadaria até a calçada.

—Eu. Não. —Respondo rápido demais. Sem olhar para ele.

—Está sim. —Segura em meu pulso, eu estremeço a seu toque e viro para ele sem fôlego. Não consigo entender o porquê de eu estar tão nervosa.

—Como me achou aqui? —Procuro evitar seu olhar, fito o botão em forma de cobra de sua camisa vermelha. E me fascino pelo vermelho. —Quer dizer… Ainda está me seguindo? —Olho para ele, mas não em seus olhos.

—Jasmin, por favor! —Aperta os dedos em torno de meu pulso. E tenho a consciência do calor do toque.

—O que? —Minha voz soa rouca, instável e vergonhosamente alta.

—Não te segui, tá legal? —Os dedos quentes em meu pulso. —Só pedi informação.

—Hm. — Xingo por dentro, porque o bloqueio? Por que me erguendo um escudo, por que me sinto desesperada e inegavelmente atraída por ele?

 Ergo os olhos sentindo a pulsação enlouquecida, o estomago dançando.

—Não quer terminar nossa conversa? —Santiago indaga e seus dedos percorrem o torço de minha mão e seguram os meus.

—Quero. —Digo ao em vez de “estou ansiosa por isso o dia inteiro”, me sinto envergonhada por este pensamento assim que o produzo, logo acrescentando; —Você ainda me deve muitas satisfações.

 Segui sua moto até a praia. As mãos no volante suando. O pulso que eu sentira desde a primeira vez que o vi era claro e límpido esta noite. E os sonhos que tão vívidos reprisavam em minha mente, me roubando o ar e aumentando mais ainda o pulso em meu peito. Havia algo diferente em Santiago hoje, e em mim também, embora eu não soubesse o quê.

—Como está seu avô? —Foi a primeira coisa que ele diz quando senta ao meu lado na areia.

—Bem…

—Você não tem avó?

  Olho para ele e sou tomada por uma onda de calma e tranquilidade. Dou de ombros ao responder. —Não conheci uma e a outra não lembro, mas tenho fotos antigas com ela.

—Ela mora em outa cidade.

—Isso. —Baixo os olhos outra vez.

 Silêncio.

 Percebo que ele hesita.

 Percebo que Santiago move os dedos desejando ergue-los ao meu cabelo.

 Percebo seu olhar em meu rosto e não levanto a cabeça.

—Parece nervosa. — Ele murmura. Eu baixo mais a cabeça e comprimo os lábios, tenho tanto o que inquirir ainda, mas meu nervosismo está me sufocando. Diante de toda essa situação. —Yo también estoy…

 Então levanto o rosto, surpresa com sua confissão.

—No precisa ter medo de mim, sabe disso no sabe? Por favor, diga que no tem medo de mim… —Busca pelos meus olhos com avidez.

—Não. Eu não tenho medo de você. —Digo com firmeza. —Eu só gostaria de te entender. —Sinto minha expressão distorcer com a dor e confusão que sinto. —Você ás vezes parece tão… perturbado… e triste. Eu não sei o que pensar, é tudo muito estranho. As coisas que me disse no Hawai’i, sobre não querer mais fotos do Bruno, mas sim a mim e conseguir sempre o que quer. —Não paro de falar, não ouso desviar os olhos dos dele enquanto deixo as palavras saírem em um jorro. —Foi tão petulante e atrevido. E depois de meses você aparece aqui, com a aparência completamente diferente, —Corro os olhos por seu cavanhaque. —trabalhando no mesmo lugar que meus amigos, vai a festa deles se passando por outra pessoa e aparece na minha casa, depois me diz que já tinha me visto uma série de outras vezes. —Inspiro, sufocada. —Por que isso tudo? O que tanto esconde? E por que? Não dá pra dizer que está a fim de mim, que veio por minha causa e pronto? E aceitar o não e ir embora… Mas parece que há mais que isso, muito mais, só que eu não faço ideia. —E paro de falar, sabendo que tenho muito mais a dizer, mas perdida demais para continuar.

 Santiago ergue a mão e toca em meu queixo, suas sobrancelhas estão unidas e seus lábios torcidos, os olhos brilham como se ele estivesse reprimindo lágrimas e eu não suporto ver isso.

—Yo… Yo te disse. Disse que vim por su causa, só aceitei lo trabajo porque seria la oportunidade de reencontrá-la. E quantas vezes preciso repetir que lo que mais quero és tu? —Seu sussurro banha meu rosto, o hálito quente me envolve e sua voz carrega uma tristeza desorientadora. Quando o vejo assim não há mais o Santiago incisivo e petulante, apenas o enigmático e profundamente triste. Mas porque tão triste?

 Afasto-me e um soluço escapa por meus lábios, percebo que estou chorando e passo a mão no rosto sentindo as lágrimas quentes que não param de rolar. Magoada, ferida e dolorida eu olho para o mar desejando me fundir a ele.

—Mas você… —Soluço. —Usted no responde a mi preguntas. —Soluço e enxugo o nariz com o dorso da mão. —Tu no puedes desear algo que no te pertence e jamáis poderá ter.

—No voy embora porque se que toque su corazón. E sé que tu…

 Balanço a cabeça me negando a ouvir. —Nós dois sabemos que não se trata de coração, sentimentos, nada disso. Você é puramente egoísta. Eu tenho um relacionamento e você não tem direito de interferir na minha vida assim. —Respiro fundo, trêmula. —É só que…

 E estremeço, sentindo uma onda de eletricidade causada pelo breve toque de seus dedos em minha mão. —O que? —Santiago pergunta.

 Respiro fundo. —Ás vezes parece que você… —Definitivamente eu não consigo falar. Estou envolvida pelo seu ar enigmático, pelo seu conflito e isso é absolutamente instinto investigador e explorador de psicóloga. É no que tenho me fundado nas últimas semanas e é o que me faz recuar, me arrasto na areia para longe dele. Embora confusa estou muito sóbria, lembro do que meu pai me falou e tento ser forte.

—Eu acho que você não é assim. —Digo por fim. —Sei que você mascara seus verdadeiros sentimentos com palavras evasivas. Acho que você é melhor que isso… —Falo olhando nos olhos verdes que assumem uma intensidade profunda, me invadem e prendem. Mas não há essência alguma de determinação e força, e sim nuances de dor contida. E eu não consigo entender o porquê… Mas vejo também a porta para a resposta que tanto quero.

 Sua expressão se suaviza, ele sorri um pouco olhando para mim com adoração. —Você é tão linda… Prometo que vou desfazer todas as suas confusões, só preciso que pare. Pare com isso. Eu só não posso desistir de você, entende? Mesmo você tenho outra pessoa, eu não posso te deixar porque eu vejo que você está tão envolvida quanto eu. Só que está presa demais ao seu dever com ele. E você tem medo. — Se aproxima de mim, o cabelo penteado para trás deixa seu rosto esculpido exposto, os olhos de vidro tão visíveis. —Tem medo de se entregar ao novo, se prende ao que já conhece e considera seguro, no entanto sabe que ele já não é mais seguro. Eu sou. E estou aqui, por você.

 Meus olhos varrem seu rosto, minha respiração lenta e contida, sei que há algo de verdadeiro no que ele diz quanto a segurança em Peter, mas me nego a concordar com o resto. Olho em seu rosto sabendo que gosto dele, Santiago não é tão mal quando quer, lembrando do homem agradável e galante que me divertiu naqueles dias de sol e pergunto se ele só quer brincar comigo. Seus olhos brilham cheios de intenções ainda desconhecidas.

 Então de repente ele dá um pulo, leva a mão à cintura e pega o celular.

—Eu te respeito acima de tudo, nunca a machucaria. Desculpe, tenho que ir agora. —Se pões de pé levanto o celular a orelha.

 Pestanejo aturdida. —Santiago? Aonde vai?

 Olho para o oceano, querendo transpô-lo, triste. Como pode um monte de água nos separar de quem amamos? Como as coisas podem ser tão complicadas?

 Choro outra vez, sem me dar conta realmente disso e olho para Santiago caminhando pela areia.,. O que poderia ter acontecido e quem era ao telefone para ele sair assim? Tento chama-lo, pedir que ele continue o que falava, mas o momento já se perdera. Santiago já está distante.

 Quando chego em casa sei que não posso adiar mais. Tenho que retornar a ligação para Peter, mesmo que isso signifique encarar aquele tom de voz frio e seco que eu não posso suportar.

 Após sair do banho e me afogar na cama peguei o celular, respirei fundo e disquei seu número. E tudo se repetiu.

Bruno atendeu e não falou.

—Oi… —Sussurrei nervosa.

—Oi, tudo bem? —Seu tom é casual e eu me pergunto se o que quer que tenha acontecido ontem já ficara lá, no passado. Quero falar com ele normalmente, me sentir feliz em ouvir sua voz, como antes, mas não sinto. Meu coração apenas se contorce e eu fico nervosa, querendo fugir.

—Aconteceu alguma coisa? Por que falou comigo daquele jeito? —Meu tom saiu em forma de acusação, não pude conter.

—Se tivesse atendido o celular hoje saberia, Jasmin. —Devolveu muito irritado. —Te liguei duas vezes e você não atendeu, e agora que você liga!

—Como assim? Você não sabe o que estou passando aqui? Eu estava dormindo, Peter! Eram quatro da manhã, como eu ia atender a uma ligação ás quatro da manhã depois de um dia de trabalho? Desculpe!

—Anda muito ocupada, não? —Insinua e eu mal posso acreditar. Sento na cama e aperto o celular nas mãos.

—Sim, e você? Não estou entendendo, você sabe como são as coisas.

—Sei, sei… Mas acho que não sei de tudo não é verdade?

—Eu não sei!

—Okay, então você estava dormindo.

—É. E você? O que você tem? Por que está falando comigo assim?

—Você não sabe?

—Não.

—Então não sou eu que vai dizer.

Trinquei os dentes, irritada. —Mas que droga! Se é pra me ligar e ficar nessa…

—Então desligue Jasmin!

—O que?

—Depois conversamos.

—Peter? O que você tem? —Não, ele não podia falar comigo daquele jeito! Não podíamos desligar com uma briga sem sentido.

Ele respirou fundo. —Nada. Só ando muito estressado.

—Tá, mas precisa descontar em mim? —E começo a chorar, à flor da pele, tão instável e confusa. —Não pude atender, tá? E não fale comigo assim sem motivo…

Bruno demorou a responder.

—É melhor nos falarmos amanhã.

—Mas…

—Amanhã eu te ligo. E atenda, okay?

—Tá. —Afirmei pensando no monte de coisas que não lhe contei, mas que quero contar. —Amanhã então.

 Ambos instáveis, distantes, com vidas paralelas. Bruno bate e eu rebato, se não houvesse uma atitude complacente de alguma das partes isso poderia explodir. Discussão sem pé nem cabeça que me deixou mais intrigada ainda. Na manhã seguinte, porém, Bruno me ligou com o velho tom animado e carinhoso que eu tanto amava. Ao ouvir sua voz nesse tom eu apenas esqueci de tudo na hora, imediatamente. Perguntei sobre o motivo de seu mal humor, mas ele deu de ombros, pediu desculpas dizendo que exagerou, que estava muito estressado, cansado e ficou aborrecido por eu não ter atendido ao telefone.

 Querendo compensar minha dispersão fiquei com os fones de ouvido desde que atendi a ligação, penteando o cabelo em casa, até o primeiro intervalo na empresa. Eu sentia tanta falta dele, de conversar com ele, droga, eu me sentia tão viva!

E o clima ruim parecia já estar no esquecimento. Contei a ele sobre as ótimas propostas no trabalho, ele me contou sobre o seu e falamos sobre besteiras também.

—Sabe Jas, eu estava no escritório da assessora e acabei descobrindo que esse cara está aí no Brasil a trabalho mesmo. —Disse ele sem dar muita importância.

—É mesmo? —Tentei disfarçar o choque. —Que alivio então.

—Mas isso não quer dizer muita coisa…

—É?

—Sei lá… Você acha que o cara tá aí pra conseguir fotos de tabloide? —Indaga incrédulo e eu não sei onde ele quer chegar.

—Não sei… Está trabalhando na campanha daquela marca lá. —Lembro.

 E Bruno dá de ombros, mudando de assunto, mas eu não. Sinto que o estrou traindo ao omitir que, apesar de Santiago estar aqui a trabalho mesmo, ele está sim por mim eu estou envolvida e excitada demais porque mais tarde sei que ele vai em procurar e eu então descobrirei tudo. Simplesmente sinto isso.

… Continuaaa (8) ;)

POR FAVOR NÃO DEIXEM DE COMENTAR (com precisão), PRECISO MESMO SABER SUA OPINIÃO, ANSIEDADES, TUDO, PARA ME AUXILIAR NO PRÓXIMO! ;)

Texto postado em 27/02/2014 | 0 notes | Source | Reblog •

Capítulo 35 — Os polos, as extremidades do eixo

Giiirls, alooha! Tenho novidade. 
Dentre muitos erros que cometi - os quais pretendo corrigir quando concluir a história - foi não zerar a conta de capítulos a partir da parte dois. Tudo é de acordo com a preferência do autor, nomear os capítulos ou não, pôr observações ou notas, assim também é com relação a dividir a história em partes. 
A primeira parte da Mo’e findou com as férias no Hawai’i, eu devia ter começado a parte dois a partir do capítulo um. Capítulo um da partedois. E para corrigir esse erro/distração, mesmo que tardiamente, eu renumerei as publicações no Blogger. Eu sei que as confundirá, talvez a mim também, mas é o certo. Isso tava me incomodando, e eu sou cheia de esquisitices. Creio, porém, que não é de muita relevância…
Não vou renumerar no Tumblr, porque é foda. E Lucilia, nem se preocupe em fazer isso na page, por favor! 
Então estamos na PARTE 2; CAPÍTULO 34. ;D

~No capítulo anterior…

"—Todo bién? —Ele indaga.

—Sim.

—Então buenas noches.

—Boa noite.

Mas nenhum de nós se move.

Os minutos passam.

—Você não me seguiu. —Falo.

—Praticamente, não. Ou não exatamente.

Mantenho a expressão impassível. —Isso não muda nada.

—Talvez no.

—Não. Não muda.

 Ele desce da moto e se recosta nela, cruza os braços e fixa os olhos em mim, mechas negras de seu cabelo caem nos olhos. —Aquelas manhãs na confeitaria y no café, la noite na praia y hoje significou muita cosa. Muda muita cosa.

—Não muda. —Insisto segurando os livros contra o peito.

 Santiago se mantém olhando tão profundamente nos meus olhos que me sinto nua, como se ele visse tudo,soubesse de tudo, e não houvesse para onde fugir. —Será que és capaz de me responder por que apareceu na praia naquela tarde na hora que dizia o bilhete que deixei no capô de seu carro? —Ergue uma sobrancelha, incisivo, cortante.

—Não. —Recuo um passo. Olhando para dentro de mim mesma sem ver.

—Não o quê?

—Não sou capaz de responder.

—Então aquela noite que te encontrei na praia chorando mudou alguna coisa. E usted ter aceitado meu convite para la fogueira prova eso. E também mudou muita coisa. —Seu tom era tão rude, aparentemente irritado comigo. —Porque después dessas duas ocasiões tu de uma hora pra outra começou a subir na minha garupa e a fazer coisas comigo!

 Pestanejei transtornada e murmurei a um fio de voz. —Sim…

—Agora te fare la pergunta… —Inspira ruidosamente fechando os olhos com força e olha para mim novamente. —La única pregunta que yo realmente quero hacer é: O que tu pensa que está fazendo? —Proferiu as palavras lentamente, dando ênfase a cada uma delas. Encolho os ombros, sem voz, não respondo. Ele se aproxima e eu recuo ficando contra a grade do portão. —Yo no fiz preguntas… Porque não quis te despertar del transe alucinógeno em que estava. No quis dizer nada que pudesse afastá-la. —Fecha os olhos novamente. —Solo por um momento yo deixei las cosas acontecerem, queria ver até donde usted ia. No entendi, pero deixei… Só que tão repentinamente quanto baixou a guarda ridiculamente usted sumiu. Sumiu e depois me aparece com aquele cara… O leva pra casa… —Ele respira com dificuldade. —Mas la questão ainda no é essa.

 Santiago se afasta um pouco, baixa o rosto e inspira minha nuca, sentindo meu perfume de frutas vermelhas. Eu me arrepio involuntariamente e continuo imóvel. —A questão é que usted ainda se nega a admitir, a perceber que se sente atraída por mim… Mas tu no puedes hacer este jogo! Agir dessa forma tão… inconsequente! Yo te quero tanto, Jasmin! —Segura em meus ombros levado os lábios ao meu ouvido, e fala energicamente. —Tu sabe… Então no brinque com fogo! Saiba que pode se queimar! No hajas como uma criança e después fuja apavorada! —Sua voz é um grunhido furioso que pode ser facilmente confundido com um ganido desolado.

 Ele se cala de repente e seu braços descem por meus braços, sem me tocar no entanto, ele me envolve em um abraço hesitante, receoso. Não me movo, atônita e apavorada. Enquanto estou presa no abraço desajeitado meus pensamento são um turbilhão. O espaço que nos separa é tênue, a espessura de uma navalha e não sinto seu corpo ao meu. Mas sua dor é tão latente que me sinto entorpecida por ela, atingida e tomada de forma visceral. Ou seria a minha própria dor?

—Ainda tenho uma pergunta… —Falo quando por fim ele deixa os braços caírem ao longo do corpo. Suspiro aliviada, olhando para cima, o rosto sério que me encara. Uma grande quantidade de cabelo na face, resisto o impulso a afastá-los, baixo a cabeça e fito o desenho perfeitamente quadrado do cavanhaque que está na altura de meus olhos.

—Qual? —A voz rouca dele sussurra.

—Por que eu?

 Santiago recua um passo e passa os dedos entre os cabelos tirando-os dos olhos, sorri me olhando de uma maneira sinistra. —Pregunto eso a mi mesmo todos los dias.”

       Capítulo 35 — Os polos, as extremidades do eixo 

. Los Angeles

๗BRUNO

 Elas está estranha.

 A Luz que emanava dela agora está ofuscada, ela já não sorri como antes, e não me refiro ao distorcer de lábios em uma careta, falo sobre ser feliz, ao menos alegre. Jasmin sofria e isso passou a refletir em mim.

12h30;

 Coloquei o celular de lado e trinquei o maxilar sendo consumido por sentimentos indigestos. Ciúme. Desconfiança. Raiva. Inquietação. Dúvida.

 Não consegui falar com Jasmin ante este turbilhão. Ainda não queria falar, não antes de refletir mais, porém para isso eu precisava investigar, ter certezas nas quais sustentar minhas contestações.

 Primeiro eu queria saber os fundamentos da presença de Michael no Rio de Janeiro. Depois se ele andava a ronda de Jasmin e nesse ponto eu chagava a questão; o que ela estava me escondendo?

 Longe como estava eu não podia fazer muita coisa, me sentia impotente. De repente, com esta ameaça inesperada me dou conta da distância entre ela e eu. Não consigo lembrar como tudo começou, e agora não consigo ver como mudar isso.

 Ela não tinha paciência, não sabia esperar, eu não disse que sempre voltaria para vê-la? Era impossível me compreender? Nós dois tivemos consciência dos riscos, das complicações quando assumimos o compromisso. Reclamar agora não fazia sentido, não adiantaria nada. Jasmin não falava, mas eu comecei, enfim, a perceber. Não via que era uma questão de tempo? Ela insistia em complicar as coisas, sensibilizando ainda mais os fatos, agindo pelo emocional extremo e… Não. Agora quem está fazendo isso sou eu. Não posso pensar assim. Bloqueio a visão por este ângulo distorcido. Tentado não deixar as impressões interferirem em minhas atitudes.

 Não posso culpá-la…

 Não disse o que realmente queria, e não contei minha suspeita sobre Salazar devolver na mesma moeda um lance passado. Era apenas uma hipótese, uma suspeita impossível de não considerar, outra possibilidade seria coincidência demais. Reprimi o espanto quando Jasmin me contou, contive a desconfiança — em relação a ele e não a ela. Porém mesmo não querendo acusa-lo, atitude que poderia fazer Jasmin me achar paranoico e chateá-la fazendo com que pensasse que não confio nela, eu não tinha dúvidas de que ele a queria. Não só por ele ter declarado, mas porque eu o conhecia o suficiente para saber.

 E porque agora ele está na mesma cidade que ela.

Na mesma cidade que ela na mesma cidade que ela na mesma cidade que ela na mesma cidade que ela na mesma cidade com ela

 Fecho a porta do banheiro e respiro fundo, balançando a cabeça, me esforçando para não dar vasão as imagens horríveis em minha mente. Esse pensamento martelava em minha cabeça. Eu não a tirava dos pensamentos, mas era tão fácil esquecer nosso amor com as pequenas coisas que fazemos no dia-a-dia… Uma simples ligação sem motivo, apenas para dizer as palavras Eu Amo Você.

 Eu a deixei…

 Eu a estava deixando…

 Deixando-a ir…

 Pensando só em mim.

 De qualquer forma eu teria que ir para conferir. Jasmin me ocultara uma vez, eu não duvido que esteja fazendo isso de novo, e não acredito que ele não a tenha procurado.

—Alo-ou? —Phil ergueu as sobrancelhas pondo o rosto, os óculos de armações enormes na minha cara.

—O quê? —Uni as sobrancelhas, estranhando o ambiente ao meu redor, com a percepção embaçada.

—Perguntei se você quer mais sintetizador. Uma batida… —O vi fazer um gesto imitando ondas com os braços e mudando o peso do corpo de uma perna para a outra. Não ouvia mais o que ele falava. Fiz que sim com a cabeça, as sobrancelhas unidas, que poderia passar por concentração, mas esta estava longe de estar voltada ao trabalho.

—Tá bom. Perfeito. —Disse indo pegar o celular sobre a mesa de mixagens, meus cigarros e jaqueta. —Depois… depois, eu tenho que ir. To indo agora… —E sai pela porta sem ver nada, desnorteado, apenas com o objetivo cego de chegar ao prédio da assessora de imprensa.

 Dirigi a 180 km/h pelas ruas de um milhão de luzes, segurando o volante com o cigarro entre os dedos.

 Procurei por Erin.

 Ela podia me ajudar, tem me auxiliado nos últimos meses com questões da internet, dando boas ideias para divulgação, ela poderia me ajudar com isso também.

 Quando chego no escritório da redação encontro a maioria das mesas vazias, as luminárias sobre elas apagadas. Em uma das últimas vejo a cabeça loura abaixada, Erin digitando ruidosamente.

 Com as mãos nos bolsos, não querendo atrapalhá-la, está visível que tem muito trabalho, mas não tenho a quem recorrer então percorro a distância até ela. Fiquei observando durante um tempo, mas como não se deu conta de minha chegada pigarrei para me anunciar.

 Erin girou na cadeira e me lançou um olhar surpreso. —Ah, oi. Bruno?

 Sorri e fiz um meneio de cabeça. —Oi, desculpe atrapalhar.

—Não, tudo bem. —Coloca uma mecha branca de cabelo atrás da orelha, as bochechas coradas. —Em que posso ajudar?

 Olho em seus olhos verdes oliva e expressão constantemente calma, quieta e me pergunto se não tem problema nenhum em que pensar. —Preciso que me ajude a encontrar um amigo.

 Ela franze a testa ligeiramente e sorri. —Como vou fazer isso? —Dá uma risada suave.

—Posso? —Pego no encosto almofadado de uma cadeira do escritório vizinho.

—Ah, claro. —Ergue as mãos entrelaçadas uma na outra e as pousa novamente no colo.

 Sentei, e estreitei os olhos para ela. —Vamos lá Erin, sei que pode me ajudar. —Sorri. —Eu sou péssimo nessas coisas, você sabe. Não tenho ideia de por onde procurar o cara. Nos conhecemos há pouco mais de um ano, em um trabalho e eu preciso entrar em contato com ele pro mesmo lance. É muito importante. —Me inclinei apoiando os cotovelos no joelhos, fixando o olhar nela obstinado em conseguir sua ajuda.

 Erin varre meu rosto com os olhos e sorri suavemente, de lábios fechados. —Claro, sente aqui. —Faz um gesto para eu me aproximar. Corro a cadeira para seu lado, ela finaliza uma frase numa página dum programa de TV e abre outra aba. —Vamos procurar nas redes sociais, é a primeira opção, todo mundo tem conta no Facebook e Twitter. Qual o nome dele?

 Hesito, mas digo Michael Salazar. Erin digita e pesquisa primeiro no Facebook, rodamos páginas e perfis, não encontramos nada nem perto dessa combinação de nomes. Já no Twitter há muitas fotos com seus créditos, a maioria de modelos e marcas famosas. Nada revelador, nenhuma informação útil.

—Ele é fotógrafo então? —Erin vira o rosto para o lado, para me olhar e percebemos o quão próximos estamos. Ela espera minha resposta, eu faço que sim com a cabeça. —Fica mais fácil assim… Você quer o contato, não é? Vamos no Google, quem sabe ele tem algum site para divulgar o trabalho, com telefone, e-mail… —E foi pro Google digitou o nome e a palavra fotógrafo. Uma rica lista de resultados apareceu com os nomes alternando entre Miguel Salazar e Michael Salazar.

—Esse parece o site oficial. —Aponto para a tela.

 Ever me sorri com doçura e concorda clicando no primeiro link, com o nome Miguel. Ali encontrei tudo o que precisava para obter informações satisfatórias. Uma galeria com vários álbuns de vários lugares do mundo, todos datados e legendados, dizendo onde ele esteve e quando esteve. O último álbum, de três meses atrás, tinha apenas duas fotografias; o letreiro hollywoodiano ao anoitecer em um ângulo pitoresco e outra de toda a cidade de Los Angeles vista de cima de um prédio em pleno dia de sol. De alguma forma o cara conseguira focar em uma mulher lá embaixo na rua, deixando tudo o mais na imagem embaçado e ainda assim em um contraste em que todo o cenário casava perfeitamente sem um ter mais apelo que o outro. A mulher trajava vermelho.

 —Procure o telefone… —Pedi ao passar os olhos rapidamente pelo álbum intitulado From Aloha.

 Erin anotou os telefones em um pedaço de papel e me entregou. —Ah, você não pode cuidar disso pra mim? —Pedi. — Não vou ter muito tempo e preciso pra logo, você pode ligar pra lá manhã? —Eu não podia ligar, precisava de um intermediário.

—Tá, eu te ligo assim que fizer então… —Apoia o cotovelo na mesa e pousa o queixo na mão, olhando pra mim com expressão carinhosa. Erin era muito quieta, tímida e agradável, sorri de volta agradecido por sua paciência e ajuda. —Aceita um café?

—Ah, sim. Por favor. —Tiro o boné, passo a mão no cabelo e ponho o boné de volta na cabeça.

—Com quanto de açúcar? —Se inclina na beirada da cadeira para pegar a garrafa de café na extremidade do balcão. Observo as pernas douradas pelo sol sustentarem o peso de seu corpo, a T-shirt azul-claro subir um pouco nas costas e a tatuagem despontando para fora da calça.

—Pronto… —Erin se vira de volta e me pega olhando para ela, sorri enrubescendo, mas dá de ombros.

—Valeu… —Peguei o copo descartável. —Tatuagem bonita.

—Valeu. —E beberica o café olhando em volta.

—É bem pequena…

—Uma joaninha – sorri colocando aquela mecha atrás da orelha outra vez.

Ficamos bebendo o café em silêncio, girando na cadeira com rodinhas nos pés. Erin usava um short bege e seu costumeiro All Star branco sem cadarços, olhava para mim com ar sereno e sem intenções, mas suas pernas bronzeadas refletiam a luminária e giravam para lá e para cá com a cadeira, o cabelo louro quase branco, os pelos da testa e sobrancelhas combinavam com as bochechas muito coradas e lábios rosa. Ela era linda e gostosa. Muito gostosa.

—Eu preciso ir… —Digo ao me por de pé. —Não quero te atrasar mais, deve ter muito trabalho ainda e já é tarde, não quero ser culpado por você sair daqui quase de manhã. —Joguei o copo descartável no lixo.

—Tudo bem, não se preocupe. —Pôs se de pé. —Afinal eu trabalho pra você.

 Sorri um pouco sem jeito. —Não é minha empregada, nem nada disso.

 Ela dá de ombros. —Eu já estava acabando quando chegou, só vou fechar os programas e posso ir embora, não precisa se torturar por culpa. —Sorri para mim. —Mas se for diminuir isso pode me dar uma carona até minha casa.

 Olho para ela sem saber o que dizer. —Ah… Tá, tudo bem.

—Não quis ser inconveniente, desculpe… —Sentou e virou para o computador, começando a finalizá-lo. —Eu chamo um taxi.

—Não, desculpe. —Me apresso a dizer, por mais que ela não tenha parecido chateada. —Não quis dizer isso, eu posso te levar, só estava distraído quando falou. —Sorri fazendo um gesto receptivo.

 Erin se virou para mim e sorriu. —Então podemos ir. —Pegou a mochila pendurada na cadeira e esbarrou de leve em meu ombro ao passar por mim.

 Sua casa fica na Broadway, perto de um cânion. Depois de alguns bairros e uma longa avenida praticamente deserta em Orange County.

—Você precisa de um carro. —Comentei ao parar em frente à casa de fachada amarela e varanda de madeira.

Erin riu. —Minha bicicleta está com o pneu dianteiro furado.

Arregalei os olhos e distorci as sobrancelhas dando uma risada em seguida.

—Não vejo motivo para troça.  —Olha para mim reprimindo riso.  Eu concordo com a cabeça. —Tá, você tem razão. É muito longe pra ir pedalando, mas é saldável! —Sorri levantando os ombros.

—Concordo, é muito saudável.

 Ela me olha de esguelha e desce do carro. —Obrigada pela carona. Amanhã faço a parada pra você e te ligo em seguida pra dizer o que consegui.

—Sem problemas. —Pisco um olho.

—Tá, —sorri. —Tchau.

—Tchau, Erin. Boa noite.

Me olha por um instante e se fasta do carro. —Boa noite.

A deixo entrar pelo portão e então dou a partida tendo a sensação de progresso, mas ansiedade também.

 Como o prometido, na manhã seguinte Erin me ligou. Descobri que Salazar veio aos Estados Unidos, exatamente a Los Angeles, antes de ir para o Brasil. Contatou a imprensa, editora de uma revista com a qual tinha serviços a quitar, recusou trabalhos aqui e aceitou uma proposta de uma marca europeia em parceria com empresas brasileiras. Um projeto grande de marketing e divulgação, o lançamento de uma nova linha de roupas e sei lá o que. Então ele realmente estava no Brasil a trabalho.

—E tem mais… —Disse Erin. —Tem umas fotos suas aqui… Com uma moça ruiva. As fotos são dele.

 Não me surpreendi nenhum pouco, mas flexionei o maxilar e murmurei qualquer coisa.

—Ele é seu amigo? Que vacilo te expor assim…

 Eu tinha que ser evasivo. —É. Faz parte do trabalho dele, e nem somos tão amigos assim. São apenas negócios.

—Entendi.

—Mais alguma coisa?

—Não, só o contato por telefone, anota aí.

Coloquei a chamada na viva voz e digitei o número que ela ditou com voz doce. —Pronto, salvo.

—Olha, não tem como falar diretamente com ele. Você tem que passar pela assistente dele primeiro. Parece que quando o Miguel está em um trabalho se foca integralmente, se isola do mundo, é difícil manter contato.

—Sei… E qual o nome da assistente dele? —Pergunto sabendo o que posso ouvir e a resposta é exatamente a que espero.

—O nome dela é Fabrícia.

Fabrícia

 Então Salazar a mantinha como sua assistente? E o que mais? Estariam juntos ainda? Ou novamente… Isso pouco me importava na verdade, porém era a base na qual eu podia começar. Se ele estava no Brasil a trabalho, próximo a Fabrícia eu devia dar de ombros, no entanto independentemente desses dois elementos serem verdadeiros, se ele estivesse atrás de Jasmin o quadro mudaria drasticamente de figura.

 A janela do estúdio era atravessada pelo raio de sol, apesar da fina chuva que caía, o contraste era suave e tranquilizador, acendi um cigarro para aproveitá-lo. Fitei o céu azul-claro manchado de nuvens, relaxando com a nicotina, desejando conseguir me concentrar e terminar aquela música.

 Sentado do outro lado da sala com os pés para cima e notebook no colo Phil me lançava olhares disfarçados em intervalos regulares, ficava me fitando e voltava ao trabalho sem dizer nada. Eu sabia que ele estava preocupado comigo. Meu comportamento desde que voltei do Brasil, há uma semana, tem sido mais inquieto e impaciente que o normal e também tenho falado pouco.

 Quero dizer que não há nada que ele possa fazer, para não esquentar comigo, mas não digo nada. Não consigo abrir o coração e expor o que me preocupa. Levanto do sofá e saio da sala, pegando o celular no bolso e dando o ultimo trago no Marlboro.

 Jasmin demorou a entender, quando atendeu desligou antes que eu pudesse falar qualquer coisa. Comprimi os lábios, inspirando ruidosamente, apertando os dedos em volta do celular o enfiei no bolso.

 O que ela está me escondendo?

 Que merda é essa, droga?!

 Ele está atrás dela. Jasmin não me contou tudo. Está me ocultando alguma coisa. Está sendo seduzida.

 Eu não queria pensar que era aquilo.

 Passei a tarde remoendo pensamentos intragáveis, pensamentos que eu gostaria de evitar, mas que não me deixavam em paz. Voltei ao estúdio depois do almoço e concentrei todos os meus sentidos no trabalho. Ali era seguro, sóbrio, distante de qualquer fantasma.

 Terminei aquela música e com Phil escrevi mais duas. Ouvimos R&B, Blues e Reggae raiz discutindo sobre a riqueza musical e coletando instrumentos com a essência do que estávamos fazendo. Durante todo o tempo senti o celular no bolsa da minha calça como se pesasse uma tonelada. Consegui me concentrar esquecer, mas não completamente. Jasmin não me retornou, agora ela que me ligasse.

 23h41

 Fui a um bar com Ryan, Phil voltou para casa com a mulher e filhos, Ari ainda estava no estúdio. Bebemos um pouco, Ryan foi para um lado, eu para outro. Meu celular tocou quando eu dava a partida no carro.

Atendei sem olhar. —Oi.

—Oi, Bruno é a Erin.

๗JASMIN

 Depois que Santiago foi embora, eu subi ao apartamento em torpor perturbado, fechei a porta atrás de mim e fui direto para a biblioteca. Acendi a luz e me joguei na cadeira perto da porta, respirando fundo repetidas vezes tentando clarear as ideias. O rosto de Santiago queimava em minha mente e sua voz ecoava clara aos meus ouvidos. Eu ainda podia sentir o hálito quente em meu rosto, ele me admoestando para não brincar com fogo. Para não brincar com ele.

 E uma observação não podia deixar de ser feita: ele nunca estivera fisicamente tão próximo de mim. Nem mesmo quando, sem saber que era ele, nós dançamos na festa de Amanda ou quando me segurou na saída do banheiro no casamento de Julia. Eu me lembrava dele ter abreviado o toque como se eu fosse uma brasa viva. Isso era estranho. Eu não conseguia entende-lo. Esta noite, porém, Santiago me apertara e sacudira fora de si. Isso em faz pensar em quanto ele tem se contido, se me quer tanto quanto diz essa atitude é perturbadora. Talvez ele perca o controle se deixar-se levar.

 Engulo em seco ao recordar seu olhar como espada de dois gumes, sabendo que sob a habitual despreocupação e cinismo há uma intensidade brutal.

 Entorpecida por tais pensamentos me vi assinando em meus novos livros e os arrumando nas prateleiras de acordo com gênero. Agora, apesar de sua intensidade ávida, a situação parecia menos apavorante. Eu não sei porque, mas simplesmente acredito que Santiago não mentiu quando disse como as coisas aconteceram. Os meios pelos quais conseguiu meus dados, como passou meses até a proposta de trabalho conveniente, aquela tarde na loja de minha mãe… Afinal ele não se isenta de outras culpas, não há sentido de meias verdades.

 Santiago não precisa disso.

 Porque ele é dissimulado sim, mas tanto quanto é descarado.

 Mas eu ainda sinto que ele me omite muitas coisas. Por detrás daquele olhar verde cristalino na verdade há águas turvas. Ele não tem medo, ao menos é isso o que parece por seu atrevimento inabalável, a não ser que essa seja exatamente a prova do contrário.

 Suspiro asperamente e apoio na cadeira de madeira esculpida para sentar no chão encarpetado. Me sinto girando no olho do furacão dessas águas nebulosas. Santiago é um mar revolto, oceano de incógnitas e mistérios. Caminhos perdidos são seus guias. Como uma onda tsunamica ele me arrasta para seu alvoroço. Eu bato os braços, desesperada, tentando emergir a cabeça para tomar fôlego. As ondas são estocadas impiedosas em meus pulmões. O murmúrio do vento tempestuoso diz que só poderei sair se me perder. Só poderei encontrar o caminho, a minha verdade quando duvidar de tudo em que acredito.

 Eu poderia mentir e omitir de qualquer um, menos de mim mesma. Eu estou me perdendo.

 As ondas veem e não sou capaz de nadar de volta.

 Santiago tem… Não. Ele é o que em arrasta para si, me atrai como se ele próprio fosse parte de mim, o enigma que eu nunca entendi… Mas eu não compreendo quem ele é, seus… sentimentos.

 E quanto a Bruno? Eu não chegaria a nenhuma nova conclusão. Continuamos suspensos no ar. Eu devia me sentir traindo-o… Eu vivo uma vida paralela. Desta aqui ele não faz parte. E várias mãos puxam o cordão de meu coração de gás.

 Lar de alicerces construídos por suas próprias mãos. Mobília gasta e decoração empoeirada, seu zelador não está. O jardim está sendo regado por outras mãos, as flores desabrocham sob um sol entre nuvens.

 Há coisas que não se pode evitar, e também o que não se pode fazer ser. Estou envolvida demais para negar, envolvida demais para recuar. Se é um paliativo, um desvio dos fantasmas do amanhã, se é engano, se é um erro. Eu insistirei porque sinto necessidade desse abismo. Isso é sádico, irracional. Um instinto primitivo e puramente intrínseco, humano.

 Nada além de respostas vagas.

 Eu ainda não estou pronta para entender. Eu ainda não tenho o suficiente para confiar.

Comentários, por favor. Precisosaber! ><’ #tensa

Texto postado em 27/02/2014 | 0 notes | Source | Reblog •

Capítulo 77 —Que questão realmente importava?

~No capítulo anterior…

 ”Deixo-o fazer aquilo porque me sinto segura, porque me sinto à vontade e protegida. Porque sinto meu ego preenchido e porque me sinto muito bem, embora totalmente perturbada mentalmente.

 Ele estava tão próximo, tão quente, ofegante. Pôs-me sobre a cama e se inclinou sobre mim, me beijando a barriga, segurando minha cintura, segurei seu rosto e o puxei para beijá-lo. Sinto sua boca quente, a intimidade que temos latente.

—Você sabe que estamos a um paço de… ­—Mordeu meu lábio e desceu por meu pescoço até a barra de minha cueca. —Eu quero entrar aqui… Só mais um gesto e…

Então sinto a punhalada em meu peito, uma dor lancinante e com um sobressalto soergo-me sobre os cotovelos. —Não posso. Victor pare.

E ele para.

—Você não é o único que pode perder o controle. —Digo com firmeza.

Victor soltou meu short e se afastou rapidamente, sentou na beira da cama levando as mãos à cabeça, as costas nuas viradas para mim. Meu coração amarrotou, senti o gosto metálico na boca e dos olhos saltaram lágrimas quentes e profundas, cheias de dor e confusão. Enxuguei o nariz com o dorso da mão e me arrastei na cama, sentei a seu lado.

—Victor… —Pus a mão em seu ombro, hesitante. O ouvi fungar, ele continuou imóvel, tenso. Pedi com voz trêmula:

 —Olhe pra mim, vai?

Quando vira o rosto para mim seus olhos estão injetados, ele mira nos meus com tristeza, perdido. Como eu. Recomeço a chorar e ele me toma os braços, me aperta forte contra si e chora também, baixinho.

 Entrego toda a minha dor a ele e recebo a sua, naquela noite turbulenta nos tornamos um.

—Eu te amo Jasmin… – Sussurra trêmulo em meu ouvido.

E eu caio no abismo de uma vez.

Agora estou perdida, definitivamente em um ponto sem retorno.

Nós dormimos na mesma cama, juntos, abraçados, mas unidos por tudo o que sentimos, buscando consolo um no outro, desnorteados, não fizemos sexo, não nos beijamos mais, seguramos nosso coração sangrando nas mãos.

Um ponto sem retorno.

"É preciso saber o que se quer."

Amanheci com uma obstinação: Eu não seria mais vítima. Minha mente engrenava insistentemente, eu precisava entender.”

Nota da autora

Vamos continuar agora? Vamos ter conhecimento de algumas coias que nos têm intrigado há capítulos? :D Eu pensei em ter narração do Peter também neste, porém vamos de um fato por vez! Este capítulo está longo! A sequência trará mais revelações, intrigas, ameaças, desconfiança, insegurança, contradição confronto e confissão! ;D

Vamos interagir, ao final comente aí! Gracias, chicas. :*

Capítulo 77 —Que questão realmente importava?

Quando você começar a ser sincera eu começo a falar. Porque tenho que ter certeza de que é a hora certa.

 Não dormi bem naquela noite. Quer dizer, praticamente não dormi. Afoguei-me na tristeza, na confusão de pensamentos e no turbilhão psicológico. Tive alguns apagões, mas longe de uma noite de sono.

Eu não sabia o que pensar.

Eu não sabia como agir.

E ainda sentia muita raiva de mim mesma por não conseguir lidar melhor com isso tudo.

Levantei muito antes do que de costume, cambaleei até a varanda levando a carteira de cigarros comigo. Sentindo um ímpeto incontrolável dentro de mim. Mas antes de agir eu precisava pensar um pouco. Tentar entender o que acontecera na noite anterior, algumas horas atrás na verdade. Convenci-me de que tanto Victor quanto eu estávamos vulneráveis, solitários e perdidos vimos a segurança e familiaridade um no outro. Um refúgio confiável. Certo. Estável. E toda a intimidade que compartilhamos há anos… Não passou de nada que já não tínhamos.

 Não foi nada.

 Nada que vá mudar alguma coisa.

 Baixei os olhos da lua cheia para dentro do quarto, ver Victor deitado em minha cama era estranho apesar de tudo. Dava a sensação de viver algo que já não existe mais, é descabido. Mas ao mesmo tempo em que penso isso percebo que temos tudo para ser um casal feliz e se não houvesse Peter talvez nós tivéssemos acabado juntos.

 Fecho os olhos, aperto-os tão forte que vejo chuviscos sob as pálpebras. Suspiro e solto um esgar farto ao abrir os olhos de repente. Dou um trago forte no cigarro e levanto sabendo que não posso me deixar levar, tenho que ser forte e manter a mente viva, como o MJ me ensinou.

Quando meus lábios tocaram os de Victor; Quando a imagem de Peter de materializou tão claramente; Quando admiti a possibilidade de relação tratável com Santiago e que havia algo nele que me atraia, amigavelmente: Eu soube que meus sentimentos estavam a prova.

 E isso me horrorizava porque até então tudo era absoluto. E agora meus sentidos me traíam.

 Ele também estava acordado. Victor também refletia inquieto em seu silêncio. Percebi isso quando entrei no quarto novamente e fui até o closet pegar roupas limpas. Ele sentou na beira do colchão e olhou para mim, eu dei um sorriso frágil, porém cheio de amor.

—Não demore muito, —disse ele. —Precisamos conversar antes de sair.

Concordei com um gesto e fechei a porta da suíte atrás de mim.

5h03; saio do quarto vestida para trabalhar, cabelo molhado, escova na mão e vou para a sala. Victor já está lá, banho tomado, arrumado e cheiroso terminando de dar o nó na gravata. Imagino o que ele vai dizer, mas apenas consigo temer a isso. Apesar de tudo Peter… Sinto um nós na garganta ao pensar isso, os olhos ardem e eu pestanejo para evitar que as lágrimas me assaltem. A verdade é que Bruno está distante. Ele volta às vezes, mas sempre vai embora de novo e de novo e isso machuca e fere. E meu coração só tem enfraquecido durante esse processo. Eu o entendo de todas as formas possíveis, sei que é seu sonho que ele constrói, sei que ele precisa do meu apoio e compreensão, mas isso não torna as coisas mais fáceis, menos dolorosas. Tenho sido bombardeada e de fato não posso contar com sua presença sólida, isso me entristece mais do que posso suportar. Porque não é nada disso. Egoísmo de minha parte, carência, saudade, é muito mais. Aos poucos tem abrido um precipício entre nós. E ele parece não ver. Seu mundo brilha demais e o ofusca. Será que ele não vê? Que eu preciso dele, que minha vida sem ele é nada mais que um projeto suspenso no ar, a espera, enquanto a dele é os alpes de Hoolywood… As pessoas perguntam eu digo que estou indo bem, mas motocicletas e com certeza a Torre Eiffel foram feitos para dois. Uma cama de casal nunca pareceu tão vazia. O que está faltando no mundo é ele. É como mergulhar em uma piscina sem água e rezar por chuva. Minha vida é uma boa vida de qualquer maneira. O que eu tenho dá pro gasto. Tudo o que temos são escolhas. E então deixo em suas mãos agora.

 Atraída pelo luar ergo os olhos ao céu, não me dando conta da aproximação de Victor e tento mandar uma mensagem telepática.

Você consegue me escutar? Estou falando com você… Do outro lado da água, do outro lado do profundo oceano azul. Sobre o céu aberto, oh nossa! Meu bem estou tentando! Querido eu te escutava, em meus sonhos… Sentia o seu sussurro do outro lado do mar. Te guardo comigo em meu coração, você tornava as coisas fáceis quando a vida ficava difícil, mas agora você também me machuca.

Não sabem como demora esperar por um amor como esse. Toda vez que dizemos adeus queria que nos beijássemos novamente. Eu acordava todos os dias por um único motivo; aquele dia poderia ser o dia em que ele voltaria para mim. E assim eu sobrevivia, nessa vaga esperança, nesse meio tempo… Só temia não resistir até que esse dia chegasse. 

—Nunca aconteceu antes… —A voz grave de Victor soou hesitante ao meu lado. Soergui-me dos quilômetros de tristeza abaixo do solo, voltando ao momento em questão, que tinha muito a ver com tudo na verdade. Virei o rosto para meu amigo sem dizer nada ou aparentar que diria. —Esse silêncio entre nós.

—É porque nunca aconteceu algo como isso antes — baixo os olhos passando a escova em meus cabelos.

—Não quero que me interprete errado, não fiz nada premeditado. —Sinto seu olhar em meu rosto, mas não o encaro logo. Repasso tudo o que aconteceu em minha mente, mesmo sem querer.

—Eu sei que não. —Levanto o rosto sentindo o peso em minha alma cai a meus pés, os ombros leves. —Não o culpo por nada. Nós temos uma ligação muito grande, sempre tivemos. —Dou de ombros. —Estávamos tão próximos, não podemos nos condenar pela nossa fraqueza humana. Vamos pensar como um consolo mútuo, certo? — Proponho sem saber se mais para mim que para ele e me esqueço de acrescentar que não pode se tornar uma rotina, esse tipo de consolo.

Victor absorve consternado por um instante e enfim nós olhamos nos olhos um do outro. —Bebemos um pouco demais, não? —Sorriu com ar arrependido.

Mas o ímpeto que arde em meu peito é como um letreiro em neon. Então digo:

—Você tentou me provar que não é impossível resistir quando se já está envolvido? —Aperto os olhos pensando em Santiago, na sensação estranha que ele me causa, mas logo esmoreço ao ver Victor desviar o olhar e perder as palavras. De repente desesperada ao lembrar de sua declaração de amor, já não sabendo se era o “Eu te amo” de amigos que sempre trocamos ou tinha um que a mais.

—Foi o que eu fiz, não é? —Ergue as sobrancelhas dando um meio sorriso.

Afirmo com um meneio de cabeça tarde demais, os pensamentos acelerados, vendo que não vou responder Victor já se perdera em pensamentos virando para o outro lado enquanto eu sigo penteando o cabelo distraída. Eu tinha muitas contas a acertar, precisava entender muitas coisas antes de partir.

 Sim, antes de ir embora para Los Angeles.

 Era isso que eu queria, era a solução para tudo. Ei iria à Los Angeles e contaria tudo a Peter, todos os meus medos, a falta que ele me fazia e minha incapacidade de continuar no meio termo. Era tudo ou nada. Ele precisava decidir. Poderia ficar até surpreso, mas então eu estaria sendo sincera com ele, ao menos saberíamos logo com o que estávamos lidando, ele saberia. Talvez tivesse chegado a hora de tomar uma decisão, de escolher um caminho.

Porque eu não confio mais em mim mesma.

Porque posso sentir o gosto do desiquilíbrio em minha boca.

Porque eu não posso fazer do amor que sinto por Peter algo desonesto.

 “É preciso saber o que se quer”, dissera Santiago.

 Mas antes de mais nada, eu não conseguiria desistir de entende-lo. Eu precisava saber. Porque tudo relacionado a Santiago é um desafio, e não vou deixa-lo ganhar, de jeito nenhum.

—…seria mais fácil. —Victor murmura olhando para mim de soslaio, franzo a testa.

—O quê?

—Não vai me dizer em que está pensando? —Repete a indagação um tantinho impaciente.

Balanço a cabeça. —Garanto que está tudo… —Faço uma pausa sabendo que bem não é o termo correto. —Sob controle.

Ele assente, mas hesita ao levantar a mão para pegar em meu queixo. De repente sinto vontade de não querer vê-lo por um tempo, sabendo que a uma sensibilidade tênue entre nós e que o ocorrido da noite passada torna qualquer confissão agora inadequada e perigosa.

—Eu sabia que você estava confusa demais, não devia ter me deixado levar e estou me sentindo horrível agora, Ariel, me perdoe por confundi-la ainda mais. Eu não queira. —Passa as pontas dos dedos nas mechas de meu cabelo.

 Eu realmente estou confusa demais e até meia hora atrás eu achava que ele somado a minha quota, porém Victor me ajudou a perceber. Só que eu ainda não admitiria, não até pôr a prova.

—Victor, —decidi ser sincera e direta. Ao menos em alguma coisa. Ou pelo menos a primeira atitude firme de outras que viriam. —Você estava sob o efeito do álcool e tudo o mais ou seu sentimento por mim ainda tem nuances do que foi um dia? —Comprimo os lábios esperando a resposta e quando a recebo não sei como interpretá-la.

 Victor; meu primeiro namorado; primeiro amor que não foi aquele tipo de amor, mas um amor juvenil e pueril, no entanto tão forte quanto qualquer tipo de amor; meu amigo; irmão olhou em meus olhos com um sorriso despreocupado e disse dando de ombros; “O que sinto por você nunca mudou. Eu te amo, te amo demais” e fitou-me um instante e como não respondi se afastou. O observei vestir o paletó, pegar a pasta no sofá e acenar ao sair. Seu ar era mais de amigo que de amante, então de início julguei estar tudo bem, dei de ombros e sorri por ainda ter meu amigo e a coragem que me faltava regenerada. Porque hoje eu tinha um objetivo, eu arrancaria tudo o que pudesse de Santiago.

 A manhã foi ótima. Eu amava mesmo meu trabalho. E me deliciava ao reconhecer os distúrbios psicológicos que estudava em mim mesma. Era estimulante, interessantíssimo! Eu era meu próprio objeto de análise. Pode parecer insano e esquisito, mas apesar de realmente ser não era algo propriamente ruim. Porque é fascinante! A mente humana é fascinante. Embora eu estivesse em um turbilhão havia beleza nisso.

 Paro de repente perco os olhos no vazio. Me sentindo oca, sinto o agridoce de tudo isso.

 Mas ainda preciso continuar, porque minha família precisa de mim. Tenho que adiar tudo isso porque o vovô está perto da morte. Meu cérebro ainda não funciona bem, não consigo pensar com a clareza que desejo. Apesar de doer muito e não dizer isso em voz alta, porque dói mais o que eu possa suportar, o vovô corre sérios riscos de vida. Ele pode morrer facilmente se não se cuidar. E isso é o suficiente para me fazer perder as linhas de pensamento, o fio da meada, o chão, as forças e até a fé.

Nunca lidei racionalmente com a perda.

Porque nunca perdi ninguém antes.

Porque sempre fui embora antes de ser deixada.

Como quando preferi voltar para Brasil a ver Peter ir embora de volta a Nova York, como fui para o Hawai’i antes de meus pais viajarem ao Caribe, como sempre sai dos relacionamentos antes de eu ser a vítima.

Então eu não saberia como lidar com a perda de alguém que amo tanto quanto o vovô, ou meus pais. Por isso eu lidava tão mal e arrasadoramente com as despedidas repetitivas de Peter.

 Á tarde fui à casa do vô Antony. Aparentemente ele estava bem; animado, despreocupado, disposto. Jogando cartas com os amigos surfistas, jovens e velhos, gringos e nacionais. O vô olhou de rabo de olho para eles, uma repreensão aos ares que lançavam a mim.

—Só vim entregar essa agenda —falei com tom que mantinha a conversa entre nós. — São os horários das consultas que marquei, endereço, telefone. Só pra você ficar sabendo, porque em todas você irá acompanhado por um de nós.

—Hmm, querem se certificar, né? — Pegou a folha impressa da minha mão, deu uma olhada rápida e colocou embaixo da mesa de xadrez. —Tá beleza, Ariel. Valeu, filha. — Com tristeza e preocupação omitidas o observei sorrir, não sabendo se o vô Antony dava de ombros realmente ou não queria nos preocupar, mascarando os sentimentos, como eu mesma estava fazendo. Ele ergueu a mão ao topo de minha cabeça e espanou meu cabelo. Esse gesto sempre me irritou, desde menina, porém desta vez não reclamei.

—Então tá… —Sorri um pouco, mas expressando o meu cuidado com ele, vacilando, deixando meu olhar decair com pesar. O medo de perde-lo estava estampado em meus olhos, vi o reflexo através dos seus. Me incline para beijá-lo. —Aloha, vô…

 Ao relento, caminhei pela praia, mente e mãos no fundo dos bolsos. Eu procurava por um sopro de vida. Por um pequeno toque de luz celestial. Mas todos os coros da minha cabeça cantavam “não”. Andei por quarteirões, entrei em lojas, perfumarias, livrarias, e tudo o que eu via eram os pensamentos, os arrebatamentos. Cenas concretas e possibilidades que me assaltavam a cada instante.

 Escurecia vagarosamente, o dia fora nublado. Sentei no cantinho da calçada da livraria, meus três novos livros contra o peito, os olhos sem foco erguidos ao céu cinzento. Um sussurro soa, uma palavra impressa, sóbria, lisa, solitária.

Peter…

 O sangramento não parava.

 Peguei o celular no bolso e liguei para ele, um ímpeto feliz, maluco.

—Oi amor! —Sorri débil quando Peter atendeu.

—Oi.

Recuei, pestanejando tonta e disse;

—Han… Estava imaginando o que você pode estar fazendo aí.

—Trabalhando, só. E você? —Exatamente assim. Neutro. Sem emoção alguma na voz, aliás, seu tom era entediado. Feriu meu coração ouvi-lo falar assim comigo (além de tudo), mas fingi não ouvir. Eu não sabia o que estava acontecendo, decidi não levar para o lado pessoal. Esperançosa.

—Saí depois do almoço. —Dei de ombros. E me senti bem oca em seguida. —Está tudo bem?

—Sim. Está sim, só muito trabalho.

Desmoronando por dentro, eu já não queria falar nada com ele. Sua frieza e falta de interesse mataram toda a vontade, qualquer esperança de que eu pudesse sorrir um pouco com aquele telefone. O que estava acontecendo? Quis perguntar isso, mas não consegui. Quis conversar com ele sobre tudo o que eu sentia e o que estava acontecendo, mas não fiz. Não tive coragem.

—Olha, eu tenho que desligar agora. Depois a gente se fala.

—Pet… —Minhas voz rouca morreu sem terminar seu nome. Ele já havia desligado. Me deixando completamente sem entender nada.

 Mordi o lábio inferior, a alma trêmula. Vaguei os olhos ao redor, com visão turva e mente entorpecida.

Os minutos passaram.

Quando a tontura amenizou me pus de pé, sentindo a repentina força da raiva. Eu estava condenada se eu fizesse e condenada se não fizesse. Então, estou aqui para brindar no escuro! Ao final da minha estrada. Pronta para sofrer, pronta para ter esperança. É um tiro no escuro mirando direto na minha garganta, pois buscando pelo paraíso, encontrei o demônio em mim. Bem, que se dane. Vou deixar acontecer comigo… Instintivamente, intencionalmente, inconsequente ou não eu voltei ao bar da noite passada. Sentei a uma mesa dos fundos.

 Pus o trio de livros no tampo de madeira e comecei a folhear o primeiro. Instantes depois a garçonete me abordou, sem despertar totalmente do torpor eu pedi um vinho tinto. Depois de ler as capas, contracapas, abas e sinopses dos livros comecei a ler o primeiro capítulo dum deles, sorvendo de minha taça. O tempo passou, eu não tinha total consciência, não admitia, embora soubesse que esperava encontrar Santiago naquele lugar.

 Não me decepcionei.

 A altura do décimo capítulo ergui a cabeça e olhei ao redor, talvez pressentindo sua presença, vaguei pelo salão cheio de colunas de madeira até vê-lo. Ele trajava uma camisa preta de tecido translúcido com mangas compridas, o cabelo negro solto aos ombros, uma mecha atrás da orelha deixando seu perfil altivo, pelo qual o reconheci, a mostra. Senti meus olhos arregalarem, mordi o lábio de nervoso e rapidamente baixei a cabeça de volta ao livro. Os pensamentos muito acelerados.

 Levantei a cabeça de novo para olhá-lo com mais calma. Santiago estava acompanhado de uma mulher, uma bronzeada de cabelos cacheados volumosos e negros. Pensei em ir embora. Em continuar ali, lendo meu livro. Pensei em ir ao banheiro ou pedir outra dose de bebida. Chamei a garçonete.

—Me faz um favor?

 Ela se prontificou com um sorriso, pedi sua caneta emprestada e seu bloquinho de anotações. Escrevi “Olhe para trás” e destaquei a pequena folha.

—Está vendo aquele homem lá no balcão? — indiquei com o queixo. —Vestindo camisa preta, cabelo comprido.

—Aham, quer que eu entregue a ele? —A moça de pele negra e sorriso bonito me olhou com ar jovial e cumplice. Não foi preciso comentários de sua parte para saber que ela adoraria provocar a morena que acompanhava Santiago e toparia o jogo.

—É. E também uma taça de vinho… Você tem Corcel Del Puerto?

 Não olhei para ver a entrega nem a reação dele. Esperei lendo sem absorver as páginas do romance policial. Dois capítulos depois vi suas pernas se aproximarem, as botas de motoqueiro pararem próximo as cadeiras a minha frente.

 Levantei o rosto.

 Seu olhos verdes duros olham diretamente dentro dos meus de uma forma tão sagaz, tão pessoal, tão entretida, que meu primeiro instinto é recuar, fugir.

 Mas não fujo.

 Porque tudo relacionado a ele parece ser um desafio, e não vou deixa-lo ganhar, de jeito nenhum.

 Para superar um obstáculo, é preciso entendê-lo. Santiago não partiria antes de me esclarecer tudo, não sairia em pune após bagunçar minha mente daquele jeito.

—Sente. —Fechei o livro e pousei as mãos no colo em baixo da mesa.

Quantas vezes respirei fundo e continuei seguindo em frente, esperando que ele se cansasse desse joguinho, que se cansasse de mim, que fosse embora.

—Por favor, sente. —Peço cansada, tão triste e dolorida que mal posso suportar.

 Santiago ainda me foca um olhar tão insistente e resoluto que parece que não vou conseguir nada. —Quando tu queres? —Dá um sorriso irônico, os braços cruzados em uma postura fechada, embora puxe uma cadeira e sente a minha frente instantes depois. —Como está su avô?

—Como sabe disso?

Santiago dá de ombros. —Ele é un cara canecido no bairro. —Recostando-se no encosto da cadeira.

Não respondo. Fico extremamente quieta, taciturna e perfeitamente imóvel.

—Se quiser arrancar alguna cosa de mi precisa mudar de tática. —Estreita o olhar profundo, cheio de intenções desconhecidas. Quando usted começar a ser sincera yo começo a fallar. Porque tengo que ter certeza de que é a hora certa.

—Hora certa pra quê?

—Para yo falar.

 Ergo as sobrancelhas em um expressão vaga e em seguida reviro os olhos.

—Entendi.

 E me calo, dando tempo, na verdade, de tomar coragem e agir com a ousadia que pretendo. Procurando um meio de começar com aquilo. Mas percebendo minha inquietação e parecendo saber exatamente o que se passava em minha mente Santiago se inclinou sobre a mesa e disse com uma piscadela;

—Pronta?

—Comece dizendo como chegou aqui. —Faço um gesto rígido com o queixo. A primeira questão era bem fácil na verdade. Esse era o ponto de partida. Okay… Suspiro intimamente.

—Va ser sincera comigo cuando chegar la minha vez? —As pestanas negras e pesadas piscam lentamente dando a impressão que os olhos de vidro refletiam luz.

Dou de ombros. —Que seja.

—Claro. —Recostou no encosto da cadeira novamente, pensativo, mas com um esboço de sorriso nos lábios.

—Comece dizendo como chegou aqui. —Repito inflexível. Ele devia essa resposta a mim e eu a Peter.

—Claro. Como yo soube donde te encontrar, usted qué dicer? —Não digo nada, ele continua. —Conozco la Ashley a mucho tiempo.

 Não sei como o fato dele conhecer essa mulher possa ter alguma coisa a ver. —Quem é Ashley? —Indago decidida a não tolerar mais respostas vagas.

—El recepcionista del hotel. —Faz um gesto com a mão. —Solo precisei hacer algunos elogios, llevar una casquinha de sorvete y pronto: consegui coletar sus dados acessando los registros de hospedagem. —Fala como se fosse algo banal se infiltrar em dados confidenciais e encalçar pessoas. Alguém disposto a manobrar como for para conseguir o que quer. Eu devia admitir que ele era um cara obstinado. No entanto, para falar a verdade eu esperava mais. Talvez escutas telefônicas, pesquisas além da recepção do hotel… Quem sabe até algum tipo de feitiço? Ser leviano com uma funcionária descuidada na verdade é bem a cara dele.

—Só isso?

Santiago riu. —Por quê? Acha que sou adivinha ou o que?

—Pensei e ainda acho que você é um maníaco.

—Não, eu não sou.

—Tá. E em relação a minha casa? Ao trabalho com a agência de modelos onde meus amigos trabalham? —Puxei o ar para dentro dos pulmões com dificuldade. Não acreditando que finalmente Santiago estava pondo as cartas sobre a mesa e muito menos que eu estava também disposta a isso. No entanto a noite não teria o desfecho que eu imaginava: com todos os seus segredos revelados, minhas confusões esclarecidas. Ao contrário. Santiago tinha um alto controle absurdo quando se tratava dele, de falar a seu respeito, mas esse quadro mudava quando ele queria satisfazer as próprias teorias e curiosidades, o que logo adiante veremos. E eu… Eu era uma lata de refrigerante. Fui sacudida para todos os lados e agora estava a ponto de explodir. Decidi deixar para pensar depois, não podia parar agora, depois eu analisaria as informações colhidas.

—Todo estaba en sus registros: nacionalidad, teléfono… —Continuaria apensar de meu olhar cético, mas o interrompi.

—Não estava. Não tudo. —O encaro com expressão o mais dura possível. —Não tinha meu endereço, estado, cidade, condomínio, número de apartamento nem nada disso. Quanto menos o endereço da agência de modelos.

 Santiago sorri torto erguendo as sobrancelhas e fica sério em seguida. —Espere que yo termine… En esta parte no tengo nada a ver. No saí atrás de ti se es lo que piensa. —Gesticula com os dedos na minha direção e uni as sobrancelhas. — Mira, estoy siendo honesto con usted, enton leve en serio lo que estoy hablando. Fui donde el viento me llevó, después del Hawai’i, me rodei por aí até que recibí la oferta de trabajo de la empresa en relación con unas campañas de marca europeas, correcto? Cuando yo soube que era aquí simplemente aceite. Sin pensarlo duas veces. Obra del destino. Yo tenía un ótimo presentimiento. Y como se puede ver estaba cierto. —Seu tom era baixo, mas claro, direcionado somente a mim, em um ritmo quase cantado. Ele expandiu as bochechas salientando ainda mais os ossos molares e as maçãs do rosto, mas seu ar altivo e arrogante era sombreado daquela tristeza profunda que da qual eu tivera conhecimento dias atrás. 

 Mantive os olhos fixo em seu rosto, absorvendo as informações processando sem pressa e decidindo se acreditava ou não em suas palavras. —Meio caminho andado: no meu país, minha cidade. Daí você me viu naquela noite com o Michael e nos seguiu? Investigou e descobriu todo o resto?

—No. —Inclina-se sobre a mesa outra vez. —Já disse que no a segui, yo vim até usted. Es diferente.

 E depois de uma pausa diz dando de ombros. — Yo já había te visto antes dese día.

 Faço um gesto positivo com a cabeça, tentando fingir uma expressão de leveza, não querendo que ele perceba como sua declaração me deixou totalmente apavorada.

—Onde? Quando? —digo, deixando as palavras saírem de minha boca antes que eu possa impedi-las, sabendo que responder dessa forma vai apenas demostrar fraqueza e vulnerabilidade, descontrole.

—Algunas semanas antes, talvez duas. —Dá de ombros. —Caminando por la playa con su familia, era de mañana.

—Não te vi, onde estava?

—Usted me viu, pero no reconoce. Esa no fue la primeira vez, na verdad. —Ergue o dedo chamando a garçonete, pede uma garrafa de vinho e prossegue. —No recordas miesmo? Usted me vendeu dois copos de Mate em la loja de su madre. —Sorri presunçoso.

 Varri a memória em busca desse acontecimento e pestanejei ao recordar por fim. Sim, eu me lembrava. O tal Office Boy. —Era você. Meu Deus. Você se infiltrou. Enganou minha mãe. Por que tão calculista? —Proferi a última palavra com bastante ênfase.

—Eu não enganei a Pamela. —Negou categórico falando em português claro, no mesmo tom despreocupado. Eu estava tão aturdida que demorei a captar o fato dele ter chamado minha mãe pelo nome. —Ela me viu chegar de moto, eu trazia foto recém-reveladas em um envelope e Office Boy foi o que ela presumiu que eu era.

—E seu nome? Minha mãe te chamou de outro nome!

—Daniel. Ela me chamou de Daniel. —Meneou a cabeça em agradecimento para a garçonete e serviu duas taças. —Foi o nome que me veio à cabeça.

 Haviam tantas coisas a serem ditas, tantas perguntas a serem feitas que eu tinha medo de deixar escapar uma sequer. Fechei os olhos por um instante pondo os pensamentos em linha, traçando um pequeno roteiro. Por um prófugo momento me veio à mente a conversa por telefone com Peter há pouco e em seguida Victor, reflexões que me causaram uma pontada de dor imediata, mas as empurrei rapidamente para o canto, não queria pensar nisso agora.

 Não podia perder o foco.

—Como sabe o nome da minha mãe? Sai por aí dando o nome que vem à cabeça a si mesmo? Qual e o seu nome? Nesta tarde, na loja, foi a primeira vez que me viu? De verdade. —Abro os olhos de vagar, vendo uma taça de vinho a minha frente, inspirando pesadamente, colocando as questões a mesa ressaltando cada uma delas.

—Beba. –Santiago ergue a própria taça antes de sorvê-la. —Yo no sabia. Que Pamela é su madre. Ella é una mujer simpática, conversa con los clientes, assim soube su nombre. Então quanto ella ser su madre, quando entrei no recinto pela segunda ou terceira vez vi su cabelo vérmelo atrás del balcão y mal pude acreditar! —Ergue as sobrancelhas, os olhos se perdem em lembranças por um instante antes de focar em mim de novo, cheios de um brilho desconhecido. —Era mesmo usted! E antes que pergunte, porque yp se lo que vás perguntar a seguir, a partir de então yo frequentei alguns lugares nas redondezas, sabia que estaba perto de ti. A vi in la playa de nuevo, a segui ao condomínio nesse dia, e não quando ustede fue buscar su amigo Michael. Esperei lo momento cierto para me revelar y aqui estamos. —Faz um gesto insinuativo erguendo o queixo em minha direção, claramente dando o interrogatório por encerrado.

 Peguei a taça de vinho destinada a mim e beberiquei, aturdida com as revelações, decidida a não me conformar com aquele pouco, eu ainda estava longe de acabar, embora precise dar mais um bom gole de vinho para processar tudo. Porém eu não conseguia meditar, não com ele me observando daquele jeito dele. Eu analisaria tudo depois, por todos os ângulos, desde racionais, psicológicos e emocionais. Por agora, eu realmente não sabia o que pensar, como interpretar.

—Sei que pareço excêntrico. —diz ele, — então por que não partimos para a questão que realmente importa?

—Que questão? —Pestanejo.

Os olhos dele ficam mais intensos ainda. —Usted. O que está pensando?

Demorei a responder.

—Eu não sei. —Digo, —Estou confusa, não consigo pensar direito.

—Entendo. Sem mais perguntas, creo que ahora puedo matar minhas curiosidades también, en? —Concertou a postura para apoiar os cotovelos sobre a mesa e correr a mão pelo tampo em direção a minha.

—Nem pense nisso. —Advirto.

—Usted e yo já estivemos más próximos que eso. —Dá de ombros, mas recolhe a mão. —Quem é aquele cara que estaba con usted ontem?

Respondo secamente sabendo que irá provoca-lo. —Victor.

Santiago revira os olhos e bufa. —Yo me recordo dele ter dito el nombre. Quero saber lo que ele representa para usted. —Se inclina a mim com o ar de súplica nos olhos, eu fico sem ar por tal intensidade.

—Não te devo… —Interrompo a frase, recordando-me de que ali estávamos pondo as cartas sobre a mesa. Não posso relutar mais. Se não nunca passaremos disso, desse joguinho cansativo e confuso. —Victor é meu amigo.

Santiago distorceu o rosto em uma careta de repudio. —Ele dormiu no seu apartamento. —Trincou os dentes. —Você está traindo… Ele? —Fez uma careta, mas eu entendi que se referia a Bruno.

—Como sabe que ele foi pra minha casa? — Esquivei-me de tabela.

—Yo fiquei no carro esperando e daí? Responda. Temos que ser justos.

 Pensei em Victor, as lembranças passando como flashes sob minhas pálpebras. Eu já estava me esquecendo. Não aconteceu nada que pudesse mudar alguma coisa, e não voltaria a ocorrer semelhante.

Respondi sem encará-lo. —Ele foi meu primeiro namorado. Há muito tempo.

—Sei.

 Eu sabia bem o que aquele olhar ocultava, Santiago fechou a cara entendendo o que quis dizer com primeiro num sentido geral, ele era bastante malicioso para isso.

—Olha só, você pode cortando esse tonzinho de ciúmes que você não tem direito algum! —Bati a mão na mesa. —Pergunte sem gracinhas!

—Calminha…

—Estou calma!

—Ah-ah… Tá cariño. – Deu uma piscadela.

—Não me chame assim.

—Você nunca reclamou.

—Estou reclamando agora. Pare com isso.

Santiago comprimi os lábios em uma linha rígida, ofendido. —Por que veio aqui esta noite?

—Vim… Pesando em falar com você. —Sou sincera, apenas falo.

—Para?

—Não sei bem. —Fecho o sobrolho.

Ele tenta disfarçar um sorriso de contentamento com um ar presunçoso, mas eu vejo.

—Sentiu ciúmes quando me viu com aquele morena? —Alternando entre o espanhol, portunhol e português abre um sorriso obsceno.

—O quê? —Dou uma risada histérica.

Ele estreita os olhos. —Sentiu…

—E você fingiu que não me viu, a chamou para tentar me provocar?

—Eu não. —Franze a testa negando com a cabeça. —Ela veio falar comigo. Eu só queria beber um pouco mesmo.

Não respondi.

—Mas diga. Sentiu ciúme?

—Não! Não. Pelo amor de Deus.

—Calminha… Não estou chateado, todo bem.

—Oh…

Santiago deu uma risada, divertido. Aquela risada. —Bueno… Quais são los libros que tienes haí?

—Hm? —Uni as sobrancelhas. —Não fuja do assunto.

—No estipulamos los géneros de las preguntas. Puedo cuestionar-te lo que yo quise.

—Não é bem assim.

—Claro que é. —Insiste reprimindo um sorriso.

—A Queda de Lúcifer. Chuva de Outono. Flamenco. —Expus os livros sobre a mesa.

—Títulos interessantes. Aposto que lhe yo influencie na escolha do Flamenco… – Sussurra a palavra como se fosse algo obsceno. —Quais géneros?

Ignoro seu comentário sórdido. —Romance. Policial. Romance biográfico.

—Estás aborrecida? —Inclina a cabeça de lado, pendendo para o ombro direito.

Neguei com um gesto mínimo de cabeça. Fixando o olhar em seu rosto. E em seguida; —Droga! —Levo as mãos ao rosto. —Isso é tão absurdo…

—Concordo com usted. La ideia era que fossemos diretos y no estamos haciendo eso.

—Usted… Você é que está desviando o curso!

—Yo disse lo que tu querias saber!

—Mas fica enrolando! Não diz o que realmente quer falar! —Aponto o indicador para ele. — Eu expus o que me intrigava, mas você não! Respondeu ás minhas perguntas, mas tudo o que me oferece são informações secas, frias!

O observei se contrair novamente, comprimindo os lábios disse em tom baixo e mais rouco que o habitual;

—Você não disse o que eu quero saber.

—Por que é que não pergunta então?

—Porque ainda é cedo demais. —Levanta os olhos da mesa para mim, as pestanas pesadas, os olhos de vidro emoldurados pelas grossas sobrancelhas negras me atravessando, não havia para onde fugir. —Todo a su tempo. Creo que já puedes ir para casa satisfeita com as respostas que te de por hoy.

—Rá! Vou embora mesmo! —Ponho-me de pé de um salto.

 Empilhei meu livros, cruzei a bolsinha de couro preto nos ombros e virei em direção aporta.

—Pode ir. —Sorriu ele recostando na cadeira e cruzando os braços.

—Eu vou. —Falei e fui. Venci a distância entre as mesas até a saída, ignorando a garçonete que esperava que eu trocasse um olhar significativo com ela e a morena ofendida da qual ele estava acompanhado antes.

 Saí em disparada, a passos largos pela calçada escura. Tudo estava quieto demais. Puxei o celular do jeans e conferi a hora; 23h07. Como o tempo passou voando? Percorri o primeiro quarteirão e virei a esquina escura. Olhando ao redor, enérgica, preocupada com os marginais, ou tarados, apertando o passos cada vez mais, segurando a bolsa embaixo do braço e os livros junto ao corpo sabendo do perigo das ruas cariocas.

 Logo a frente tinham dois homens, mas eu só os vi quando já estava próximo demais, recuar só aumentaria o interesse, os fariam me seguir. Continuei andando, cabeça erguida, foco a frente. Atravessei a rua para evitar os homens mal vestidos, eles me seguiam com o olhar, apesar de parecerem se afastar virando a esquina a diante. Beirando ao impulso de correr comecei a montar cenas de possíveis investidas e reações. Eu daria um soco na cara dele, e se outro tentasse me segurar eu o chutaria mirando nas bolas, barriga, peito, cabeça, gritaria e me soltaria, daria uma livrada na cara dele e sairia correndo.

 E tão logo aconteceu.

 Um deles de repente se materializou ao meu lado e passou a acompanhar meu andar. Senti o cheiro se suor e sujeira e me afastei, quase correndo, me esquivando para o lado oposto conseguindo ultrapassá-lo. Ouvi então um assovio insistente vindo de trás repetidas vezes.

—JASMIN! —Berrou impaciente.

Virei o rosto de chofre, mas continuei andando desengonçadamente rápido.

Um farol. Santiago. Dirigindo a Harley Davidson pela avenida sinistra. Silencioso, ele observava a cena, de repente acelerou com um rugido estrondoso avançando para cima dos viciados mendigos e parou ao meu lado.

—Sobe.

Obedeci sem pensar e lhe soquei o braço. —Idiota!!

—Ei, se quiseres te deixo aquí! —E se voltou para o andarilho. —Oh, cara!!

Segui seu olhar. Um mendigo avançava contra a moto com um pedregulho enquanto outro vinha de mão vazia mesmo.

—Acelera essa moto!

—Haha! Ui! Su pedido és… —Sua voz foi abafada pelo motor ensurdecedor. Agarrei sua camisa para não cair, porém mais preocupada em não deixar meu livros caírem. Mas um deles caiu. Voou sendo esfolado pelo asfalto.

—Para! Para, para! —Estapeei o ombro de Santiago.

—O que é? Tá com medo?

—Meu livro! Meu livro caiu!

—Ah, já era!

—Santiago, para a moto! Meu livro!

 Ele diminuiu a velocidade de má vontade, fez a curva e regrediu pela avenida, os mendigos se aproximando outra vez. Assim que a moto parou alguns metros longe deles eu saltei e fui em direção ao farrapo de papel.

—Não… A Chuva de Outono… —Choraminguei. —Não acredito…

 Peguei na ponta dos dedos e ergui para examinar o estrago. Metade das folhas estavam rasgadas, a capa moída. Olhei para Santiago mordendo a língua.

—Ah, no. —Ele arregala os olhos. —No vai chorar, vai?

 De testa franzida e maxilar trincado olho para o livro outra vez. —Meu livro… Olha o que você fez com ele! —Me aproximo e estendo a cadáver no nariz dele. —Olha! Não acredito…

—Pare com isso. Tá igual a uma garotinha. Com essa roupa aí, livros e chorona. Después tu compra outro. —Tenta sorrir, mas como vê que estou realmente desolada converte a expressão a de cachorro arrependido. Baixei os olhos, vi o All Star preto, eu usava jeans escuro, camisa preta do Michael Jackson. O cabelo preso em um rabo-de-cavalo. Penteado que acentuava o arredondado de meu rosto, mas eu não ia ligar para seu comentário. Minha disposição era chorar mesmo pelo livro, porém reuni coragem para jogá-lo na lixeira de um poste próximo.

 Subi na moto de luto. —Você matou meu livro.

—Tu mantaste acelerar. —Dá de ombros e acelera de novo, dessa vez agarro meus livros com mais força e não olho para os viciados que nos observam.

  Em poucos minutos chegamos ao condomínio. Santiago parou a moto na calçada, literalmente encima da calçada. Desci cambaleante, a mente a mil, e só então me dou conta de que não comi nada desde o café da manhã.

—Todo bién? —Ele indaga.

—Sim.

—Então buenas noches.

—Boa noite.

Mas nenhum de nós se move.

Os minutos passam.

—Você não me seguiu. —Falo.

—Praticamente, não. Ou não exatamente.

Mantenho a expressão impassível. —Isso não muda nada.

—Talvez no.

—Não. Não muda.

 Ele desce da moto e se recosta nela, cruza os braços e fixa os olhos em mim, mechas negras de seu cabelo caem nos olhos. —Aquelas manhãs na confeitaria y no café, la noite na praia y hoje significou muita cosa. Muda muita cosa.

—Não muda. —Insisto segurando os livros contra o peito.

 Santiago se mantém olhando tão profundamente nos meus olhos que me sinto nua, como se ele visse tudo, soubesse de tudo, e não houvesse para onde fugir. —Será que és capaz de me responder por que apareceu na praia naquela tarde na hora que dizia o bilhete que deixei no capô de seu carro? —Ergue uma sobrancelha, incisivo, cortante.

—Não. —Recuo um passo. Olhando para dentro de mim mesma sem ver.

—Não o quê?

—Não sou capaz de responder.

—Então aquela noite que te encontrei na praia chorando mudou alguna coisa. E usted ter aceitado meu convite para la fogueira prova eso. E também mudou muita coisa. —Seu tom era tão rude, aparentemente irritado comigo. —Porque después dessas duas ocasiões tu de uma hora pra outra começou a subir na minha garupa e a fazer coisas comigo!

 Pestanejei transtornada e murmurei a um fio de voz. —Sim…

—Agora te fare la pergunta… —Inspira ruidosamente fechando os olhos com força e olha para mim novamente. —La única pregunta que yo realmente quero hacer é: O que tu pensa que está fazendo? —Proferiu as palavras lentamente, dando ênfase a cada uma delas. Encolho os ombros, sem voz, não respondo. Ele se aproxima e eu recuo ficando contra a grade do portão. —Yo no fiz preguntas… Porque não quis te despertar del transe alucinógeno em que estava. No quis dizer nada que pudesse afastá-la. —Fecha os olhos novamente. —Solo por um momento yo deixei las cosas acontecerem, queria ver até donde usted ia. No entendi, pero deixei… Só que tão repentinamente quanto baixou a guarda ridiculamente usted sumiu. Sumiu e depois me aparece com aquele cara… O leva pra casa… —Ele respira com dificuldade. —Mas la questão ainda no é essa.

 Santiago se afasta um pouco, baixa o rosto e inspira minha nuca, sentindo meu perfume de frutas vermelhas. Eu me arrepio involuntariamente e continuo imóvel. —A questão é que usted ainda se nega a admitir, a perceber que se sente atraída por mim… Mas tu no puedes hacer este jogo! Agir dessa forma tão… inconsequente! Yo te quero tanto, Jasmin! —Segura em meus ombros levado os lábios ao meu ouvido, e fala energicamente. —Tu sabe… Então no brinque com fogo! Saiba que pode se queimar! No hajas como uma criança e después fuja apavorada! —Sua voz é um grunhido furioso que pode ser facilmente confundido com um ganido desolado.

 Ele se cala de repente e seu braços descem por meus braços, sem me tocar no entanto, ele me envolve em um abraço hesitante, receoso. Não me movo, atônita e apavorada. Enquanto estou presa no abraço desajeitado meus pensamento são um turbilhão. O espaço que nos separa é tênue, a espessura de uma navalha e não sinto seu corpo ao meu. Mas sua dor é tão latente que me sinto entorpecida por ela, atingida e tomada de forma visceral. Ou seria a minha própria dor?

—Ainda tenho uma pergunta… —Falo quando por fim ele deixa os braços caírem ao longo do corpo. Suspiro aliviada, olhando para cima, o rosto sério que me encara. Uma grande quantidade de cabelo na face, resisto o impulso a afastá-los, baixo a cabeça e fito o desenho perfeitamente quadrado do cavanhaque que está na altura de meus olhos.

—Qual? —A voz rouca dele sussurra.

—Por que eu?

 Santiago recua um passo e passa os dedos entre os cabelos tirando-os dos olhos, sorri me olhando de uma maneira sinistra. —Pregunto eso a mi mesmo todos los dias.

 Faço um gesto mínimo com a cabeça, sem significado específico e aperto os dedos nos livros. Encarando-o notei a camisa rasgada na altura do combro esquerdo, onde me agarrei e estapeei.

—Essa camisa é igual a de Michael no clipe YANA… —Comento sem pensar.

Ele me olha confuso. —Que? Que Michael?

—Jackson. —Reviro os olhos. —Sua camisa é muito parecida com a dele no clipe da música You Are Not Alone, sabe aquele que o Mike está com a Lisa Presley, esposa dele na época.

 Santiago me encara incrédulo, me achando maluca, e por fim dá um sorriso recompondo-se momentaneamente do ar carregado. Anda de costas até chegar a moto, sem desviar os olhos de meu rosto. E depois os percorre por todo o meu corpo apreciando o prazeroso passeio. Mas agora eu sabia, essa atitude era uma máscara. Ele sorria para ocultar de si mesmo toda sua turbulência, que por sinal era latente, perigosamente inflamável. Por detrás da habitual superfície calma havia um mar de águas turbulentas, densas, as quais queriam me tragar.

 Só que eu já tinha meu próprio mar.

 E apesar do comentário desviante e psicologicamente um sintoma de desiquilíbrio, de fuga desesperada do conflito que sentia, eu não consegui falar nada mais.

—Vá dormir pensando em mim. —Santiago falou ao subir na Harley Davidson.

—Isso é uma ordem?

—Não. Não é. É um fato. —Fez motor roncar, eu desencostei do portão, meu pensamento convergiu para o vovô, a preocupação constante. O portão abriu, o porteiro devia ter assistido a cena toda.

 Santiago me deu um sorriso torto, mas não presunçoso como sempre, triste. Um sorriso cansado.  Acelerou fazendo o motor rugir novamente e deu a partida, se afastou negando-se a libertar meus olhos dos seus.

Continua!

 Tivemos conhecimento de algunas cosas que nos têm intrigado há capítulos? :D 

 Quais eram las suas curiosidades que foram satisfeitas neste? Ou concorda con Jas? Elle está dando informações como em folhas impressas, superficiais…? O que acham? E quanto ao emocional dele?

 Olhem bem dentro de sus ojos de vidro y me digam lo que veem. De verdad.

 Yo pense em ter narración del Peter también neste, pero vamos de un fato por vez! Este capítulo fue longo! La sequência trará mais revelações, intrigas, ameazas, desconfianza, inseguranza, contradicción confronto y confesión! ;D

Vamos interagir, comente aí! 

Legal seria destacar trecho (s) e fazer observações sobre outro (s) também! ;D

Gracias, chicas. :*

Texto postado em 18/02/2014 | 1 note | Source | Reblog •

Capítulo 75 — Guarda baixa

~No capítulo anterior…

 Olhando o mar pela janela aberta traguei o cigarro. Ao virar a esquina para o condomínio meu olhar encontrou o dele, recostado no sedã preto Santiago fumava com ar soturno. Passei por ele, os olhares presos, pelo retrovisor o vi ficar para trás.

 No dia seguinte encontrei com Júlia, mas meu estado era tão absorto e o dia passou indistinto, eu só desejava que terminasse. Mas havia uma pessoa que eu queria ver, a única pessoa com quem não era preciso falar muito, alguém com quem eu me sentia à vontade. Após o expediente atravessei a rua e entrei no recinto, ziguezagueando entre as mesas do bar fui para os fundos, lá estava ele.

—Oi – sussurrei chegando à mesa.

Victor se pôs de pé abrindo os braços.

Dei um riso baixo, em concordância.

—Riu de que?

—O que?

 Victor olhou para mim e ficou me encarando — gosto disso em você, adoro mesmo. Você ri com facilidade, mesmo triste. —Deu-me um sorriso afetuoso.

—Faço isso?

—Faz sim.

— O Coringa tem sido meu objeto de análise.

—Interessante. Depois do seminário ficou fissurada nele, não é?

—Confesso.

—Vi algumas citações no seu blog.

—O que? Você tem visitado meu blog?

—É, de vez em quando eu dou uma olhada… – sorriu. Eu não respondi, encantada.

—Usted fez de nuevo? –Cruzou os braços, sério.

Uni as sobrancelhas.

—Usted sumiu sem avisar – inclinou-se sobre a mesa—Por que usted faz isso comigo? — sussurrou distorcendo o rosto em uma careta de dor.

—Você não sabe de tudo?

Ele estreitou os olhos.

—Hm, no. Me conte.

Eu não falei nada.

—Jasmin…—Falou sussurrando novamente, uma mecha fina de cabelo recaia entre os olhos. —Lo que piensa que estas haciendo? É preciso saber lo que queres.

Ele olhou em meus olhos com dureza, eu diria que até indignação e raiva.

—Não sei, Santiago. O que estou fazendo?

—Esse cara. Quem é?

—Não.

—No oque? –Arqueou uma sobrancelha, impaciente. —Usted tem que ser mais clara, falar as cosas para mi.Para que posamos nos entender – fez um gesto com as mãos e se recostou na cadeira mantendo o olhar fixo em meu rosto. Sustentei-o sem vacilar, em silêncio.

 Quando Santiago se aproximou recebeu o coice nos ovos. Ele grunhiu e caiu de joelhos segurando-os nas mãos. Ainda assim ele gemeu entre riso, com mechas de cabelo nos olhos, olhando para mim daquele jeito.

Fixei-o por um momento, estática.

—Vá embora…—Sussurrei.

—Amanhã… conversamos… Temos muito… –levantou-se como um velho enferrujado e apoiou as mãos nos joelhos fazendo careta. —Temos muito… que conversar.

 Ele não olhou para Victor, aparentemente havia se esquecido dele bem rápido, esticou o braço e tocou a ponta do dedo na palma da minha mão brevemente. Em seguida, com a mesma mão, massageou o saco crispando o nariz e se virou, a passos largos foi para os fundos do bar. Tranquilamente.

Continua agora! ;D Boa leitura!! Por favor, comentem.

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Capítulo 75 —   Guarda baixa

 Eu estava confusa. Completamente perdida. Havia algo em Santiago que me perturbava, mas não era somente sua perseguição sem sentido, que homem faria uma coisa dessas? Quais eram suas motivações? Eu tinha certeza que ele veio ao Brasil exclusivamente por minha causa. Mais que isso. Era o que eu via em seus olhos que me transtornava. Suas frases inacabadas diziam “descubra”, havia o desafio implícito. Santiago erguera um muro tão alto em torno de si, ele controla quem se aproxima, quem entra, quem vê por dentro. Em algum momento daqueles dias que passamos juntos eu pude ver uma centelha e não podia negar agora que ele povoava meus pensamentos desde então.

 Eu esta noite queria passar sem pensar nisso tudo. Na imprudência do vô Antony, na distância de Bruno, em Santiago e sua invasão em minha vida, mas tudo o que consegui foi entrar em pânico.

 E o meu terror se manifestava da pior maneira psicológica possível: Por fora o silêncio. Por dentro guerra. Metralhadoras, granadas, minas, fuzis, bazucas, dinamites, canhões.

 Meu coração estava retumbando, rebatendo contra o peito a ponto de explodir, meus pulmões ardiam por ar. Senti raiva de mim mesma por não lidar melhor com isso tudo. E o desespero sempre aumenta quando chega à noite, em meu apartamento vazio. A única coisa que vi diante de tudo isto naquela noite foi Victor. E eu me agarrei a ele desesperadamente.

 Tínhamos um relacionamento tão profundo e tão longo que apenas a palavra amigo ou até mesmo irmão seria mísera para rotulá-lo. Eu precisava dele naquela noite, não aguentava mais suportar tudo sozinha. Assim que cheguei disse que precisava tomar um banho, mas não era só isso. Eu precisava chorar um pouco e dar umas porradas na parede do quarto para extravasar. Depois voltei a sala com os nós dos dedos ardendo e doloridos, mas com os cabelos molhados, fresca e aliviada ao saber que não estava só.

 Não foi preciso convite ou cerimônias enquanto eu estava no quarto meu amigo ficou bem à vontade. Emprestei-lhe uma cueca e Victor se jogou no meu sofá, sem camisa, com o peito gotejando água do banho. Eu deitei na extremidade oposta, dividindo o espaço com ele, com meus pés na altura de seu peito e os pés dele na minha cara. Virei de lado e abracei suas panturrilhas como um urso de pelúcia.

Ambos tomados por silêncio pensativo, quase tangível, por um momento.

—Muito tempo desde que dormi aqui. —Disse ele. ­— Foi algumas semanas antes do seu aniversário, ano passado.

 Sentindo ao mesmo tempo o corpo relaxar enquanto me aconchego, querendo me entregar ao repouso e ao esquecimento e a mente agitada que me impulsiona a sair correndo e me descabelando demoro a responder. Por fim suspiro e digo:

—É, antes de eu ir pro Hawai’i e você se tornar juiz. Mês que vem faz um ano.

—Você vai comemorar?

—O que? Um ano que você não dorme aqui? – Levantei um pouco a cabeça, sorrindo.

Victor balançou a cabeça. —Me refiro ao seu aniversário.

Dou de ombros. —Sei lá… E você? Vai comemorar um ano de profissão bem sucedida?

—Um ano de vida sem tempo pra nada? Acho que não terei tempo.

Eu dei um risinho casado, esquisito. —Não reclame agora, não faça como eu… –Suspirei, —olha como as coisas são; a gente luta tanto por algo, sangra e morre por aquilo que acredita querer muito e quando consegue não quer mais, ou não tem mais interesse, reclama das consequências.

Victor ficou em silêncio por um instante e disse; Nunca está bom.

—Mas não deixe de comemorar seu aniversário, pelo menos se reúna a família…

—Depois a gente vê isso… —Victor parecia muito comigo nesse quesito, fugir de assuntos pessoais. — Me conta do cara. Ele pensou que eu era seu namorado, estava morrendo de ciúme. Quem é ele?

Senti a garganta fechar e o coração contorcer. Se não falamos nada no percurso para casa eu não podia mais adiar o assunto. Inquieta, vi que era impossível continuar deitada e sentei, colocando as pernas dele sobre as minhas.

Suspirei.

—O nome dele acho que é Santiago… —Fitando a mesa de centro franzi a testa decidindo expor toda a história. —Conheci no Hawai’i.

 Virei o rosto para olhar Victor, ele deitava a cabeça sobre as mãos. Contei tudo a ele. Desde o primeiro encontro, entre os conflitos e confrontos à seu retorno perturbador e os mais recentes acontecimentos. O porquê da dúvida com relação ao nome. Contei tudo, absolutamente tudo. Inclusive meus sentimentos.

 De repente o ouvi roncar.

—Victor. — Cutuquei sua costela. — Victor!

Ele resmungou.

—Você dormiu?

—Só cochilei um pouquinho… —Levantou a cabeça com os olhos meio fechados, o cabelo bagunçado. —Mas ouvi tudo o que você falou. De relevante. ­—Soergueu-se nos cotovelos e sentou dando um sorriso oblíquo.

—Ah… é isso. Daí quando vi já tinha baixado a guarda. Não sei como. —Balancei os ombros. — Agi por impulso, sem pensar.

—Acha que ele gosta de você?

—É claro que não! —Dei risada, achando a ideia ridícula. —Não.

—Vem cá… —Abriu os braços para mim, eu me aproximei louca por um consolo e me sentei ao seu lado espremida entre o encosto do sofá. —Olha só… O cara veio até aqui. Te procura, dá bombons, está com você mesmo que você não queira e fez toda aquela cena lá no bar… —Apertou-me em seus braços. — Ou ele é louco, um serial killer, tarado, ou está mesmo a fim de você, minha ruiva.

—Não. —Respondi rápido demais, na defensiva demais. E tudo veio à mente. Os olhares intensos e perturbadores de Santiago, todas as suas palavras, seus gestos. Ora gentil, ora presunçoso, mas sempre tão enigmático! “Vou te dar segurança” “você será minha”. —Eu preciso esclarecer as coisas, não é?

—Precisa. Principalmente pra si mesma. —Fez uma pausa. —E também não seria justo, com Bruno e nenhum de vocês.

Engoli em seco, o coração comprimido. —Eu sei. —Virei o rosto para trás para encarar o dele, com o meu próprio deformado de consternação. —Mas eu nunca tive a malícia de trair Peter. Eu o amo.

—Eu sei, mas você está vulnerável. — Beijou o alto de minha cabeça.

Eu concordei com um murmúrio distante. Victor me manteve em seus braços, ambos pensativos e quietos por um tempo.

—Falando nisso: o que ele acharia se soubesse que seu amigo dorme com você?

—Como assim? Desde que voltei de viajem do Hawai’i nem você e o Mike, nem ninguém dorme aqui.

—Mas e se ele soubesse?

Empurrei-o com as costas fazendo-o deitar e me dentando ao seu lado, não entendo o porquê da pergunta e um tanto irritada porque minha cabeça estava um turbilhão. —Ele não gostaria nem um pouco.

—E se ele dormisse com uma amiga? —Provocou.

—Se não tivesse malícia, tudo bem. Eu não me importaria. —Dou de ombros não sabendo se digo a verdade.

—Assim como nós dois? —Sussurra em meu ouvido, o braço ao sob minha nuca.

—Sim.

—Tem certeza?

Repito convicta outra vez: Sim.

Logo enrijeci, confusa. Victor fechava um circulo ao meu redor, segurando uma mão na outra com os dedos entrelaçados. Uma delas deslizou sutilmente até minha cintura, senti a pele quente e grossa em contato com a minha. A blusa da The Runaways estava um tanto levantada, enrolada até o umbigo por eu estar esparramada no sofá. Eu ouvia sua respiração intensa, por isso presumi que de repente ele tivesse pegado no sono, mas não. Victor levantou a perna e entrelaçou nas minhas, me apertando em seu corpo. Meu coração acelerou, a garganta fechou.

Confusa, sem saber o que pensar eu indaguei insegura:

—O que você tá fazendo?

—Me aconchegando, tá apertado aqui.

Pestanejei, não queria acusa-lo nem nada. Éramos amigos muito próximos, o contato físico não era raro entre nós, embora não tão íntimo. Mas eu sentia o calor de seu corpo junto ao meu de forma impossível de ignorar, de dar de ombros. Enquanto minha mente se contorcia nesse susto, na dúvida eu fiquei muda, estática, paralisada.

—Vire pra mim, Jasmin. — Victor sussurrou.

—O que? Pra que?

Ele riu. —Pra ficar mais confortável. Se não eu durmo também, preciso olhar pra você. Continue falando do cara. —Fala naturalmente, a testa lisinha, sem careta, apenas passando a mensagem do que tinha dito.

Virei então o corpo para ele também, e ainda olhando em seu rosto disse:

—Tá… Bom, fui pra Angra passar o fim de semana pensando no que fazer, em como agir em relação a tudo isso… Mas depois… eu fiquei tão atordoada com esse incidente com o vovô que todo o resto me pareceu insignificante por um momento, mas agora isso emendou e aumentou todo o embaraço a uma extensão lancinante. Acabou que voltei sem chegar a conclusão alguma… —Repuxei a boca para o lado.

—E que conclusão poderia ser essa?

—Não sei, não. —Franzi a testa. —Não cheguei a essa conclusão ainda.

Victor riu baixinho, encostando a testa na minha. —Talvez o que fazer com ele? Cortar o vínculo que criou nesses dias de insanidade ou dar uma chance a ele ou manter um limite, como uma amizade.

Sendo, enfim, sincera com relação a Santiago eu digo:

—Acho que foi isso tudo que passou por minha cabeça.

Então Victor me manda essa:

—Você gosta dele?

E eu me surpreendo ao responder que sim com um gesto de cabeça. —Nos últimos dias até que sim, não posso negar. De alguma forma me sinto bem com Santiago… Estimulada.

Por dentro grito de desespero. Mas me contenho.

—Acha que podem ser amigos?

Ponderei por um momento, assustada com minha sinceridade e confissões. —Talvez.

Devagar. As pernas de Victor se moveram arrastando as minhas para mais perto. Fazendo meu quadril encostar no dele, engolindo meu corpo com o dele. Estreitou mais o abraço, e roçou os dedos em minhas costas, dando início a um carinho reconfortante, porém, juntando ao restante do contexto, perturbador.

—Victor?

—O que Jasmin? —Sussurrou e me ergueu nos braços, colocando-me sobre ele, encaixando minhas pernas em seu quadril com habilidade. Movimento que eu conhecia muito bem. Me fazendo sentir uma familiaridade desorientadora. Olhei para ele com a visão turva, só o fato dele estar apenas de cueca já devia ser motivo para eu manter limite de proximidade, mas Victor era meu amigo. Senti o corpo mole, uma fraqueza vertiginosa, ele me puxou pelos ombros e me fez deitar sobre seu peito. Minhas narinas foram invadias por seu perfume refrescante, o que ele usava desde sempre, os batimentos cardíacos lentos e pesados. Levantei um pouco a cabeça e olhei em seus olhos negros, a barba por fazer, os lábios entre abertos, a pele tão bronzeada. As feições do meu primeiro amor. O olhar tão familiar, seguro. —Amigos como nós dois?

—O que você está fazendo Victor? —Indago com o psicológico obtuso.

—Você acha que pode ser amiga dele? —Invade por dentro de minha blusa, eu não usava sutiã. Enrijeci arregalando os olhos.

—Você é meu amigo. Pare com isso. — Reclamo, porém incapaz de me mover.

—Já fui seu namorado. —Continua deslizando a mão por minhas costas nuas até alcançar um seio. Nesse momento arfei sem fôlego. Minha mente berrava em alerta vermelho.

—Oh, meu Deus! Victor, pare com isso! — Tento levantar, mas a outra mão sobe por minhas nádegas até as costas e me prendem. Ambas as mãos seguram meus seios, e seus lábios roçam em meu pescoço, a barba arranhando.

—Ainda acha que pode ser amiga dele? Han? —Levanta o olhar para os meus e se aproxima para me beijar.

Viro o rosto, ofegante e atordoada. —Não.

—O que? — Aproxima-se outra vez. Apertando mais meu corpo contra si, emitindo gemidos de desejo. A essa altura meu coração e mente parecem que vão explodir. —Não ouvi o que disse… Fala pra mim.

Olhei em seu rosto, tudo girando, ofegante e o beijo de uma vez. Busco sua língua com urgência e seguro em seu rosto com desespero sendo correspondida com surpresa, mas igual ardência. Victor levanta o quadril, buscando o meu e comprime-se contra mim, em um abraço colossal. Todo o meu corpo pulsa, correspondendo, sentindo desejo e prazer involuntários.

 Sentindo os lábios de Victor nos meus pensei em Bruno; uma exclamação em vermelho! Abri os olhos e encontrei os de Victor igualmente espantados, nos encaramos. De repete congelados.

 Sua mão desce entre o espaço de nossos corpos, correndo para minha cueca, toca a zona proibida por cima do tecido e sinto por todo o meu corpo seus carinhos, as mãos que transcorrem da virilha às coxas, barriga, braços, lábios. Me sentindo mole e fraca deixo minha cabeça tombar em seu ombro.

Balbucio aliciada. —Não…Ah… Victor, pare.

Mas ele continua. —Sou seu amigo. — Sussurra tranquilizador. —Não vou fazer… mais que isso. Mas pare de gemer no meu ouvido, posso perder o controle.

E nos beijamos outra vez, dessa vez languidamente.

—Senti sua falta… —Victor confessou em minha boca. 

—Depois de tantos anos. Não desse jeito. —Afastei-me, apoiando em seus ombros e varro seu rosto com os olhos.

—Nós dormimos juntos depois que terminamos. —Levantou o tronco e se inclinou para roçar o nariz em meu pescoço. —Muitas vezes, aqui mesmo nesse sofá.

—Eu sei… Mas agora não. Não vai acontecer. Não posso. —Balancei e cabeça, mas continuei sentada encima dele, eu podia sentir seu desejo pulsar sob mim.

Seu peito arfa, olho para ele. Victor está ofegante, os olhos turvos. —Meu Deus! —Segura em minhas nádegas e comprimi nossas partes intimas nos fazendo arfar em reação juntos. —O que estou fazendo? Desculpe… —Mas não parece disposto a parar.

Eu sinto minha cabeça vazia, paralisada fico encarando-o. Mas consigo me dar conta que meu psique está em pane outra vez.

—Por que está me deixando fazer isso? – Percorre os dedos por meu braço até a curva de meu seio sobre o tecido da roupa. —Se não me impedir eu não vou parar. —Sentou, comigo em seu colo, levantou e começou a andar em direção ao quarto, no rosto o ar amoroso e familiar.

Deixo-o fazer aquilo porque me sinto segura, porque me sinto à vontade e protegida. Porque sinto meu ego preenchido e porque me sinto muito bem, embora totalmente perturbada mentalmente.

 Ele estava tão próximo, tão quente, ofegante. Pôs-me sobre a cama e se inclinou sobre mim, me beijando a barriga, segurando minha cintura, segurei seu rosto e o puxei para beijá-lo. Sinto sua boca quente, a intimidade que temos latente.

—Você sabe que estamos a um paço de… ­—Mordeu meu lábio e desceu por meu pescoço até a barra de minha cueca. —Eu quero entrar aqui… Só mais um gesto e…

Então sinto a punhalada em meu peito, uma dor lancinante e com um sobressalto soergo-me sobre os cotovelos. —Não posso. Victor pare.

E ele para.

—Você não é o único que pode perder o controle. —Digo com firmeza.

Victor soltou meu short e se afastou rapidamente, sentou na beira da cama levando as mãos à cabeça, as costas nuas viradas para mim. Meu coração amarrotou, senti o gosto metálico na boca e dos olhos saltaram lágrimas quentes e profundas, cheias de dor e confusão. Enxuguei o nariz com o dorso da mão e me arrastei na cama, sentei a seu lado.

—Victor… —Pus a mão em seu ombro, hesitante. O ouvi fungar, ele continuou imóvel, tenso. Pedi com voz trêmula:

 —Olhe pra mim, vai?

Quando vira o rosto para mim seus olhos estão injetados, ele mira nos meus com tristeza, perdido. Como eu. Recomeço a chorar e ele me toma os braços, me aperta forte contra si e chora também, baixinho.

 Entrego toda a minha dor a ele e recebo a sua, naquela noite turbulenta nos tornamos um.

—Eu te amo Jasmin… – Sussurra trêmulo em meu ouvido.

E eu caio no abismo de uma vez.

Agora estou perdida, definitivamente em um ponto sem retorno.

Nós dormimos na mesma cama, juntos, abraçados, mas unidos por tudo o que sentimos, buscando consolo um no outro, desnorteados, não fizemos sexo, não nos beijamos mais, seguramos nosso coração sangrando nas mãos.

Um ponto sem retorno.

"É preciso saber o que se quer."

Amanheci com uma obstinação: Eu não seria mais vítima. Minha mente engrenava insistentemente, eu precisava entender. 

Continua!!! 

Eu? Nem falo nada, já disse tudo neste capítulo! Gostaria e que você me dissessem, o que acharam? 

:*

Ps. Próximo capítulo trará revelações de Santiago!!

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Texto postado em 09/02/2014 | 1 note | Source | Reblog •

Aloha! Respondendo ao comentário de Hooligan Brazil! :D

OMG!!! O q foi essa cena q o Santiago fez?! Ele está se envolvendo demais não é? Sobre os últimos caps, q susto o vô antony deu tomara q ele siga as recomendações medicas. E sobre o triangulo amoroso como vai ser? - hooligan brasil”

Oh, haha, Santiago está totalmente fissurado! Haverá revelações sobre ele no cap 76! A própria Jasmin vai conseguir arrancar, enfim, muitas coisas dele! Esperamos memso que o vô Antony se cuide, ele é essencial para Jasmin, mais uma qstão que tomará sua mente agora. :/

 Quanto ao triangulo amoroso? Hehehe As coisas serão elevadas ao quadrado, se é que me entende… Logo verá, aliás, no próximo capítulo mesmo, neste sábado! Jasmin está lidando não muito bem com essa confusão, está envolvida, mesmo que de uma forma distorcida… Ela tomará atitudes e decisões inesperadas, erradas, Bruno tentará estar mais presente, mas Santiago já ganhou muito espaço não?

 Deixo coisas vagas, mas pistas… ^_^ 

Texto postado em 05/02/2014 | 2 notes | Source | Reblog •

Capítulo 74 — Whisky e ovos

Capítulo 74 —   Whisky e ovos

 Voltei a Cidade sem chegar à conclusão alguma ou aos esclarecimentos que buscava. Ao cair da noite, de volta para casa da Clínica, dirigi lentamente pelo litoral. Olhando o mar pela janela aberta traguei o cigarro.

 Ao virar a esquina para o condomínio meu olhar encontrou o dele, recostado no sedã preto Santiago fumava com ar soturno. Passei por ele, os olhares presos, pelo retrovisor o vi ficar para trás.

 No dia seguinte encontrei com Júlia, mas meu estado era tão absorto e o dia passou indistinto, eu só desejava que terminasse. Mas havia uma pessoa que eu queria ver, a única pessoa com quem não era preciso falar muito, alguém com quem eu me sentia à vontade. Após o expediente atravessei a rua e entrei no recinto, ziguezagueando entre as mesas do bar fui para os fundos, lá estava ele.

—Oi – sussurrei chegando à mesa.

Victor se pôs de pé abrindo os braços, nos abraçamos longamente. Assim que nos sentamos um barman, já de sobreaviso, me serviu uma dose de tequila, olhei para meu amigo agradecida.

—Se importa? – Ele puxou um cigarro da carteira no bolso da camisa social branca.

—Não – estendi a mão pedindo um.

—Voltou? – Ergueu as sobrancelhas ao me passar o cigarro.

Suspirei dando de ombros e disse;

—Parece a única forma de aliviar o estresse no final do dia.

Victor assentiu, acendeu o cigarro e me passou o isqueiro — como está o vô?

—Bem… – Fiz uma pausa, as lembranças desagradáveis vindo à tona. — Passei o dia ligando para alguns médicos conhecidos… Ele só precisa seguir as regras, meio difícil, não?

Victor balançou a cabeça, rindo – é, ele não aceita que já é velho.

Concordei com um gesto.

—Bom, pelo menos o corpo é.

—Fui vê-lo hoje à tarde, antes de vir, mas não falamos sobre o que aconteceu.

—Victor, senti tanto medo. Foi horrível…

—Eu sei… –Olhando-me dentro dos olhos. —Também me senti assim quando soube.

Contei a Victor, resumidamente, sobre o que o médico disse. Fiz uma pausa e sorvi da tequila, dizendo que não queria falar sobre aquele assunto e pedi que me contasse como ele estava.

Victor riu para dentro, de lábios fechados. — Uma merda… Cansado.

—De tudo?

Ele fez que sim, apoiando os cotovelos sobre a mesa, olhou ao redor com ar carregado. ­—São muitas coisas ao mesmo tempo. E aquela mulher… não ajuda.

Endureci a expressão também.

—Sei…

—Pode falar o que está pensando – sorriu.

—Não acho legal dizer aos outros o que fazer da vida… – Suspirei, — ainda mais quando a nossa própria está uma bagunça, também tenho meus complexos, se é difícil para eu lidar imagino que para os ouros seja ainda mais difícil de entender. Eu não gosto dela, — trinquei os dentes, —Letícia não é boa o bastante pra você.

Victor sorriu achando graça, —nós terminamos.

O encarei um instante, esperando.

—Eu gostava dela… —deu de ombros, erguendo o copo de whisky e inspirando antes de dar um gole.

—Como foi?

—Estamos distante demais um do outro, deixamos que isso crescesse, até que não sobrou mais anda a que se prender.

—Duvida que realmente a amou? –Olhei em seus olhos negros com tristeza.

Victor comprimiu os lábios e alisou a barba cerrada, olhando para mim com intensidade. Ele pensou em alguma coisa, mas não disse.

—Desculpe… ­—Sussurrei.

—Não. Não… É que eu acho mesmo que não. Eu andei com uma garota….

—Uuh, é sério? Quem?

—É minha vizinha, ela é bem gostosa –sorriu.

—Ah! – Eu ri.

—Estou tranquilo, Jasmin. Não é isso que me preocupa, só estou estressado demais. Agente sai do trabalho, mas ele não sai da nossa cabeça. É difícil ser o único juiz que ama o que faz nessa cidade, acabo com carga demais – passou a mão no cabelo cortado a máquina.

Dei um riso baixo, em concordância.

—Riu de que?

—O que?

 Victor olhou para mim e ficou me encarando — gosto disso em você, adoro mesmo. Você ri com facilidade, mesmo triste. —Deu-me um sorriso afetuoso.

—Faço isso?

—Faz sim. Parece que as coisas ruins não tem muito efeito sobre você, sempre foi assim. Você segura a onda, firme. Rebate de volta e não fica reclamando.

Franzi o cenho, reflexiva —você não faz a mínima ideia, Victor. Quando as pessoas acham que vão perder alguém que amam o cérebro delas para de funcionar. Estou tão transtornada, por tantas coisas… —Com os olhos fixos na mesa, deixei minha voz morrer.

—Mesmo assim não parece, você é forte…—estreitou os olhos. —Os problemas não tem o mesmo efeito em você. Você continua caminhando mesmo com os pés sangrando.

 Pestanejei absorvendo e refletindo sobre o que ele falou, mas ao mesmo tempo minha mente estava paralisada. Para mim, eu não era tão forte assim, apesar de reconhecer alguma verdade em sua observação.

 Olhei para o cigarro entre meus dedos, divaguei, desejando apenas esquecer tudo por aquela noite. O bar era um lugar tranquilo. Frequentado por executivos e profissionais de escritório. Pouco iluminado. Nas mesas de madeira escura e no balcão os homens usavam as camisas sociais desabotoadas e para fora da calça, gravatas desatadas, as mulheres sem o blazer e com as camisas desabotoadas até o busto.

Victor interrompeu meu devaneio ao perguntar sobre Bruno.

Voltei o olhar para ele.

—Hm? Ele veio aqui quinta-feira passada.

—Não tem falado muito dele…

—Não tem muito o que falar… —Na verdade era cansativo demais falar sobre mim, sempre fui o tipo que sofre em silêncio.

—A gente transou pra caramba – suspirei sorrindo, forçando a voz grave

Victor riu, eu dei risada junto. — Ah, Jasmin… Só você mesmo. Pelo menos ainda tem o senso de humor!

—Como diz o Coringa; se a vida jogar o mundo inteiro sobre suas costas e você achar que não pode suportar, quando tudo é guerra, estupro e morte e você achar que vai enlouquecer, só tem uma coisa a fazer! Você deve sorrir! Se tiver que lutar, lute sorrindo. Se tiver que matar, mate sorrindo. Se tiver que morrer…

—Morra sorrindo —Victor completou, sorrindo.

—Isso mesmo – dei uma risadinha. — O Coringa tem sido meu objeto de análise.

—Interessante. Depois do seminário ficou fissurada nele, não é?

—Confesso.

—Vi algumas citações no seu blog.

—O que? Você tem visitado meu blog?

—É, de vez em quando eu dou uma olhada… – sorriu. Eu não respondi, encantada.

Victor se levantou, —já volto, vou ao banheiro.

Fiz um meneio, erguendo meu copo, dei um gole observando-o se afastar. Victor parecia mais alto, mais do que sempre foi agora no auge dos trinta e um. Chegar a maturidade lhe definiu as formas, músculos substituindo o ar juvenil de rapaz para o ar maduro de homem.

 Fantasiei ele casado já chegara a idade, e pensei se não ficaria muito tarde. Para mim também. Mas não havia cláusula de limite para casar.

Percebi que com a saída de meu amigo os homens ao redor me focavam e faziam comentários entre si afim de chamar minha atenção. Passei os olhos pelos rosto com indiferença e baixei o rosto, acendi outro cigarro. Levantei os olhos outra vez, eu tinha olhado para os lados e não a frente. Quando o fiz senti meu interior dar cambalhota.

Sentado de lado com um cotovelo sobre a mesa Santiago sorriu e acenou.

Trinquei o maxilar mantendo a expressão impassível.

Ele se levantou e caminhou até mim.

—Oi.

—Santiago – suspirei, - como é possível?

—Yo realmente no sei, – balançou os ombros — desta vez fue una coincidencia mesmo.

Sentou à minha frente, onde há pouco Victor estava.

—Usted fez de nuevo? –Cruzou os braços, sério.

Uni as sobrancelhas.

—Usted sumiu sem avisar – inclinou-se sobre a mesa—Por que usted faz isso comigo? — sussurrou distorcendo o rosto em uma careta de dor.

—Você não sabe de tudo?

Ele estreitou os olhos.

—Hm, no. Me conte.

Eu não falei nada.

—Jasmin…—Falou sussurrando novamente, uma mecha fina de cabelo recaia entre os olhos. —Lo que piensa que estas haciendo? É preciso saber lo que queres.

Ele olhou em meus olhos com dureza, eu diria que até indignação e raiva.

—Não sei, Santiago. O que estou fazendo?

—Esse cara. Quem é?

—Não.

—No oque? –Arqueou uma sobrancelha, impaciente. —Usted tem que ser mais clara, falar as cosas para mi. Para que posamos nos entender – fez um gesto com as mãos e se recostou na cadeira mantendo o olhar fixo em meu rosto. Sustentei-o sem vacilar, em silêncio.

Victor surgiu no corredor azulado pela luz neon, suspirei de alivio e fixei o olhar nele até que chegasse a mesa.

—Oi – disse plantando as mãos na cintura. Ele fez um meneio de cabeça para Santiago e olhou para mim inquirindo apresentação. Mas eu não faria, e não fiz.

—Oi – Santiago entortou a boca em um sorriso desdenhoso.

—Sou Victor. E você quem é?

—Victor? Pode me chamar de Michael – estendeu a mão.

—Michael? –Não me contive, bufei aborrecida. Sabia o que estava acontecendo ali.

—Sente-se, fique à vontade – Santiago indicou a cadeira, sua zombaria era explicita. E Victor era uma granada. Olhei de um para outro temendo uma briga, mas ao mesmo tempo desejando que Santiago recebesse um bom soco. Victor precisou apenas de um segundo para perceber.

—Você quer levar uma porrada no meio da cara e eu estou disposto a dá-lo – sorriu, cerrando os punhos. Olhou para mim, —Jasmin, você conhece esse cara?

—É, Jasmin. Você me conhece? Diz pra ele quem sou, e por que não me diz também que é ele? – Inquiriu me olhando como se eu o estivesse traindo, os olhos verdes tristes e cortantes. Ele se pôs de pé convertendo a expressão com um sorriso torto.

 Balbuciei sem consegui me pronunciar. O que eu diria a Victor? Santiago sugeria que nós tínhamos um caso, ele pedia satisfações como se eu as devesse. E pensava a mesma coisa a respeito de Victor e eu.

—Jasmin? – Victor exigiu, de pé também encarando Santiago.

Levantei olhando rapidamente ao redor, muitos nos assistiam. —Santiago, vá embora. Vá embora, por favor.

Ele trincou os dentes permanecendo impassível.

—Não ouviu o que ela disse? – Victor se inclinou a ele, —vá embora. Ela não quer sua presença!

Santiago deu uma risada gélida e desdenhosa, —ninguém te chamo na conversa! No se meta! Bastardo…

 Em seguida apenas ouvi os nós dos dedos de Victor estalando ao golpear a cara dele. Santiago desequilibrou para o lado, os cabelos longos caindo no rosto. Rapidamente endireitou a postura, dando de ombros e sorriu mordendo o lábio ao devolver o golpe, avançou disferindo dois socos em sequência, Victor recuou colidindo contra o balcão, mas esticou a perna e quando Santiago se aproximou recebeu o coice nos ovos. Ele grunhiu e caiu de joelhos segurando-os nas mãos. Ainda assim ele gemeu entre riso, com mechas de cabelo nos olhos, olhando para mim daquele jeito.

Fixei-o por um momento, estática.

—Vá embora…—Sussurrei.

—Amanhã… conversamos… Temos muito… –levantou-se como um velho enferrujado e apoiou as mãos nos joelhos fazendo careta. —Temos muito… que conversar.

 Ele não olhou para Victor, aparentemente havia se esquecido dele bem rápido, esticou o braço e tocou a ponta do dedo na palma da minha mão brevemente. Em seguida, com a mesma mão, massageou o saco crispando o nariz e se virou, a passos largos foi para os fundos do bar. Tranquilamente.

—Que merda, —murmurei.

—Quem era? —Victor questionou aborrecido atrás de mim.

—Um conhecido…

—Um conhecido? E por que agiu daquela forma? É a fim de você, esse cara? Ou… – Insinuou fazendo um gesto com a mão.

—Vamos embora —balancei a cabeça. —Vem comigo?

—Você tá bem? —Aproximou-se convertendo a expressão para preocupado.

Fiz uma careta, cansada demais para falar.

—Vamos sair daqui… —Peguei minha bolsa, Victor recolheu o paletó dele e envolveu o braço na minha cintura para me confortar.

Ao me virar para a saída vi Santiago de relance, lá atrás, nos observando.

—Que cara é essa? Tá tudo bem? – Victor insistiu na calçada do lado de fora.

—Sim. Dorme comigo hoje? Não quero ficar sozinha, aí te conto tudo…

Continua no sábado!! ;D

Texto postado em 05/02/2014 | 1 note | Source | Reblog •
ivysplace: Amiga do céu... esses capítulos foram incríveis. A forma como Santiago se aproximou da Jas a deixando tão relutante e ao mesmo tempo sem defesas, ele a deixou abalada em todos os sentidos. E além de tudo isso ainda tem a visita repentina do Bruno e a suspeita de gravidez dela... A cabeça dela deve estar como um ninho de pomba bêbada... Amiga, não a torture tanto. 

*O* Oooh, um ask no Tumblr! uuh!

Muito obrigada!! Ah, a culpa não é minha. Se você acha confuso agora, veja só o próximo capítulo! ;D

Ask respondida em 05/02/2014 | 0 notes | Source | Reblog •

Capítulo 74 — Alarme

Capítulo 74 —  Alarme 

                                               ๗JASMIN

 O sol quente queimava meus ombros e o vento marinho varria meu cabelo, enquanto as ondulações da água balançavam o iate eu contemplava o céu azul. Refletindo sobre meu comportamento nos últimos dias, o qual fora irracional e incompreensível.

 Eu não vinha usando meu senso de crítica, refletindo sobre minhas ações, eu estava me deixando levar pelo instinto impulsivo. Eu queria e carecia de compreender meu caso e me sentia inútil por ser uma terapeuta incapaz de controlar a própria vida pessoal, mas o que eu poderia fazer?

 Sim, eu precisava me encontrar, recuperar a sanidade. Peter fora embora outra vez.

 Tentei lembrar de tantos conselhos que eu dera a meus pacientes. Não podia mais mascarar meus sentimentos, mas eu não estava preparada para assumir o que eu se quer sabia o que era. Eu não conseguia compreender, não conseguia descortinar, por mais que tentasse não me era revelado.

 Existia tão-somente o impulso. A atração pelo abismo.

 Apenas alguns dias e o turbilhão em meu intimo duplicara, os encontros descabidos com Santiago, tudo o que vi e senti, a visita inesperada de Peter e nossa conversa que tomara um rumo inesperado.

 Era para isso que eu estava ali, longe da cidade, para refletir.

 Na manhã seguinte em que Bruno embarcou eu e meus pais caímos na estrada como o combinado na semana anterior, a caminho de Angra dos Reis.

—Ariel! Ai, Ariel! – Papai gritou lá debaixo. Ele e o vô soltavam pipa na proa da embarcação, eu sorri e acenei para eles. Mamãe estava em uma espreguiçadeira a sombra do guarda-sol, lendo um livro.

 Caminhei até a extremidade traseira do iate e sentei recostada nos equipamentos de mergulho. Eu comprara uma carteira de Marlboro há um tempo, fumava um vez ou outra. Acendi um cigarro e fechei os olhos sentindo o sol. Direcionando os pensamentos a questões mais leves.

 Os planos para o fim de semana eram velejar, mergulhar e comer frutos do mar. Papai parecia cansado, a crise no comercio não estava sendo fácil, ele falava sobre se aposentar. Ultimamente, quando eu ia visita-los nós dois ficávamos ouvindo Legião Urbana e U2 em silêncio, sentados no chão da sala. Era a nossa maneira de nos consolarmos um ao outro, nosso silêncio era repleto de sentimentos quase tangíveis, que não tínhamos coragem de expor, mas ambos sentíamos e ouvíamos aquilo que não era dito. E nos entendíamos com o olhar de maneira tão comovente que qualquer outro gesto era desnecessário.

 Nós éramos assim, desde sempre. E eu sentia que papai estava muito feliz naquele fim de semana em família, e eu também compartilhava o contentamento.

 O vô Antony estava bastante entusiasmado, com a expectativa do campeonato no fim do ano. Se antes ele já vivia surfando agora ele morava no mar. Eu não o encontrava mais sentado na areia entalhando suas molduras ou pintando, como às vezes encontrava. Na verdade nos últimos meses ele viajara muito, se antes ele já era vigoroso, com essa expectativa de reviver as competições da juventude o vovô estava impossível.

 Ao conforto inigualável do abraço maternal eu recorria quando cansava de tentar resolver tudo sozinha e consolar a mim mesma. Neste final de semana eu tinha minha mãe ali, e pude olhar para ela com a adoração e a saudade que eu sempre sentia dela. Uma falta que sempre me acompanhava, desde o momento em que percebi que crescera, que aprendera a voar. E olhando para os três dali de cima eu me comovi com o amor que sentia, feliz por tê-los e triste porque haviam partes de mim que eles nunca conheceriam.

 Desci e me juntei a eles, soltei pipa também e instiguei a mãe a participar da brincadeira. Ela não leva jeito nenhum, mas ao menos sabe segurar a linha. A manhã deu lugar à tarde, nós almoçamos delicioso peixe assado com batatas e passamos o restante do dia submersos nas águas cristalinas. Papai me tratou como criança, me convidando a acompanha-lo nas atividades e rindo feito moleque ao ver que eu sempre seria sua guria arteira. Nós sentamos nas pedras da costa, ele e o vovô contaram histórias para mim e mamãe. Vovô pintou um quadro dela em aquarela, enquanto meu pai e eu nadamos para longe da margem. Mais vez comprovei o poder da natureza e da família para curar almas e renovar espíritos. De ambos eu jamais seria capaz de abrir mão.

 Entretanto o segundo dia deste fim de semana em família cortou o véu de paz que nos encobria. Ninguém esperava, mas é assim mesmo que as coisas ruins acontecem, quando se menos espera. E o vovô estava tão feliz conosco!

 Foi no final do dia.

 Ao anoitecer eu misturava arroz e milho verde no refratário de vidro sobre a mesa, mamãe fritava siri no fogão, papai secava os cabelos com toalha do lado de fora e o vô tinha acabado de entrar no banheiro para tomar banho.

 Separei uma porção com uva passas e outra sem finalizando a tarefa, me aproximei de mamãe e peguei um siri quente na ponta dos dedos. Ouvia-se o vô tossindo, algo comum, mas foi gradativo, a tosse parecia evoluir para um engasgo, uma espécie de sufocamento. Troquei um olhar preocupado com minha mãe e fui conferir.

—Vô? — bati na porta entreaberta.

—Vô, você tá bem?

Tosse. —Tô… Tosse, tosse…

 —Tá tossindo feito um louco, pai! – Meu pai apareceu atrás de mim, ele abriu a porta.

Olhei para o vovô encurvado sobre a pia, vermelho muito além do bronzeado, suando.

—Sai, daí – falei. – Tá abafado aí dentro, vou pegar um copo d’água – e sai para a cozinha.

—Seu avô está bem? – Mamãe se virou.

—Não sei – franzi a testa. — Ele está tossindo demais, mãe…

Enchi um copo com água fresca, o vô se aproximou com meu pai e sentou à mesa.

—Eu tô bem, po. – Resmungou entre tosse. Bebeu um pouco de água, em seguida seus olhos reviraram, os dedos afrouxaram no copo e ele perdeu a consciência. Meu estomago despencou, junto com o copo estilhaçando, meu pai aparou o vô nos braços, olhei de um para outro.

—Calma – meu pai exclamou com firmeza prendendo meus olhos. —Jasmin, pilote até a margem, vai! Pamela, pega uma almofada…

 Não ouvi o resto dos comandos. Cega, corri para o controle, percorri os olhos nos botões e alavancas, girei a chave, com esforço mantive o domínio para manobrar com cuidado, de vagar para não fazer movimento brusco e causar um acidente, e acelerei alucinada assim que o fiz. Apenas via as águas escuras como um vulto, avançando veloz, mas sem parecer vencer a distância até a costa. Eu queria correr para dentro e ver como o vovô estava, mas seu bem estar dependia de que eu continuasse acelerando. Mesmo dormente pelo desespero eu podia ouvir minha mãe chamando a ambulância.

 As luzes dos quiosques e resorts se aproximaram, o suficiente para eu ver o cais. Desacelerei aos poucos, salva vidas aguardavam no píer. Imediatamente meu pai passou por mim, antes de eu parar a embarcação ele se aproximou da plataforma com o meu avô nos braços.

 Ele foi colocado na maca, ali recebeu os primeiros socorros, quatro homens encima dele, verificando o pulso, respiração, possíveis hematomas, ossos quebrados, fazendo perguntas.

—Mãe, o que aconteceu?

—Não sei, filha… Os médicos vão cuidar dele, a ambulância já está vindo – segurou na minha mão.

Levantei os olhos ao céu escuro — Ah, meu Deus… —Suspirei de medo, concentrando minha fé no pedido de socorro.

 Faziam massagem cardíaca, o coração do vovô havia parado?! Era um burburinho só, várias pessoas pararam para olhar, a cinere soava ao longe, os salva vidas colocaram uma máscara de oxigênio no vovô e correram com a maca pela calçada de pedras até o gramado, a ambulância chegou estridente, ele foi transferido, meu pai o acompanhou. Desorientada voltei ao iate com minha mãe, nós calçamos os pés, vesti uma camiseta por cima do biquíni, pegamos documentos, a chave do carro e partimos para o hospital.

 Entrou a madrugada e nós ainda não tínhamos informações sobre o estado de saúde do vô Antony. Meu pai também não sabia de nada, disse que a maca desceu da ambulância foi levada às pressas pelos corredores, acompanhou até o impedirem. Podia não ser o melhor momento para eu revelar meu novo hábito do fumo, mas eu traguei três seguidos e quando voltei com café para meus pais eles sentiram o odor, no entanto, não se manifestaram. Ali na sala de espera haviam outra agonias, mas eu não quis ver, mantive os olhos baixos para evitar os outros que também esperavam.

—Boa noite. Os familiares do senhor Antony Saunière?

Levantamo-nos.

 —É, isso. Como ele está? – Papai encarou o médico.

—É necessário fazer uma série de exames, que já estão em andamento, para dizer com precisão. – Olhou de rosto em rosto, — mas posso adiantar que ele sofreu um infarto e no momento está estável.

—Foi grave? Nos dê mais detalhes – pediu minha mãe.

—Ainda precisamos dos resultados dos exames, senhora, para mais detalhes. — Fez uma pausa e prosseguiu, — o paciente teve uma crise de tosse que lhe causou falta de ar, taquicardia e consequentemente o infarto.

—Ele vai ficar bem? Foi grave? – Indagou meu pai.

—Não corre risco de vida imediato, mas só com os resultados poderei te dizer melhor.

—E quando saem esses resultados? – Impaciente papai inquiriu de sobrolho fechado.

—Até a manhã, senhor – o doutor grisalho fez um gesto com a cabeça, parecia exausto, ele falava em tom muito baixo. —Os exames emergências já foram efetuados e outros necessários estão sendo agilizados o mais rápido possível para que possamos tratar o paciente. Como o socorro foi rápido, menos de uma hora depois do acidente, os índices de sucesso são altos, maiores de noventa e cinco por cento. Já desobstruímos a artéria causadora do infarto, o fluxo de sangue foi restituído. O senhor Saunière já tem a idade avançada, por isso vamos verificar a taxa de colesterol, glicose e veremos quais caminhos tomar a seguir. Agora recomendo que vão descansar, pela manhã a partir das 9hrs poderão vê-lo – sorriu um pouco por fim nos explicando melhor a situação.

 Seguindo a recomendação do médico, nós voltamos ao iate para passar a noite. A viajem de carro foi silenciosa e quando chegamos minha mãe limpou os cacos pelo chão, meu pai sentou no sofá quieto e perdido em pensamentos, eu sentei no chão e ficamos os três tentando nos recompor, com a mente tomada por preocupações. Éramos só nós três, tudo o que tínhamos, era a nossa família. A ideia da perda de qualquer um de nós era assustadora demais.

 Papai disse que o vô Antony ficaria bem, “o velho é de ferro”, disse com convicção ao se retirar para o quarto. Ah, os dois tinham a mania de dizer isso, quando criança eu costumava acreditar, mas agora eu sentia muito medo.

 Mamãe me abraçou com força e nos beijamos, ela acompanhou meu pai, eu fui para fora, em busca de ar fresco, só conseguia respirar bem devagarinho. As imagens terríveis do vovô caindo nos braços do meu pai, o desespero e toda a correria não paravam de reprisar em minha mente.

 Sentei na grade de ferro, acendi um cigarro e liguei para a única pessoa que poderia me consolar; Peter. Nós conversamos um pouquinho, eu estava triste demais para falar muito, ele também sabia que não tinha muito o que dizer.

—Ele vai ficar bom – garantiu-me. — Me ligue assim que tiver mais notícias, quando precisar, não me deixe preocupado, e fique com o celular por perto.

—Tá — finalizei a ligação, com um suspiro ergui os olhos ao céu. Se Peter tivesse ficado mais um pouco…

                                              ๗

 Nós três pudemos entrar juntos, o vovô estava sentado, o cabelo desbotado desgrenhado, zapeando os canais da TV. Quando nos viu largou o controle de lado e meio que dando um pulo no lugar abriu um sorriso.

—Iae, Família! Que sustão eu dei em vocês! Como é que tão?

Estreitei os olhos, mas que velho cínico!

—Ah, seu… Fica de zoação numa hora dessas? – Papai se pronunciou antes de mim, cruzando os braços e se pondo à frente do leito.

O vô riu roucamente — que é que tenho? Gripe?

—O médico não conversou com você? – Mamãe sentou na beirada do colchão, atrás de mim.

—Ih, qual é? – Olhou de rosto em rosto, — pode falar.

—Você vai parar de fumar – afirmei séria.

—Mas que besteira… Por quê?

—Você teve um infarto…

—Hmm… Tá – murmurou pensativo.

—Tu tem que levar isso a sério pai. Tu já é velho, não pode ficar fazendo as asneiras que quiser – meu pai o encarou.

—Tony, meu filho. Vai pra merda – vovô sorriu.

Eu dei uma risadinha e em seguida meus pais também, o vô Antony parecia bem, com o senso de humor e atrevimento intactos.

—Com licença – o médico adentrou o quarto. — Bom dia. Como se sente Antony?

—Bem, bem! Pronto pra outra!

O doutor sorriu achando graça, — vá com calma. Tenho aqui os resultados dos exames e gostaria de conversar com vocês – indicou a porta.

—Não pode falar aqui? É bom que meu pai saiba que isso é sério – papai falou.

—Tudo bem – folheou a prancheta e começou. — O senhor Salnière já tem a idade avançada, já devia ter começado a ter cuidados de prevenção há pelo menos vinte e cinco anos. – Ergueu as sobrancelhas. - O primeiro cuidado é na alimentação, as taxas de glicose e colesterol estão muito altas, a pressão arterial também não está boa. O senhor também é fumante, a rouquidão da voz é sinal de que fuma há muitos anos, e isso favoreceu os problemas no coração…

 E seguiu-se um discurso explicativo sobre as doenças e remediações. Reeducação alimentar, cortando açucares, frituras e qualquer tipo de gordura, carne vermelha, massa. Erradicação do fumo e da bebida, exercícios físicos na medida saudável. Uma mudança radical no estilo de vida. Sinceramente, eu não via o vô Antony como aqueles velhinhos que caminham na praia de shortinhos curtos e que pedem alface e água no cardápio, mas aspirava com a alma que ele se esforçasse, eu cuidaria para que ele o fizesse.

Continua!! ;D


Guardo segredos, este é um prelúdio…  Será que o vô Antony seguirá as recomendações médicas e melhorará? E quantos aos pensamentos de Jasmin em relação a Peter e Santiago? Comentários por favor? *u*


Um honi :* 

Texto postado em 27/01/2014 | 1 note | Source | Reblog •

Nota inicial da autora

 Gente, as coisas se tornarão intensas. Os personagens, no caso o triangulo, sim, se tornará um triangulo amoroso, os três estarão com os sentimentos a flor da pele, estado de alerta do Bruno, confusão da Jasmin, acontecerão imprevistos que interferirão, Santiago revelará suas omissões, tudo estará à prova, em jogo!

Nos capítulos anteriores…

 "Ela me fitou longamente, sustentei seu olhar com veemência tentando decifrá-la. Jasmin se pôs de pé sem desviar os olhos, travamos uma luta silenciosa.
 Tão exuberante. Ela devia ter esquecido que estava com a camisa aberta e exibia os seios fartos no sutiã branco floral. Os lábios entreabertos e o olhar duro se fragilizou.
 Jasmin deu o primeiro passo para ir embora, eu quis impedi-la.
—O que achas de experimentar la foguera de estrellas amaña? – Sugeri me pondo de pé.
Ela parou e se virou devagar, eu aproveitei o momento de indecisão para me aproximar. Estiquei o braço e toquei em sua mão lentamente, primeiro os dedos até segurar-lhe a palma macia sob a minha. Jasmin olhou de nossas mãos para meu rosto, soltei-a deixando um chocolate. Ela gostava, aceitou e foi embora sem dizer nada.
 Flexionei o maxilar atordoado por seu comportamento, e Jasmin não devia ter pensado muito, talvez estivesse drogada. Porque estava indo contra tudo o que se firmara desde o começo. Porque era inacreditável que de repente ela estivesse agindo daquela forma. Porque no dia seguinte ela simplesmente estava lá; caminhando devagar pela calçada praiana no horário em que dizia o bilhete junto com o bombom que encontrou no capô de seu carro naquela manhã.

Incrédulo, serrei os olhos desconfiado, a observei caminhando por um momento tentando compreender o que ela pretendia. Eu não poderia saber, fiz muitas suposições, porém cada palavra que trocamos desde a primeira não tinha sido apagada de minha memória. Jasmin perguntara se eu queria jogar, eu afirmei, ela me desafiou dizendo que me faria desistir. Era essa sua intenção? Depois de fugir tanto enfim ela queria se arriscar?
 Eu a faria mudar suas ideias, fosse qual fosse suas intenções eu as manejaria a meu favor. No entanto nesta minha ideia não havia falsidade ou malicia, eu só queria transpor a barreira que existia entre nós. Eu sabia que não seria fácil, pois existia outro alguém em sua vida, mas nem isso me faria desistir. Jasmin omitia medos e inseguranças que para mim, eram evidentes. Essa era a minha brecha. Eu tinha muito a oferece-la, mas o meu grande defeito era encarar tudo dessa forma, tão cigana. 

 Olhou-me enviesado, e o sorriso pendendo da cabeça inclinada para o lado.
 Virei o rosto como se essa visão tivesse queimado meus olhos soltando um arquejar do fundo do peito. Busquei o som do mar como refúgio, ouvia-se apenas as ondas e os últimos estalos da fogueira. Depois desse meu gesto o silêncio que se vazia além disto redobrou, como uma segunda camada de cobertor, recobrindo a expectativa latente. Eu tinha muita consciência dos grãos de areia sob mim, do vento frio na minha pele, e do meu coração batendo forte. Mas nenhum de nós sabia o que estava acontecendo.
 Abri meus olhos outra vez depois de uma longa viajem dispersa, se tivesse como, eu teria recuado, mas só pude arregalar os olhos e trancar a respiração. Santiago soergue-se em um braço e apoiou a outra mão na areia colocando-se acima de mim, próximo o bastante para mexas de seu cabelo liso roçar no meu nariz. Ele me encarava através daquela cortina negra solta ao vento. Apenas seu rosto estava tão próximo.
 Sem reação continuei exatamente como estava, incapaz de mover se quer o diafragma para aliviar os pulmões retesados. Naquele momento eu senti muito medo, um pavor lancinante, olhando para baixo vendo o abismo.

 Santiago não seria como eles? Cheio de segredos, de caminhos desconhecidos, talvez cheio de dores… Talvez ele tivesse seus motivos, como Erik, e como Heathcliff.
 O meu instinto propício a vitorianos obscuros talvez fosse a minha condenação. Eu estava curiosa em relação a ele. Desde o início, eu lembro de tê-lo comparado aos vampiros e personagens obscuros de minha adolescência fantasiosa secreta.
 As minha ideais se fragmentaram e um novo esboço foi desenhado sem minha permissão, descortinou-se e eu tive visão do que me negava a admitir, mas até então não passava disso, um esboço difuso.
 Santiago parecia à deriva, em seu próprio mundo de infelicidade. Isso tudo era uma novidade para mim, eu estava atordoada.
—Respondendo a su pregunta; besarte no es mi mayor objetivo – rompeu o silêncio por fim. – Pensei que já tivesse entendido…
Abri a boca para falar, mas ele ergueu o dedo para que eu me calasse, eu nem sabia o que ia dizer.
—No voy ficar me repetindo. Usted precisa achar las respostas. – Fez uma pausa baixando os olhos, e terminou a frase em um sussurro mais para si mesmo. – É cedo demais.

 O crepúsculo seguinte se fez rosa e laranja no horizonte, mas as nuvens brancas deslizavam sobre nossas cabeças e o ar era quase frio.

 Uma bomba explodiu em meu coração, quando vi Peter fumando na portaria do condomínio. Estacionei na calçada e pulei para fora do carro.

—Peter! – Gritei atravessando a rua correndo.

Ele se virou com um sorriso nos lábios, os olhos procurando meu rosto. Subi os primeiros degraus, Peter desceu os outros, de repente devagar, nos abraçamos apertado. Sem conseguir falar, o senti junto a mim. Aquela sensação de estar inteira de novo.  

Capítulo 73 – E os caminhos se bifurcam 

—Aloha… – sussurrei ao seu ouvido.

—Aloha Jas – Peter riu baixo.

 Desvencilhamo-nos a fim de nos olhar no rosto.

—Eu não esperava, meu coração está pulando – falei ofegante, sorridente olhando em seus olhos.

—Desculpe, sempre esqueço de avisar – sorriu maroto.

—Hm rum – serrei os olhos e sorri. – Meu amor, vamos subir.

Peter me apertou o braço ao redor da cintura e nós subimos ao meu apartamento.

—O que houve? Tá mancando…

—Ah, queimei a sola do pé com brasa viva – dei de ombros.

 Ele não insistiu, estávamos imersos no momento de reencontro.

 Sentamo-nos na sala e ficamos a nos beijar por horas a fio. Nossos lábios ficaram intumescidos, os corpos frêmitos de vontade, D. Maria nos flagrou aos amaços no sofá, adiando carinhos mais profundos.

 Mudamos para a varanda, para aguardar o jantar, ambos estávamos famintos. E enquanto isso eu ouvi de lá da rua, na AV o rugir de um motor muito familiar. Olhei para baixo automaticamente.

—Sinistra… – Bruno elogiou.

Tentando disfarçar os olhos abertos demais e com a garganta fechada eu concordei.

—Vamos comer. Pensei em te levar na casa de meus pais, o que acha?

—Ótima ideia.

 Após o jantar regado, a vinho rose, nós nos entregamos ao desejo de nossa paixão. Fizemos amor lentamente, colhendo cada gesto, cada olhar, provando da fruta rara que nos era oferecida entre estações muito longínquas.  

 E percebi, mais uma vez: eu precisava dele para manter minha sanidade, sem Peter não havia equilíbrio. 

 O que seria de mim quando ele fosse embora outra vez? 

                                                ๗

 Caminhando de mãos dadas na rua.

 Pela calçada litorânea, o vento era frio. Apertei os dedos nos dele e seu braço junto ao meu. Na esquina Bruno comprou uma caixa de bombons, a qual minha mãe adorou.  Meu pai chegou do trabalho meia-hora depois e se juntou a nós na varanda, o vô acordou e com cara de sono chegou lá engrolando palavras.

 Eu só viria a perceber depois que tinha alguma coisa errada, algo que foi omitido naquela visita agradável e familiar; meu pai estaria se pondo contra, minha mãe estava preocupada e ambos duvidavam que Peter fosse bom para mim.

 Eram aproximadamente 0hrs, quando voltamos para minha casa, caminhando também. Dei-me conta de que esquecera do mundo no preciso momento em que avistei Peter, mas o balde de água fria, o tapa na cara, o soco no coração me atingiu na esquina.

 Peter parou na porta para acender um cigarro, enquanto eu entrei no bar para comprar duas latas de refrigerante. Assim que me entrei me deparei com Santiago, sentado a uma mesa no canto acompanhado por uma moça e dois homens. A mulher parecia ser alvo de disputa entre eles, mas suas investidas estavam inclinadas a Santiago, e ele parecia divertido em provoca-la com seu pouco caso. Sombrio e taciturno, ele bebia doses de whisky como quem bebe água. 

 O desespero me tomou. Olhei de Santiago para Peter tentando não chamar a atenção e denunciar a presença de um para o outro, nem a minha própria para Santiago. Mesmo sabendo que exatamente essa atitude o faria. Levei as latas de refrigerante ao balcão e paguei mecanicamente. Peter me observava, Santiago mantinha o flerte debochado na mesa próxima, meu coração batia forte.

 Dei o primeiro passo em direção a saída, Santiago ergueu o olhar encontrando os meus que furtivos desviaram para frente. Ele se levantou, a passos largos se aproximou, tudo aconteceu muito rápido. Peter soprou a fumaça, voltou com os olhos da rua para mim, eu sabia que Santiago estava bem ás minhas costas, ele o veria. Ambos se veriam!

 Minhas pernas ficaram dormentes, meus sentidos toldados. Por que eu me sentia tão culpada? Era culpa o que eu sentia? Porque eu queria mantê-lo oculto. Por medo. Mas de quê? 

 De repente a consciência e lembrança da ousadia de Santiago queimou em minha mente, a desconfiança reacendeu e eu temi que ele fizesse qualquer coisa que eu nunca desejasse. A oportunidade estava diante de si. Apenas se revelar presente seria uma afronta. Porque seu objetivo estava claro, tão quanto seus olhos.

 Senti o roçar de seu sobretudo de couro preto em meu braço antes de esbarrar no ombro de Peter ao atravessar a porta. Peter tirou o cigarro dos lábios e avançou vendo que o bruto não pediria desculpas, ele chegou a indagar aborrecido, mas Santiago não olhou. Vi sua sombra caminhar a passos duros e rápidos até a Harley Davidson, Santiago subiu na moto e acelerou furioso, dobrando a esquina. Atônita, eu o observei ir embora. Dei o último passo para fora do bar e franzi a testa para Peter, ele fechou o sobrolho brevemente dando de ombros em seguida, pôs a mão em minha cintura para sairmos dali. 

Ele bufou, mas após alguns passos e tragos Peter me olhou e sorriu.

—Está gelado? – Indicou as latas de refrigerante em minhas mãos. 

Pestanejei — tá, até esqueci delas.

—Está cansada?

—Sim, mas eu ainda estaria acordada a essa hora, na biblioteca ou ao telefone com você.

Peter sorriu torto, as covinhas marcando nas bochechas morenas. —Então vamos pra sua casa fazer amor – pegou na minha mão e a beijou.

 Eu não sabia se Bruno havia reconhecido Santiago, eu tinha que contar a ele. Eu era incapaz de enganar a Peter, jamais. Não seria desonesta com a o que de mais sincero acontecera na minha vida. Mas por esta noite, eu decidi, me entregaria ao misericordioso refúgio de seus braços. Depois eu pensaria.

                                              ๗

 Uma noite, apenas isso. E meu coração se partiria mais um pouco.

 Mesmo que ele sempre voltasse nada curaria as feridas que as despedidas me causaram.

 Hesitei, por não querer romper a frágil harmonia de nossa breve reunião. Mas Peter me conhecia o suficiente para perceber que havia algo de errado comigo, que meu coração estava inquieto e eu queria dizer algo.

—Jas… A angustia que vejo em seu olhar me preocupa – disse erguendo meu queixo. —Está triste por eu ter que ir logo?

—Sim… Mas não precisa se desculpar, sei que não há o que dizer – murmurei ressentida. 

E não havia mesmo, ao menos em relação a isso não havia.

 Desvencilhei-me de seus braços, escorreguei para a beira do colchão de maneira a ficar de frente a ele. A suas costas a nossa fotografia no porta-retratos grande, na mesa de cabeceira um talhinho de embalagem de preservativo e o material de primeiro socorros que acabáramos de usar para estourar a bolha do meu pé. Eu não tinha medo de agulhas, mas fingi porque Peter estava se divertindo, e sua risada marota me fazia rir também.

A maneira de falar é muito importante… – lembrei a mim mesma.

—Não sei como dizer isso… de maneira que pareça menos incrível e até absurda. – Comecei e de repente me sentindo corajosa continuei, Peter me fitava nos olhos. —O mesmo homem que ficou a fim de mim no Hawai’i está aqui no Rio, trabalhando na agência de modelos onde Amanda e Mike trabalham. Você lembra dele?

 Peter não respondeu de imediato, manteve a expressão indecifrável e inexpressiva, em seguida seus olhos ficaram calorosos de novo e ele disse;

—Eu me lembro – em tom neutro.

—Eu soube que era ele porque é fotógrafo e cobriu o aniversário de Amanda e o casamento de Júlia – senti como se estivesse pisando em campo minado. – E porque ele me reconheceu.

Olhando fixamente em meus olhos, perguntou; Se engraçou pra cima de você?

—Não – proferi com insegurança audível, mas não era mentira. Santiago nunca me impôs nada, a não ser sua presença circundante. Mas nunca fisicamente, o que era a questão ali. No entanto a pergunta na verdade era se ele se manifestara atraído por mim, e sim, Santiago fez mais que isso, ele falou com todas as palavras.

 Peter ficou em silêncio, pensativo. Raciocinei em como expor a presença de Santiago sem mentir, mas sem contar suas atitudes excêntricas. Isso seria demais… Aí despertei. Eu havia cometido um erro terrível! Por isso não contava tudo, porque eu me envolvera. Fato que me assustava tanto que eu não podia pensar, não conseguia proferir.

—Era aquele homem no bar?

Levantei os olhos e fiz um meneio de cabeça – era ele sim.

—Por isso esbarrou em mim – pôs-se de pé, eu recuei no colchão para continuar com ele a vista.

—Você me disse que ele… Paparazzi desgraçado… – praguejou, se perdendo em ideias que se esclareciam, ou lembranças que viam à tona.

—Bruno você o conhece? Lembra que o chamou de Michael? Naquela tarde na praia?

—Sim, é o nome artístico.

—Foi assim que se apresentou aqui, mas como Miguel Salazar, o que seria a versão original do nome!

—Sei… 

—Na festa de Amanda, eu conversei com ele. Não reconheci, estava, e ainda está com a aparência diferente. E como o chamavam por Miguel…

—Mas e quando soube que era ele?

—Ele me chamou pelo nome – franzi o cenho ao recordar. 

—Coincidência? – Estreitou os olhos me encarando.

—Não sei – sentia-me transtornada, mas de certa forma aliviada por estar discutindo aquilo. Quem sabe poderíamos entender juntos?

—Ele te procurou? Fez perguntas?

—Algumas vezes, nos esbarramos algumas vezes… Nunca fez perguntas.

—Pode ser que venha atrás de furos pra revistas… É surpreendente a que ponto chegam! Mas isso seria demais. Talvez uma visita para averiguar – passou a mão no queixo. — Você disse que ele está aqui a trabalho? Quanto tempo? 

Fiz que sim – dois meses, mais ou menos…

—Não esqueço que ele disse querer você, Jasmin – sorriu, eu não soube discernir se havia sacarmo ou divertimento sincero e despreocupado.

Pestanejei desconcertada.

—Duas opções; paparazzi fiel ou um louco. É a primeira coisa que passa pela minha cabeça. – Se aproximou, pondo as mãos entre meus cabelos. —Preciso ter certeza de que ele está aqui realmente a trabalho e não tem nada a ver com você ou comigo, se é caso de fazer denúncia… Mas pode ser apenas coincidência – ponderou.

 Arregalei os olhos com o rumo que a questão tomava. Eu não tinha certezas, nada claro, nenhuma conclusão esclarecida, além de que Santiago dissera que eu seria dele. Quanto a ele estar ali apenas por mim, a ser coincidência a proposta de trabalho oportuna eu ainda não sabia.

—Não acho que isso seja necessário – refleti em voz alta, levantando da cama. Eu achava que podia lidar com isso, com Santiago. —Ele trabalha mesmo na agência, disseram que foi difícil convencê-lo a vir para o país. Mas é muita coincidência mesmo – ergui as sobrancelhas dando de ombros.

—Hm, é –Peter me abraçou e inspirou entre meu pescoço e cabelo. 

—Você se irrita muito com os paparazzi não é?

—Nem tanto… Mas esse em especial.

—Por que? – Arrisquei.

Peter se afastou para me olhar. —Ás vezes simplesmente não nos damos bem com uma pessoa.

Concordei, ainda mais alguém como Santiago. 

—Sei como é.

—Então… – Suspirou. – Eu confio em você. Qualquer coisa me fale…

—Tá… – Deslizei as pontas dos dedos na curva de seu maxilar, embriagada por sua presença, sua essência, lembrando que em algumas horas ele ia embora outra vez. —E agora o que acha de visitar meu frigobar?

—Aquele da suíte, ao lado da banheira espumante? – Sorriu mordendo o lábio inferior ao me apertar contra seu corpo.

—Lá mesmo… – Colei nossos lábios brevemente — e depois no chão… Na parede… – Sussurrei entre beijos.

—Você tem morangos aqui? – Murmurou na minha boca.

Eu ri – acho que sim! O que vai fazer com eles?

—Você vai ver… – mordeu minha língua, — ou melhor, vai sentir geladinho…

 Meu corpo tremeu em seus braços e eu ri outra vez, Peter me levantou em seu colo, abraçando apertado, me beijando de leve, a caminho do banheiro apertei o play e os gritos do M.J abafaram nossos suspiros através da porta.

๗BRUNO

 Estou deixando sua cidade, novamente. Estou sobre o chão que você vem rodando, e estou suspenso no ar Jasmin, querida eu consigo ver o seu prédio daqui. 

 E se o avião cair, maldição! 

 Eu lembrarei onde o amor foi encontrado.

 Vinte e quatro horas depois, olhando através da janela do avião eu tinha a sensação de estar voltando a realidade. Ir embora me fazia sentir distante, mesmo ainda sentindo sua mão na minha, seu amor em meu peito. Era a sensação de estar deixando-a para trás, de estar abandonando-a. Mas eu voltaria logo, assim que pudesse, porque eu precisava tanto dela. Minha mente se tomava pela outra realidade, a que me esperava de volta. Parte de mim ficava, com ela. 

 Eu remoía ainda, desconfiado, da presença daquele homem na mesma cidade. Quando Jasmin me contou eu fiquei sem reação, sem palavras e intrigado. Algo me dizia que ele ali e eu tão longe estava tão errado! Jasmin é exuberante, uma mulher que chama atenção, eu mesmo fui vítima de seu fascínio na primeira vez que a vi e não pude ir sem saber se a veria outra vez. Seja minha – eu pensara. O que um homem não faria por uma mulher como ela? Eu viajei oceanos, e ele?

 Isto era algo que me inquietava. Haviam muitas possibilidades, poderia ser coincidência, seria possível o fotógrafo ter viajado ao Brasil para conquistar Jasmin? Ou flagrá-la em momentos cotidianos e vender a alguma revista norte-americana como a minha namorada? Ou ele estava ali por acaso, sem intenções?

 De uma coisa eu tinha certeza, se a encontrasse, não perderia oportunidade. Eu o conhecia o suficiente para não duvidar disso.

 Há pouco mais de um ano, durante um trabalho na Vogue, eu conheci uma garota. O nome dela era Fabrícia, uma linda espanhola, morena de cabelos longos e lisos. 

 Assistente do Michael, ou Miguel Salazar, e só depois fui a descobrir que era também sua ex-namorada. Depois, quando começamos a sair. 

 Não, eu não a amava, mas Fabrícia era uma garota sensual. Nós saímos algumas vezes, eu nunca cheguei a conhece-la realmente, mas percebi que estava presa a ele, talvez o amasse, e Salazar sempre ia embora, voltando depois e fazendo o que queria dela, onde quer que Fabrícia estivesse a achava e a atraía. 

 Além de seu ar prepotente e arrogante, Salazar e eu nunca nos demos bem, desde o início, sentimento recíproco e até então sem motivo. O trabalho foi realizado entre hostilidade e indiferença, obviamente ele não gostou nenhum pouco que Fabrícia estivesse dando mole para mim.

 Ao final eu larguei mão da moça, não queria me preocupar com garotas problemáticas feito ela. Não dei importância, e de longe, vi que ele era um colecionador, Salazar gostava de possuir as mulheres, mas não queria tê-las. 

 Sem compromisso com a Vogue ou qualquer outra instituição vendia suas fotos como queria e para quem queria, seu trabalho era excelente, sem dúvida, mas dentre essas fotos houveram invasões aminha privacidade, o que me incomodou muito principalmente ao saber de quem fui alvo. Uma provocação talvez.

 Não o odiava entretanto, não sou o único a ser seguido ou vítima de ovações falsas pela mídia, nem apenas por Michael. Não havia rivalidade apesar de tudo, e depois quando nos encontramos em outros eventos até nos cumprimentamos como amistosos conhecidos. O mais recente desses encontros foi há quase um ano, no Hawai’i. Quando fui buscar Jasmin na praia e os encontrei conversando.

 Este acontecimento me intrigou um pouco de início, mas não dei importância. Isso mudou no luau na praia Mahina dias depois, ao vê-lo segurar o queixo dela próximo ao seu rosto, falando-lhe de tão perto. Eles não estavam apenas conversando, Michael Salazar dava em cima dela deliberadamente. Eu queria ter vencido o tumulto de pessoas dançando e chegado à mesa de bebidas a tempo. 

 Jasmin que há pouco havia sido tão minha, eu ainda sentia a leveza, a paz restaurada que encontramos juntos depois de toda a tensão pela suspeita de gravidez. Sempre tudo foi tão intenso, tanto que meus sentimentos e sentidos estavam sempre a flor da pele. E vê-lo cobiçando-a me tirou do sério, ele, Michael Salazar. Sai, me afastei da festa para esfriar a cabeça, Jasmin não merecia meu aborrecimento, sem dúvida eu descontaria nela e diria coisas das quais me arrependeria. E mesmo assim eu a magoei por desconfiar dela. Ela fora atrás dele! Mesmo que para confrontá-lo, Jasmin não devia ter feito isso.

 Ela disse que ele fora ali flagrar artistas de férias, eu era um dos principais alvos, e depois de vê-la comigo a queria. Rá! Que audácia, muita petulância! Mas ele que tentasse, Jasmin não seria um de seus brinquedos, eu não permitiria. Porém quando me pus a espera, soube por Ever que ele havia ido embora, e não se sabia para onde. Imaginei que não tivesse dado tanta importância, dei de ombros e esqueci.

 Agora, Jasmin me diz que ele está no Brasil.

 Meus pensamentos engrenavam com ranger agourento, Michael estava na mesma cidade que Jasmin, ele iria atrás dela, eu tinha total convicção.

 Preso onde estava, senti raiva. Eu tinha que voltar a Los Angeles. Alguns dias de viajem para passar um ao seu lado era o máximo que eu podia fazer no momento. Phil e Ari seguraram para mim, mas eu não podia me ausentar por tempo demais. E ainda tinham os eventos sociais por decreto da justiça, as horas a cumprir em trabalhos comunitários.

 Eu voltaria ali mais vezes, sempre que pudesse. Estaria mais atento. Eu queria estar ao lado de Jasmin para cuidá-la, no entanto eu não podia, sabia disso. Sabia também que devia estar mais presente, porém quando pousei em L.A fui arrastado novamente para dentro da avalanche Hollywoodiana. A inquietação ainda habitava em minha mente, mas era bombardeada por ventos obtusos que me cegavam. 

 Meu ego, meu orgulho, meu egoísmo.

 Os caminhos começavam a se bifurcar, estávamos suspensos, perdidos no espaço. As duas coisas que eu mais presava, convergiam em direções opostas. Querendo abraçar o mundo com as pernas. Eu pensava que estava fazendo a coisa certa, mas não vi que estava escolhendo o caminho errado.

 Ás vezes deixamos o que mais amamos ir, achando que estamos fazendo o suficiente, e só nos damos conta quando já não o alcançamos mais. 

Continua!!

Comentários, por favor? *-* Expresse-se!

Mahalo por lerem e voltem sempre, e sempre! Rá! Honis :**

Ps. O clima é exatamente este, intrigante! Teremos surpresas, conflitos intensos, coisas que se acumulam e revelam aos poucos. Quais suas curiosidades? Vamos matar a maioria delas no capítulo 75!  E neste? Gostaram de saber, enfim, que relaçao Peter e Santiago tem? :D

 

Texto postado em 24/01/2014 | 0 notes | Source | Reblog •

Capítulo 72 - Então eu soube de uma vez, era um ponto sem retorno

No capítulo anterior… 

"Ele recuou um passo e largou meu braço. Seu rosto se fechou novamente e ele parecia estar olhando alguma coisa ao longe, algo terrível e doloroso que só ele podia ver. Um olhar tão perdido e assombrado que eu fui para o lado dele antes que pudesse me dar conta do que fazia. 

 Lembrei de repente da festa de Amanda, de ter sentido simpatia pela reclusão obscura daquele homem de barba, que até então eu pensava se chamar Miguel. Recordei de ter me identificado e reconhecido o sentimento de desorientação naquele olhar afiado e o pior era que eu sabia apreciar a vista de cima do penhasco, e me sentia tentada a me jogar.

 Erik, o Fantasma da Ópera. Ele amou Christine com todas as suas forças, deu-lhe sua música, na necessidade de se sentir amado fez de ações inescrupulosas para alcançar o coração dela. Erik, “pobre Erik”! Só lhe faltou ser amado para ser bom.

 E Heathcliff… Oh, seus sentimentos viscerais o levaram a outro nível, além da compreensão racional, em um amor além da morte. Ele foi cruel, vingou-se de Cathy por ter desistido, por ter sido tão egoísta e mesquinha! Foi devastado, seu coração despe 

daçado, tão cego em suas dores, tão humano em sua vingança! 

 Eu os compreendia, eu os adotara. Eram personagens fictícios, mas eu sentia suas dores e as abraçava, porque nelas eu via a raiz do meu próprio suplicio. Todo mundo tem um lado obscuro. 

 Santiago não seria como eles? Cheio de segredos, de caminhos desconhecidos, talvez cheio de dores… Talvez ele tivesse seus motivos, como Erik, e como Heathcliff.

 O meu instinto propício a vitorianos obscuros talvez fosse a minha condenação. Eu estava curiosa em relação a ele. Desde o início, eu lembro de tê-lo comparado aos vampiros e personagens obscuros de minha adolescência fantasiosa secreta.

 As minha ideais se fragmentaram e um novo esboço foi desenhado sem minha permissão, descortinou-se e eu tive visão do que me negava a admitir, mas até então não passava disso, um esboço difuso.

 Santiago parecia à deriva, em seu próprio mundo de infelicidade. Isso tudo era uma novidade para mim, eu estava atordoada.

—Respondendo a su pregunta; besarte no es mi mayor objetivo – rompeu o silêncio por fim. – Pensei que já tivesse entendido… 

Abri a boca para falar, mas ele ergueu o dedo para que eu me calasse, eu nem sabia o que ia dizer.

—No voy ficar me repetindo. Usted precisa achar las respostas. – Fez uma pausa baixando os olhos, e terminou a frase em um sussurro mais para si mesmo. – É cedo demais.

—Você me confunde.

Ele sorriu enviesado fazendo um meneio com a cabeça para o lado. Andou para trás, e subiu na moto.

—Você também – falou em português, partindo de imediato.

 Ouvi o ronco do motor potente ressoar na Avenida vazia até esvaecer, balancei a cabeça aturdida e subi as escadas mancando.”

Capítulo 72 - Então eu soube de uma vez, era um ponto sem retorno 

 De repente você se vê numa circunstância completamente nova e inesperada. Inusitada. Um cenário que se descortinou sem sua permissão.

 Novas peças de você.

 Isso geralmente acontece depois de um grande conflito, do qual só se pode sair deixando coisas para trás. Quando tudo se embaralha e você já não se reconhece. E não há escolha. As coisas acontecem, não podemos evitar que mudem. Laços simplesmente se rompem, portas da mente e do coração se fecham, outras se abrem. Simples porque não há explicação, e isso é um complexo. Mudar assim é como deixar de ser você, se trair abandonando aquilo no qual acreditava, o que costumava ser sua razão. Ou acreditar em uma nova verdade.

 Mas a alma precisava de revolução e se você não tem coragem seu subconsciente o faz sem autorização ou aviso prévio. Você só se adapta porque é assim que as coisas são agora, porém ainda é incapaz de entender ou lembrar como tudo começou.

 Na manhã seguinte não fui trabalhar, acordei ás 11hrs e quis continuar dormindo o resto do dia. Sentia-me em uma bolha de torpor, entorpecida em relação a tudo o que acontecera.

 D. Maria estava limpando a biblioteca quando levantei, trinquei os dentes de preocupação por ela estar mexendo no meu espaço particular, mais até que meu quarto. Acabei ajudando-a na arrumação, para garantir que organizasse tudo sem que quando eu voltasse ali ficasse perdida.

 Na noite anterior eu tomara banho, limpara a queimadura com soro fisiológico e enfaixara com atadura. Hoje a sola do meu pé repuxava e era impossível encostar no chão. D. Maria ralhou comigo dizendo que não se pode abafar uma queimadura e refez o curativo apenas com uma gaze, na sola do meu pé agora tinha uma bolha imensa. Isto era muito incomodo.

 Passei a tarde no quarto, após o almoço.

 Imprimi fotos de Los Angeles com Peter, colei na parede preta de meu quarto junto com as do casamento de Julia e do aniversário de Amanda. Peguei da cômoda os dois filtros de sonhos que Anny e sua amiga Arya me deram, pendurei ambos na janela. Depois na biblioteca, peguei O Morro dos Ventos Uivantes e voltei ao quarto, dentei na cama próximo a janela e permaneci horas a fio lendo o romance trágico. Perdendo-me naquela dimensão devastadora, girando na cama, mais tarde deitando no chão, de pernas para o ar, de cabeça para baixo.

 Percebi-me triste, desta vez permitindo que o sentimento tomasse meu coração, cansada de aguentar firme. Mergulhando fundo para ver o que tinha por dentro.

 Ao pôr do sol desci a praia, na tentativa de deixar o vento varrer meu pensamento. O céu estava nublado, a areia vazia. Sentei em um dos bancos de concreto, Santiago parecia saber que me encontraria lá.

 Ele chegou quando começou a chuviscar e a escurecer.

 Com o celular na mão, passei fotos. Fotografias de Peter e eu no Hawaii, e nossos amigos nas pedrarias. A trilha a caminho do penhasco.

 Por alguns minutos eu revivi aqueles momentos, os dias de sol e despreocupação. Sorri com saudades, senti o coração chorar e guardei o celular longe de meus olhos.

 A oeste um buraco no céu cinza, o olho da tempestade que chegava. As ondas escuras faziam um barulho abafado. Vi o vovô sentado ao longe, na extremidade oposta do calçadão, fiquei o observando conversar gesticulando com os amigos. Grossos pingos de chuva começaram a despencar, virei o rosto para o mar.

 Ele chegou junto com a chuva e a noite.

                       

—Oi – Santiago falou.

Virei o rosto para vê-lo. Mãos nos bolsos do jeans preto, cabelo molhado colado na testa, expressão séria.

Comprimi os lábios – oi.

—Como é que está su pé? – Sentou-se ao meu lado no banco.

—Com uma bolha horrível.

Ele não respondeu, fitava o mar a frente como eu. Alguns momentos depois disse;

—La tempestad que chega é da color de sus ojos castaños – em voz baixa.

—Essa frase é de uma música.

—Yo sei.

Eu ri baixinho, com um tempero de tristeza.

—Lo que fue eso? 

—O que? – Fechei o sobrolho olhando-o com altivez.

Santiago sorriu de canto de boca e perdeu o olhar em meu rosto, fitando-me intensamente. Sustentei um breve instante, e desviei os olhos para as mãos lavadas pelos pingos de chuva que aumentavam.

 Senti a água gelada caindo no topo da minha cabeça, por meus braços, entrando nos olhos, encharcando minha roupa por completo. Olhei para minha bolsinha de couro, tranquila por meus pertences estarem protegidos. Eu trazia comigo uma fotografia de Peter.

 Aproximei as pernas para junto do corpo, abracei-as e recostei na trave fincada na areia. Santiago apoiou um braço no tronco de árvore, as pernas esticadas, o cabelo encharcado. 

 Nós não dissemos nada, até a chuva amenizar muitos minutos depois. 

 E não falamos até o céu escurecer por completo. 

 Pontinhos de luz começaram a brilhar, as lâmpadas dos postes e das casas. Uma melancolia silenciosa e compartilhada.

O mar soprava, eu estava sentindo frio, comecei a tremer.

—Yo gustaría de un café ahora – ele falou.

—Eu também…

E simultaneamente nós dois nos pomos de pé, caminhamos pela areia até a calçada. Santiago não se ofereceu a me ajudar, eu mancava, mas minha postura era bem clara.

—No nos deixarão entrar… – Passou os dedos entre os cabelos.

Olhei para ele e sorri torto – podem não gostar, mas eu entro.

Ele riu baixinho – sabia que ia dizer eso, yo concordo.

Abriu a porta para mim, sorri ao adentrar no recinto, as pessoas nos olharam imediatamente. Fui até uma das mesas no canto e sentei, Santiago sentou à minha frente.

—Está tudo bem com vocês? – Uma garçonete veio até nós.

—Si, solo pegamos la chuva e después caímos de motocicleta. Pero estamos bien – falei seriamente e sorri em seguida.

A garçonete e Santiago me encararam por um instante, confusos.

—Oh, okay. – A moça sorriu em dúvida, - gostariam de um café?

—Un cappuccino, por favor – pedi.

Santiago me lançou um olhar semicerrado e um sorriso reprimido.

—Un café prieto, por favor – ele pediu sem olhar para a moça, mantendo os olhos em mim.

Quando ela saiu Santiago disse;

—No sabía que hablas español. Tu voz fica muito sensual, sabia? – Sorriu.

—Eu não falo muito bem, mas entendo, e com você falando assim agora fica fácil aprender o sotaque – dei de ombros.

Santiago comprimiu um pouco os lábios e moveu um pouco as sobrancelhas.

Silêncio.

O café chegou a nossa mesa, sorvemos calados, através da vidraça olhando a chuva que voltava a cair. Meus pensamentos eram mudos, vazios. Eu me sentia assim.

—É una pena yo no ter trago la câmera… – suspirou, mais para si mesmo.

—Eu me sinto assim em relação a papel e caneta… Essa chuva é uma boa inspiração – falei com tal naturalidade e espontaneidade, mesmo em tom sombrio, que estranhei. Mas eu sentia liberdade para falar, senti vontade e fiz.

 Santiago olhou para mim, a surpresa foi expressa de seu jeito único; com cerrar de olhos e movimento com as sobrancelhas por um instante.

—Usted escreve?

Fiz que sim. —Quando se lê muito a escrita é uma sina.

Ele sorriu, um sorriso doce e pensativo. – Sobre lo que escreve?

—Algumas coisas… – Baixei os olhos, ele sorrira docemente. – Textos, crônicas, resenhas, pensamentos… Artigos sobre psicologia, talvez alguns capítulos de um livro.

—Sobre lo que sientes e lo que piensas. Yo nunca escribí… La única forma de expresión siempre fue la fotografía.  

Meu celular tremeu na bolsa, pestanejei e conferi, era uma mensagem de Nina. Depois eu falaria com ela, precisava mesmo falar com ela. Levantei os olhos, Santiago desviou os dele.

Uni as sobrancelhas, Santiago era muito introspectivo. Mas agora, no entanto, eu estava começando a enxergá-lo melhor. Mesmo que ainda tateando no escuro.

 E onde eu pensava que chegaria? O que eu faria com o que descobrisse? Eu não tinha nenhuma intenção, nenhum propósito nisso.

 Porém, ele tinha.

 A noite era silenciosa, tranquila no berço da escuridão. O ar fresco, ventava e os galhos das árvores produziam um murmúrio inerte. Ambos taciturnos, caminhávamos na calçada molhada. 

 Para mim, era desconcertante levantar os olhos e ver quem estava ao meu lado. Santiago era uma peça fora do cenário, eu nunca imaginei incluí-lo na mobília, mas ele já ocupava um espaço que tomara para si com obstinação intrigante. Foi impossível impedir, ele não pedira permissão.

 Era estranho como o silêncio entre nós parecia exatamente o que ambos precisávamos. E talvez não houvesse outra pessoa com quem eu pudesse compartilhar tal tristeza. E nem ele.

“Você quer tomar meu suplício para si. Você quer viver minha aflição.” Eu disse a Santiago em pensamento.

“Por quê? Para quê? Não tem uma vida em outro lugar? Alguém que ame esperando por você?” Senti na ponta da língua, mas não proferi. Não pude, não era o momento.

 E imaginei em que ele estaria pensando. Talvez fizesse indagações semelhantes às minhas, talvez mergulhasse em pensamentos silenciosos e obscuros como os meus. 

 Paramos na calçada. 

 Santiago sorriu de leve – hoje yo termino de revelar las fotos. Amaña as entrego a usted.

—Tá – assenti.

 Ele meneou a cabeça, uma mecha de cabelo caiu nos olhos. Elevei os meus ao céu; escuro, e limpo outra vez.

 De repente você se vê numa circunstância completamente nova e inesperada. Inusitada.

                                                   ๗

Ouvi o ronco do motor aumentar gradativamente, se aproximar veloz surgindo na esquina, e Santiago parou a minha frente, encostado no meio-fio.

—Onde vamos hoje? – Subi na Davidson.

—Segure firme! – Falou por sobre o ombro e acelerou. Agarrei-me na sua camisa indiana e mordi os lábios para reprimir a risada, efeito da adrenalina.

 O sol queimava nossos rostos, o vento da velocidade refrescava nossa pele.

—Você não me ofereceu um capacete!

—É porque no tengo un!

 Olhei para cima outra vez, o céu estava miosótis. Às 7hrs da manhã Santiago costurou pelo trânsito e me levou a uma confeitaria. O ambiente era claro, decorado com peças brancas e vidraçarias. Colorido pelos doces e pôsteres referentes a eles.  

—Já veio aqui? – Santiago me conduziu ao balcão da vitrine.

—Sempre passei pela rua, mas nunca entrei.

 A vitrine era extensa, fora a fora repleta de bolos, biscoitos, roscas, e mais uma variedade absurda de doces decorados com mesura para encantar aos olhos e dar água na boca. Em cima do balcão, baleiros com pirulitos, jujubas e chocolates. O sol banhava as mesas, quem imaginaria que pessoas iam a lugares assim logo de manhã? Santiago.

 E ele não era o único, as mesas eram ocupadas por uma quantidade razoável de clientes, entre 10 e 25 anos, que tomavam o café da manhã.

 —Muita variedade no é? – Santiago olhou para mim, os cotovelos sore o balcão, olhos analisando os doces através do vidro. 

Eu fiz que sim — aqui tem café?

Santiago deu uma risadinha e olhou para mim – yo sei que no puedes ficar sem, aquí ten lo que quiser con cafeína.

 —Tá então eu quero um cappuccino de canela, um coockie e um bolo desse aqui – indiquei o bolo de merengue. 

—Posso hacer una sugestión?

—Hm?

—Este aquí – apontou para um bolo aparentemente cremoso, na cor caramelo. —Casa con la canela de su cappuccino. É torta de pêssego con alguna cosa que a deixa muito gostosa.

—Tá, eu gosto de pêssego. E você vai comer o que?

—Lo mesmo que usted, me parece una boa pedida. — Santiago sorriu, um gesto espontâneo e livre de qualquer outra coisa a não ser apenas o sorriso que ainda me causava estranheza.

 Fizemos nosso pedido, ele pagou. Sentamos a uma mesa parcialmente ensolarada, próximo a vidraça.

 Sorvi um pouco de cappuccino, ele fez o mesmo, e quase em sincronia cortamos um pedaço da torta com o garfo e levamos a boca. Quase gemi de tão gostosa que era. Olhei para ele sentindo vontade de sorrir, por isso muitos usam comida como antidepressivo. Doce é uma droga!

 Dei outro gole no cappuccino e outra garfada — Porra isso é muito gostoso.

 Santiago riu, concordando com um meneio de cabeça.

—Qué ver las fotos ahora?

—Hm, claro. – E franzi o cenho, enrijecendo de tensão e inquietação. Quais de tantas fotos? Eu descobriria agora.

Santiago percebeu, mas não reagiu. Apenas abriu a mochila de camurça preta para pegar o notebook e também um envelope.

—Estas aquí são las de la noite retrasada – tirou as fotografias do envelope e distribuiu sobre a mesa.

Inclinei-me para ver. – Essa sou eu… Pareço uma bruxa!

—Exatamente.

Olhei para ele e dei uma risada.

—Usted és una bruxa sueca, ou escocesa. Repare em la saia del vestido, su cabelo rubro, alvoraçado… – apontou os detalhes.

—Ficaram tão… Sei lá. – Comentei confusa, admirada com os efeitos e ângulos.

—Gracias.

Peguei as fotos, juntei num maço e coloquei no meu lado da mesa.

—Hm, claro que poden ficar contigo. – Ele arqueou uma sobrancelha.

Dei de ombros.

—Se sentar aqui poderemos ver melhor – insinuou ligando o notebook.

—Coloque no meio, dá para os dois.

Para não se entregar, Santiago deu de ombros também e fez o que eu disse. O vi abrir as pastas dos documentos até uma intitulada “Luz do Sol”. 

Eu ri baixinho, achando graça, mas um pouco nervosa. Quis comentar mas não o fiz. Vi que a pasta continha apenas fotos minhas, no entanto não senti tanto medo ou irritação como deveria ou faria. Eu decidi que não tinha mais medo. Eu encararia, dominaria a situação. Então já que é assim…

—Luz do Sol? – Crispei o nariz, mas o título era lindo.

 Santiago me lançou um olhar significativo, mas não disse o que pensava. Abriu a pasta e as imagens carregaram rapidamente, ele virou a tela para mim. 

 Meus olhos percorreram as dezenas de fotos, perdidos e atônitos. Pelo menos trinta imagens, talvez cinquenta. Mas eu não brigaria com ele, e também não queria ver aquilo. Recuei e recostei na cadeira, não era agora nem assim que eu arrancaria seus segredos.

—Yo as tirei algunas veces quando a vi – contou.

—Sim, eu sei.

—Que pasa? 

—O que?

—Ainda ten medo de mi no é? – Fitou-me os olhos.

—Não – ergui o rosto e sorri.

—Qué experimentar la torta de amêndoa? 

—Só um pedaço, ainda tenho que ir trabalhar.

—Todo bien, yo te levo á Clinica rápido – sorriu.

Observação mental: ele sabia onde era?

A resposta veio logo; Sim.

Santiago pilotou velozmente até a Clínica sem pedir qualquer orientação.

                                                    ๗

—O que você tá fazendo?!

—O que? – Uni as sobrancelhas, com pastas de relatórios nas mãos.

—O que você tá fazendo?! – Nina repetiu exasperada, com os olhos arregalados.

—Bom, agora estou tentando estudar esses relatórios e exames, mas você fica ai gritando.

—Jasmin, não se faça de idiota.

Olhei para a tela do monitor, sentando a mesa.

—Você saindo com o Santiago! – Objetou esganiçada. — O espanhol taradão.

Eu ri alto. — Ai meu Deus! Santiago? Eu não estou saindo com ele!

—Ah, você tá sim! – Fez cara feia.

—Olha só, estou trabalhando, depois falamos sobre isso. Levantei outra vez e virei para a estante atrás de mim.

—Se você não falar disso agora, vai falar depois mesmo. –Fez uma pausa. - Mas eu não vou desligar. É difícil falar com você agora, então me diga o que está acontecendo. Myn, você tem se encontrado com o perseguidor! Quando me disse que ele tá ai eu pirei total! Agora você me diz que foi a uma cafeteria com ele! Tirou fotos! Que merda é essa? Você cansou do Bruno? Não aguenta mais esse vai e vem? Tá carente? Sabe que isso é confuso?

Girei nos calcanhares. – Não. Não fale assim! Como se eu pudesse cansar dele e pegar um substituto! Como se fosse fácil e fútil assim! Como se por mera carência ou fraqueza eu aceitasse os carinhos ou qualquer coisa que outro homem me oferecesse! Não é nada disso! – Apoiei as mãos sobre a mesa, encarando-a. — Nina, Santiago me intriga demais… Há alguma coisa sobre ele que me atrai. Não no sentido… Naquele sentido. Mas de uma forma geral.

—Hmm, sei. Ele é misterioso, introspetivo. Eu entendo.

Suspirei, olhando para o nada. —Eu não sei… Não tenho pensado muito.

—Não tem mesmo. Espero que saiba o que está fazendo, sabe que ele quer você.

—Eu sei… Mas por favor, vamos mudar de assunto. Não quero ficar discutindo sobre isso, não consigo. Entender…

—Myn, você tá ficando louca, assim, mais louca. É sério, problemas psicológicos graves.

—Também acho – franzi a testa comprimindo os lábios. — Vou procurar um psiquiatra.

                                                       ๗

 Ás 22h43 eu cheguei em casa, fui direto para a biblioteca e permaneci aproximadamente meia hora revisando e arrumando meu material de trabalho para o dia seguinte.

 Fui a cozinha, D. Maria terminava de arrumar a gaveta com panos de prato limpos.

—Oi, Jasmin – virou-se. – Hoje tem salada de legumes, frango grelhado e purê, quer que eu ponha? – Sorriu cansada.

—Ah, não… Bom, é melhor eu comer não é?

—A senhora tá casada até pra comer. – Sorriu. - Coma sim, tem que comer. Vai tomar banho que eu sirvo, deixo tudo direitinho aqui na cozinha.

—Tá, depois pode ir pra casa – sorri ao sair da cozinha.

 Após o banho, jantei sozinha na sala. Ouvindo Guns N’ Roses, olhando pela janela, quase pegando no sono.

 Um fim de dia comum e tranquilo com a habitual agitação mental pelo cansaço. 

 Ouvi também meu Pequeno Mike, History de 1995 deitada no sofá, já sem conseguir dormir. 

 Liguei para Peter, conversamos por mais de uma hora, e o sinal não aguentou mais tempo, a ligação caiu e depois não consegui retornar.

 O crepúsculo seguinte se fez rosa e laranja no horizonte, mas as nuvens brancas deslizavam sobre nossas cabeças e o ar era quase frio.

 Uma bomba explodiu em meu coração, quando vi Peter fumando na portaria do condomínio. Estacionei na calçada e pulei para fora do carro.

—Peter! – Gritei atravessando a rua correndo.

Ele se virou com um sorriso nos lábios, os olhos procurando meu rosto. 

Subi os primeiros degraus, Peter desceu os outros, de repente devagar, nos abraçamos apertado. Sem conseguir falar, o senti junto a mim. Aquela sensação de estar inteira de novo.  

Continua! :D

Eai menines?? Comentem! Mahalo por lerem e voltem seempre! Aloha!

Texto postado em 17/01/2014 | 0 notes | Source | Reblog •

Capítulo 71 – A Fogueira de Estrelas Explosivas

                       

                         

No capítulo anterior…

"Jasmin se pôs de pé sem desviar os olhos, travamos uma luta silenciosa.

 Tão exuberante. Ela devia ter esquecido que estava com a camisa aberta e exibia os seios fartos no sutiã branco floral. Os lábios entreabertos e o olhar duro se fragilizou.

 Jasmin deu o primeiro passo para ir embora, eu quis impedi-la.

—O que achas de experimentar la foguera de estrellas amaña? – Sugeri me pondo de pé.

Ela parou e se virou devagar, eu aproveitei o momento de indecisão para me aproximar. Estiquei o braço e toquei em sua mão lentamente, primeiro os dedos até segurar-lhe a palma macia sob a minha. Jasmin olhou de nossas mãos para meu rosto, soltei-a deixando um chocolate. Ela gostava, aceitou e foi embora sem dizer nada.

Flexionei o maxilar atordoado por seu comportamento, e Jasmin não devia ter pensado muito, talvez estivesse drogada. Porque estava indo contra tudo o que se firmara desde o começo. Porque era inacreditável que de repente ela estivesse agindo daquela forma. Porque no dia seguinte ela simplesmente estava lá; caminhando devagar pela calçada praiana no horário em que dizia o bilhete junto com o bombom que encontrou no capô de seu carro naquela manhã.

Capítulo 71 – A Fogueira de Estrelas Explosivas

 

 Incrédulo, serrei os olhos desconfiado, a observei caminhando por um momento tentando compreender o que ela pretendia. Eu não poderia saber, fiz muitas suposições, porém cada palavra que trocamos desde a primeira não tinha sido apagada de minha memória. Jasmin perguntara se eu queria jogar, eu afirmei, ela me desafiou dizendo que me faria desistir. Era essa sua intenção? Depois de fugir tanto enfim ela queria se arriscar?

 Eu a faria mudar suas ideias, fosse qual fosse suas intenções eu as manejaria a meu favor. No entanto nesta minha ideia não havia falsidade ou malicia, eu só queria transpor a barreira que existia entre nós. Eu sabia que não seria fácil, pois existia outro alguém em sua vida, mas nem isso me faria desistir. Jasmin omitia medos e inseguranças que para mim, eram evidentes. Essa era a minha brecha. Eu tinha muito a oferece-la, mas o meu grande defeito era encarar tudo dessa forma, tão cigana. Minha petulância e ousadia muitas vezes trouxeram mais complicações, mesmo que no final eu sempre desse um jeito.

 Eu não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo, na verdade eu nunca soube, em toda a minha vida. Apenas sempre fiz o que queria, sem me importar com consequências ou obstáculos, sem me comprometer. Mas agora não, pelo menos em parte. Porque agora pela primeira vez eu estava comprometido, e disposto a ficar. 

 Aproximei-me devagar encostado no meio-fio, atrás dela. A alcancei e continuei dirigindo vagarosamente para acompanhar seus passos. Avançamos alguns metros em silêncio e eu parei a moto, Jasmin ergueu o rosto e eu olhei em seus olhos fixamente, ela subiu na garupa segurando em minha camisa com as pontas dos dedos. Eu sorri e acelerei virando a esquina, a levei em um floricultura.

 Disse-lhe para escolher uma espécie de flor, obviamente Jasmin apontou para as rosas vermelhas. Sorri pensativo observando-a escolher a mesma cor para o laço de fita.

—Eso proba que lhe dar un presente na color rubra no sería un erro – observei. Recordando de sua crítica na primeira vez em que fui a sua casa.

Jasmin que até então não dissera uma palavra continuou quieta observando a florista cortar os caules e proteger os espinhos com um lenço escarlate. Abri-lhe a porta quando saímos, o crepúsculo caía e o céu era anil.

—O que vai fazer com essas flores? – Enfim se pronunciou, seu tom era neutro e os cachos ruivos enquadravam o rosto dela com extravagância encantadora.

—Cuando chegarmos yo te explico, suba. – Subi na moto, já com o dedo no acelerador.

—Cuidado com o tom, oh badboy – arqueou uma sobrancelha empinando o nariz e sentou atrás de mim, sempre mantendo o mínimo de contato possível. – E onde é que vamos chegar? 

—Já ando de moto alguna vez?

Ela demorou a responder. – Já.

—Pilotas?

—Ainda não.

Eu ri. – Un projeto para un futuro indefinido – arranquei fazendo-a apertar os dedos em meu ombro e as pernas nas minhas coxas, sorri comigo mesmo.

 Ao cair da noite, parei na estrada perto de uma trilha que dava em uma pedraria, eu não sabia o nome do lugar, era pouco afastado da cidade. Jasmin permaneceu quieta durante todo o percurso, eu também não falei, perdido em pensamentos confusos. Como de repente ela podia confiar em mim dessa maneira?

—Você não está pensando em se meter nesse mato não é? – Beliscou minha costela com força descendo da moto.

—Usted no tienes medo – serrei os olhos.

—Não, mas estou de sandálias. – Olhou ao redor, para as árvores escuras.

 Aquela tinha sido a resposta errada. Jasmin estava sendo imprudente, o que diabos estava fazendo comigo ali? 

—No se preocupe, é logo a frente. — Peguei minha mochila no baú de couro na lateral traseira da moto.

—Se é logo ali na frente por que parou aqui?

—Ansioso – falei simplesmente. 

 Ela não respondeu, começamos a caminhar em silêncio pelo asfalto prateado de lua serpenteado pelo mato. Apenas alguns metros à frente viramos a esquerda e despontamos na praia. Percorremos toda a areia até a extremidade, peguei um lenço indiano na mochila e forrei para ela sentar. Jasmin trajava um vestido, como na maioria das vezes, na cor vinho. O modelo era simples e discreto, mas ela não precisava de nada mais que isso para ficar linda. 

 Sob seu olhar juntei um monte de galhos e nacos de troncos de sal que achei na beira mar como uma pilha de ossos.

—Qué me ayudar?

Ela balançou a cabeça negativamente, me observava enigmática com o olhar distante. 

—Passa la mochila, por favor? – Estendi uma mão, concentrado em terminar de empilhar os galhos. 

Jasmin se inclinou, pegou a mochila e me entregou.

Virei o rosto para trás. — Gracias pela ayuda – sorri.

Ela revirou os olhos e virou o rosto, eu sorri outra vez e continuei minha tarefa. Fiz sanduíches de conchas e pólvora, distribuindo entre a madeira seca e quando terminei fui sentar ao seu lado.

—Ahora é só acender el fuego. E jogar las rosas – falei. 

Jasmin olhou para mim com surpresa. – O que?

Pestanejei e uni as sobrancelhas, flexionei o maxilar com força mantendo a concentração. – Usted… linda. Cuando yo acender el fuego yoga las rosas… Como un ritual.

—Você vai fotografar?

—Si.

Jasmin meneou a cabeça positivamente e levantou jogando o buque em meus braços. – Eu acendo.

—Tudo bem – franzi a testa, peguei o isqueiro no bolso e lhe entreguei.

 Observei-a ir até a fogueira, agachar e acender dois galhos finos, o vento soprou e apagou suas primeiras tentativas. Permaneci sentado, peguei a câmera na mochila, liguei, troquei as lentes e fiz os ajustes, vi de esguelha que ela xingava em voz baixa e tentava fazer barreira ao vento.

—Não quer acender! – Reclamou.

—Espere um pouco. – Levantei pendurando a câmera no pescoço, parei ao seu lado e lhe entreguei as flores.

Contornei o monte de galhos fazendo obstáculo ao vento, Jasmin colocou o buque na areia e aproximou o isqueiro aceso de um galho mais grosso.

                                           ๗JASMIN

 A mistura de pólvora e pedrinhas começou a explodir, estalos metálicos e estrelados, faiscantes; um pequeno espetáculo de chispas prateadas e douradas, azul-elétrico e vermelho. Santiago se jogou para trás caindo sentado na areia ao primeiro estouro. Foi com um tempero de surpresa e espanto que o ouvi dar uma risada quase infantil, o reflexo do fogo nos olhos de vidro.

 Ele ergueu a câmera e os flashs se juntaram ao pulsar de luzes, eu também cai sentada, olhando dele para a fogueira crepitante, e para mim mesma. Apavorada com o sentimento que me invadia, eu sentia vontade de rir também. Naquele cenário completamente novo e estranho eu não sabia como agir, não conseguindo dominar a mim mesma.

 Na noite anterior eu permiti que meu coração mergulhasse no precipício, ao perder a consciência e a linha de meus pensamentos. As minha ideais se fragmentaram e um novo esboço foi desenhado sem minha permissão, descortinou-se e eu tive visão do que me negava a admitir, mas até então não passava disso, um esboço difuso. E agora eu me sentia como no piloto automático…

 Ontem eu estava tentando pôr as cartas sobre a mesa, ver os elementos que compunham minha vida, tentando compreender a peça que Deus, ou o destino me pregava. Destino…  Foi quando Santiago apareceu, sempre sorrateiro de repente estava lá em pé ao meu lado. Resguardei-me em silêncio, mas meus pensamentos se tumultuaram ainda mais. 

 Nas duas últimas vezes que vi Santiago seu comportamento foi ameno, sem investidas, de poucas palavras. E depois de ter dito todas aquelas coisas… Percebi que ele oscilava entre essas duas posturas, mas como se estivesse em constância batalha consigo mesmo. Santiago calculava o que dizia, cauteloso demais, como se cuidasse para não contar um segredo.

 Olhei para ele e vi que me observava, tinha parado de tirar fotos e olhava para mim através das chamas.

 Deixei que meus olhos se embaçassem e continuei mirando seu rosto sem ver. Retomando a noite anterior outra vez. Eu buscara refúgio nas águas do oceano, senti raiva e confusão por tudo. Minha vida estava embolada, e eu queria entender, quis encarar e não fugir. Entretanto não senti coragem, eu poderia simplificar tudo, mas não é possível dizer que algo chegou ao fim quando não é verdade. Não se pode forçar o que não é, muito menos tapar os olhos para o que o notório e inegável. 

 Eu passara o dia envolta em um torpor absurdo, com os pensamentos vagos voltados ao que eu me arriscaria fazer. Não decidi nada. No último momento apenas fiz, eu apenas estava ali. 

 De repente essas reflexões foram varridas de minha mente, cansada de tentar atinar compreensões que ainda estavam distantes de meu alcance. O piloto automático me fez levantar, mirei as chamas da fogueira crepitante, era realmente linda e os estouros me davam vontade de rir e dançar junto com elas. 

 Eu tinha que reprimir meu impulso, não podia esquecer disso… Mas continuei olhando através do fogo, tentando enxergar meu futuro.

—No qué se aproximar un poco? – Santiago propôs cauteloso.

Não respondi, não desviei os olhos da fogueira. Santiago deu uma risadinha. —No precisa se acanhar ahora…

 Foi a minha vez de rir, só não exatamente por achar graça, constrangimento pelo o que eu sentia ou deboche, mas tudo embolado e nada. 

 Atraída pelo som do mar e a luminosidade quente e perigosa a minha frente dei um passo e mais outro, parei ao lado da erupção e virei para Santiago. Seus olhos brilhavam como águas incendiadas, ele abriu um sorriso amplo e deu uma risada livre. 

 Algo bizarro estava acontecendo. Eu não devia estar me sentindo atraída daquela forma pelo perigo, por algo que eu sabia que me levaria a um precipício, onde eu não veria saída a não ser, me jogar.

 Santiago esticou o braço e pegou o buquê de rosas, levantou. – Segure eso.

 Segurei as rosas nos braços levando ao nariz para sentir o aroma, senti-me deslocada e ao mesmo tempo curiosa, mas nessa ironia não levantei o rosto, sabia que ele fixava o meu. 

—Lembra do que te falle? –Indagou em voz baixa.

 A voz dele era tão suave quanto as pontas dos dedos que tocavam minha bochecha, deslizaram até minha orelha pondo meu cabelo para trás, depois a outra mão levantou a alça de meu vestido devolvendo-a ao ombro.

 Enrijeci, apertando as flores nos braços, emudecida. Eu queria dizer-lhe para parar, eu tinha que fazê-lo parar, eu não podia me permitir esquecer… Esquecer… 

 O gesto em sua atitude foi como se aquilo fosse banal e familiar, mas não era. Recuei um passo, não queria que ele tocasse em mim outra vez.

—Jogue las flores no fuego, as faça explodir, rodopie e sorria. – Instruiu se afastando com naturalidade, erguendo a câmera nas mãos. Trinquei os dentes e olhei para ele por um momento.

—Pode começar.

—Okay, estou me sentindo muito idiota – murmurei com sarcasmo.

—No, usted está con vergonha de yo – sorriu. – Usted sabe apreciar la arte y gosta de hacer parte dela. És graciosa e exótica, libre. Apenas sinta. – E já não me olhava mais por si mesmo, mas pelas lentes da câmera, talvez mais ele mesmo do que eu poderia imaginar.

Havia um desafio explicito, pelo menos para mim era e meu maldito defeito era ser impulsiva daquele jeito.

 Invocada por suas palavras certeiras serrei os olhos, comecei a contornar a fogueira devagar. Os estouros continuavam e pareciam mais altos agora que eu prestava atenção neles de novo. Uma explosão sobressaiu mais alta, eu levei um susto, gritei dando um pulo para trás e ri involuntariamente.

—Mira la… Mira lo efecto das luces in su cabelo, lo quanto estão vérmelos, e su vestido esvoaçando con lo vento! No sientes que é parte dessa chama?

 Eu continuava contornando a pira, fitando o lume prateado. O vento soprava, varrendo-me para dentro de mim mesma, acendendo e alimentando as labaredas insanas, me arrastando para o núcleo.  Meus pés afundavam, minha cabeça pegava fogo, meus passos aceleravam percorrendo a borda do vulcão. 

 E perdi completamente a noção.

 As primazias da beleza foram sacrificadas uma a uma no fogo, nas estrelas que explodiam. Queimaram, encolheram, embalada pelo seu riso, o mar, murmúrio, vento, ardente, frio, sussurro, flash, crepitante. Eu rodei devagar, sentindo meu corpo pesado e leve simultaneamente, joguei as rosas no fogo, possuída, girei, ventou, queimou, afundando no universo, no vazio e no tempo, me parou, colidi, me empurrou, cai, parei e o mundo continuou girando e girando, tonta.

—Usted está bien? Cariño? Jasmin? – Com a consciência por um fio fui erguida nos braços de alguém. Alguém que me chamava com urgência. Balbuciei, as pálpebras pesadas apagando a luz.

—Usted solo está tonta, continue quietinha… – sussurrou tirando o cabelo do meu rosto, pude ouvir ao longe um riso baixo.

 Meu peito arfava descontrolado, meu estomago embrulhou, mas minha pele ainda queimava e essa sensação era revigorante, alucinada. As estrelinhas ainda explodiam, eu queria vê-las, mas não conseguia levantar. Abri os olhos aos poucos e levantei um pouco a cabeça, a minha frente se desembaçou e ganhou forma o rosto de Santiago em uma expressão compenetrada. Fitando-me sentado na areia com os braços envolvendo os joelhos. 

 Devolvi o olhar com estranheza e voltei a pender a cabeça tonta. O senti levantar e sentar ao meu lado, o mar murmurava, sonolenta, eu me segurava na frágil divisão entre a consciência e a inconsciência. Larguei-me nos braços da areia e me aconcheguei. Virei-me de lado para olhar para ele, Santiago estava muito sério, de repente a incomum alegria que lhe assaltara desaparecera. Fui tomada por um arrependimento sufocante. O que eu estou fazendo aqui? Por que vim aqui?

—O que? – Minha voz doeu nos pulmões sem ar, na mente desorientada.

—O que?

—As fotos ficaram boas? – Não reconheci minha própria voz, tendo a impressão de outra pessoa falava por mim.

Santiago mantinha as sobrancelhas tensas, sorriu com os lábios comprimidos e disse;

—Olha su estado, usted me asustou, lo ritual fue quase macabro. – Olhou-me enviesado, e o sorriso pendendo da cabeça inclinada para o lado.

 Virei o rosto como se essa visão tivesse queimado meus olhos soltando um arquejar do fundo do peito. Busquei o som do mar como refúgio, ouvia-se apenas as ondas e os últimos estalos da fogueira. Depois desse meu gesto o silêncio que se vazia além disto redobrou, como uma segunda camada de cobertor, recobrindo a expectativa latente. Eu tinha muita consciência dos grãos de areia sob mim, do vento frio na minha pele, e do meu coração batendo forte. Mas nenhum de nós sabia o que estava acontecendo.

 Abri meus olhos outra vez depois de uma longa viajem dispersa, se tivesse como, eu teria recuado, mas só pude arregalar os olhos e trancar a respiração. Santiago soergue-se em um braço e apoiou a outra mão na areia colocando-se acima de mim, próximo o bastante para mexas de seu cabelo liso roçar no meu nariz. Ele me encarava através daquela cortina negra solta ao vento. Apenas seu rosto estava tão próximo.

 Sem reação continuei exatamente como estava, incapaz de mover se quer o diafragma para aliviar os pulmões retesados. Naquele momento eu senti muito medo, um pavor lancinante, olhando para baixo vendo o abismo.

—Você vai se aproveitar de mim? Se for essa é uma ótima oportunidade – fui muito sarcástica, mas minha voz soou distante.

 A expressão dele apenas se fechou ainda mais, as sobrancelhas grossas fincadas tornando o olhar composto de consternação e agonia. Travando uma guerra interna, permaneceu mudo. E não havia nada que eu pudesse falar, minha provocação fora ignorada. Mas não havia apenas tristeza em sua expressão. Através dos muros e por detrás de todo o controle tremulo e arrogância, eu podia ver o olhar torturado de solidão. Um olhar tão perdido e assombrado que vi o meu próprio reflexo.

 Então Santiago aproximou mais o rosto do meu, bem devagar, e o que aconteceu em seguida eu não entendi, foi atordoante. Com a aproximação percebi que sua respiração estava sendo contida, e ele arfou baixo em meu ouvido recuando depressa. Levantou brusca e rapidamente, ficando de joelhos na areia e prendendo minhas pernas entre as dele por um momento. Santiago fechou os olhos e pendeu para o lado sentado na areia.

 Eu levantei também, rápido demais e minha cabeça girou, procurei o rosto dele.

—Se quisiese teria te besado ahora – falou em tom duro e distante.

—Eu sei – sussurrei mais para mim mesma, caindo na real com pavor. E as seguintes palavras vazaram por meus lábios como água transbordando dum copo em seu limite;

—E você não quer? Pensei fosse seu grande objetivo nessa perseguição absurda — eu só queria entender.

—Você quer que eu a beije? – indagou em português, o tom sério.

 O ar entalou na minha garganta, eu não queria ter chegado a este ponto. Santiago não desviava o olhar de mim, eu também era incapaz de fazê-lo hipnotizada por aquele conflito. 

 Eu procurava por uma brecha por onde escapar, uma quebra de onda que me empurrasse para cima daquelas águas turbulentas, mas eu não consegui alcançar a superfície.

De repente eu quis dizer muitas coisas, mas travei a língua nos dentes, engoli tudo que me arrependeria de revelar – para mim mesma também – e eu não confiava muito em mim esta noite.

 Santiago se pôs de pé com agilidade, suas mãos estavam em punhos serrados, eu podia ver as veias e tendões tensos e latejantes. Sua postura era rígida dos pés à cabeça, me fuzilando com o olhar.

—Yo también – falou.

Uni as sobrancelhas – o que?

 Observei confusa ele agachar e recolher a câmera, nossas bolsas e calçados com repentina lentidão. Isso me fez pensar em como ele havia interpretado meu silêncio, que tivesse pensado que consenti e agora ele estava satisfeito. “Venci” ele devia estar cantarolando mentalmente. Esse pensamento converteu ao turbilhão em meu intimo para uma fúria sufocante. Santiago se afastava, depois de eu ter dado esse vacilo ele ia embora.

 Avancei atrás dele afundando os pés na areia e parei abruptamente. Santiago abaixou, procurou algo na areia, entre as pétalas de rosa varridas pelo vento e achou rapidamente o que buscava. Levantou-se e virou para mim.

—O que é isso? – Olhei desconfiada para a mão bronzeada, era algo pequeno entre seus dedos, não dava para eu ver.

—Pegue logo isso – disse impaciente, abriu minha mão deixando um objeto escorregar para a palma.

 Eu demorei demais e meu brinco de pena voou, caindo mais adiante na areia úmida. Santiago me lançou um olhar zombeteiro. Fui atrás do meu brinco e coloquei de volta na orelha. Dei uma passo errado e senti uma fisgada na sola do pé, ouvi o chiado da minha pele queimando e dei um grito pulando de um pé só. Ardia, ardia muito, cada vez mais!

—Ai, droga! Arh… – não pude parar sacudir o pé.

—Que pasa? — Santiago voltou-se para mim e percebendo o que tinha acontecido largou as coisas no chão e se aproximou rapidamente.

 Ele segurou meu pé para imobilizá-lo e fez uma careta ao examinar a queimadura, rapidamente tirou a brasa viva do meu pé com o dedo, a ardência diminuiu na hora. Suspirei de alivio momentâneo, mas a queimadura voltou a arder latejando furiosamente. Mordi o lábio inferior com força e dobrei a perna para ver o estrago. Havia uma bola vermelha bem no meio do meu pé, duas camadas de pele queimadas.

 Santiago abriu a mochila e pegou com uma garrafa d’água, eu retrai a perna mordendo o lábio de dor. Ele olhou para mim e meneou a cabeça pegando no meu pé outra vez, eu deixei que ele molhasse a queimadura aos poucos, e mais uma vez a ardência amenizou.

 —Seu idiota! Culpa sua! – Levantei abruptamente e cambaleei tentando não enfiar o pé na areia.

—Minha culpa? – Pôs-se de pé. — Usted que no olha por dónde anda!

—Isso foi ideia sua! – Virei as costas e sai andando, arrastando um calcanhar.

—Yo no te obriguei a vir! Onde é que tu vais adando desse jeito? – Puxou meu braço, eu puxei de volta e ele me soltou. 

Lancei-lhe um olhar endiabrado, manquei até minha bolsa, abaixei e calcei minhas sandálias, frouxa no pé ferido. Levantei e Santiago estava ao meu lado, pegou a mochila dele, me olhou irritado com olhos endurecidos.

—Déjame ayudar – estendeu a mão. 

 Ergui o queixo e mesmo de mal jeito eu caminhei pela areia em direção a estrada. Santiago me ultrapassou com facilidade, o percurso até a moto foi longo demais, o suficiente para me fazer querer gritar. O silêncio foi repleto de gritos, cheio de perguntas que ambos remoíamos, mas nenhum proferiu.

 Ele subiu na moto e tocou o dedo no acelerador, a máquina rugiu pesado, como se respondendo ao cumprimento do dono. Eu continuei mancando, me afastando.

—Aonde é que você vai?

—Estou indo embora.

—Deixa de ser pirracenta e sienta logo aquí. Precisa lavar e hacer un curativo nesse pé – elevou a voz rouca para mim.

—Não vou a lugar algum com você! – Gritei por sobre o ombro.

—Haha, ahora usted piensa nisso… – ele dirigia devagar acompanhando meu andar.

—Está enganado se pensa que o que aconteceu aqui vai se repetir! 

Santiago parou a moto, o ouvi suspirar. Continuei;

—Se está pensando que foi um espécie de prelimi…

 Ele acelerou com um rugido alto abafando minha voz — Tá maluca? – E sorriu com os lábios e com os olhos, o vento oceânico espalhava seus cabelos para trás. – Sobe.

 Senti a sola do meu pé repuxar e latejar, ainda ardia. Naquele momento portas se fecharam em meu coração, mordi a língua e subi na maldita motocicleta. Fechei os olhos, encostando o mínimo possível nele, praguejando baixinho por estar ali.

 Santiago fez o motor rugir, a moto tremer e com um rompante solavanco acelerou dando a partida, me obrigando a me agarrar a sua cintura como uma perereca.

 Escapuliu por meus lábios, uma risada. Arregalei os olhos desesperada! Repreendendo-me por isso, decidi enfiar-me dentro de mim mesma, muitos vaciles para apenas uma noite.

                                                 §

  A moto virou a esquina e parou em frente ao condomínio, ao longe ouvia-se samba, nos bares e restaurantes do quarteirão. Desci da moto e cambaleei subindo a calçada, desorientada após viajem na qual meu intimo experimentou grande conflito.

 Santiago ficou me encarando, parecia lutar com as palavras que gostaria de dizer, sua boca abriu e fechou duas vezes e ele nada disse.

—Como eu faço pra te pagar pelo serviço e pegar as fotos? – Eu não sabia o que estava falando, falei qualquer coisa. Uma estupidez imprudente.

Mas Santiago riu, de novo com aquela liberdade, um som juvenil e rouco. Eu franzi o cenho, reprimindo um sorriso sem nexo, uma careta esquisita. Devia ter alguma droga no meu café, eu não estava no meu normal, tendo ações e reações descabidas.  Fechei a cara.

 Santiago se virou de lado na moto e serrou os olhos — pode pagar agora. Mexeu as sobrancelhas para cima e para baixo.

Soltei uma exclamação horrorizada virando as costas.

—Ei, ei, ei – segurou meu braço. - Volte aquí… No va.

Virou-me para ele, o rosto bem mais alto que o meu, o peso do olhar intenso queria dizer alguma coisa.

—O que? – Arqueei uma sobrancelha.

—Apenas un obrigado paga – disse.

 Ele recuou um passo e largou meu braço. Seu rosto se fechou novamente e ele parecia estar olhando alguma coisa ao longe, algo terrível e doloroso que só ele podia ver. Um olhar tão perdido e assombrado que eu fui para o lado dele antes que pudesse me dar conta do que fazia. 

 Lembrei de repente da festa de Amanda, de ter sentido simpatia pela reclusão obscura daquele homem de barba, que até então eu pensava se chamar Miguel. Recordei de ter me identificado e reconhecido o sentimento de desorientação naquele olhar afiado e o pior era que eu sabia apreciar a vista de cima do penhasco, e me sentia tentada a me jogar.

 Erik, o Fantasma da Ópera. Ele amou Christine com todas as suas forças, deu-lhe sua música, na necessidade de se sentir amado fez de ações inescrupulosas para alcançar o coração dela. Erik, “pobre Erik”! Só lhe faltou ser amado para ser bom.

 E Heathcliff… Oh, seus sentimentos viscerais o levaram a outro nível, além da compreensão racional, em um amor além da morte. Ele foi cruel, vingou-se de Cathy por ter desistido, por ter sido tão egoísta e mesquinha! Foi devastado, seu coração despe 

daçado, tão cego em suas dores, tão humano em sua vingança! 

 Eu os compreendia, eu os adotara. Eram personagens fictícios, mas eu sentia suas dores e as abraçava, porque nelas eu via a raiz do meu próprio suplicio. Todo mundo tem um lado obscuro. 

 Santiago não seria como eles? Cheio de segredos, de caminhos desconhecidos, talvez cheio de dores… Talvez ele tivesse seus motivos, como Erik, e como Heathcliff.

 O meu instinto propício a vitorianos obscuros talvez fosse a minha condenação. Eu estava curiosa em relação a ele. Desde o início, eu lembro de tê-lo comparado aos vampiros e personagens obscuros de minha adolescência fantasiosa secreta.

 As minha ideais se fragmentaram e um novo esboço foi desenhado sem minha permissão, descortinou-se e eu tive visão do que me negava a admitir, mas até então não passava disso, um esboço difuso.

 Santiago parecia à deriva, em seu próprio mundo de infelicidade. Isso tudo era uma novidade para mim, eu estava atordoada.

—Respondendo a su pregunta; besarte no es mi mayor objetivo – rompeu o silêncio por fim. – Pensei que já tivesse entendido… 

Abri a boca para falar, mas ele ergueu o dedo para que eu me calasse, eu nem sabia o que ia dizer.

—No voy ficar me repetindo. Usted precisa achar las respostas. – Fez uma pausa baixando os olhos, e terminou a frase em um sussurro mais para si mesmo. – É cedo demais.

—Você me confunde.

Ele sorriu enviesado fazendo um meneio com a cabeça para o lado. Andou para trás, e subiu na moto.

—Você também – falou em português, partindo de imediato.

 Ouvi o ronco do motor potente ressoar na Avenida vazia até esvaecer, balancei a cabeça aturdida e subi as escadas mancando. 

Conti-nua! ;D

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ALOHA! *O*/

Texto postado em 11/01/2014 | 0 notes | Source | Reblog •